Unificado na Hespanha no ultimo quartel do seculo XVI, Portugal era mais conquistado pelos costumes, pela lingua e pelo theatro, do que pelas leis. Durante todo o seculo XVII deliciamo-nos com as comedias famosas de capa y espada, e com a sua fecundidade muitos escriptores portuguezes enriqueceram o reportorio castelhano. As melhores companhias de actores hespanhóes achavam em Portugal asylo e dinheiro. No manuscripto da bibliotheca nacional de Madrid, Genealogia, origen y noticia de los Comediantes de España, enumeram-se os que vieram a Portugal. Em todas as festas publicas eram obrigadas as comedias de Lope de Vega; os escriptores dramaticos hespanhóes, como Lope de Vega, Calderon, Tirso de Molina, Alarcon, Montalban, Mira de Mescua, Velez de Guevara e outros menos celebres, dramatisavam a historia portugueza, desde os amores de Inez de Castro até á propria revolução de 1640. Os escriptores portuguezes que adoptaram o estylo da comedia de capa y espada tornaram-se celebres entre os ingenios do theatro hespanhol. Sacudido o jugo politico da Hespanha, entraram em Portugal outras influencias litterarias e artisticas, mas não passaram do meio restricto da côrte.
3.o Periodo: Os Árcades (Seculo XVIII):
Não existia vida nacional no seculo XVIII; a monarchia passára á ostentação do cesarismo, em que a auctoridade adormentava a opinião publica com o deslumbramento da sua sumptuosidade; o rei era senhor de tudo, e nada se emprehendia sem a acção official. Os ministros de D. João V foram primeiramente dois jesuitas, e depois o varatojano Frei Gaspar, chefe da seita de illuminados a Jacobêa, e o monarcha sinceramente possuido do poder paternal sobre o seu povo entendia servir o bem da nação mandando dizer missas por alma dos seus subditos, e dispendendo a riqueza publica na fundação de estupendas basilicas, como a de Mafra e a Patriarchal, e na compra de indulgencias. O que era o povo, dil-o pittorescamente Beckford nas suas Cartas, que nunca vira terra com mais mendigos, mais grotescamente esfrangalhados, com pustulas mais asquerosamente assoalhadas á caridade; e dizia lord Tiralwey, que Portugal se dividia em duas partes, a que suspirava pelo Messias, e a que ainda sonhava com a vinda de D. Sebastião. E comtudo, no seculo das maiores audacias, Portugal iniciou os dois factos capitaes, a suppressão da Companhia de Jesus e a secularisação do ensino; tal era a força da corrente revolucionaria, que a propria monarchia, sob a acção ministerial, cooperava activamente embora inconsciente na dissolução do regimen catholico-feudal.
Os homens que sentiam a necessidade de uma renovação litteraria só achavam possivel o facto intervindo um decreto do rei. A Academia, que segundo os costumes italianos era uma reunião familiar, com musica, poesia e refrescos, recebeu sob o cesarismo uma protecção official, que assegurou a sua existencia, para dogmatisar e restaurar. Ignorava-se que a litteratura era um reflexo do estado social e uma expressão do genio nacional; contra a decadencia que estava na ordem das cousas e atrophiava os espiritos, impunham-se os moldes greco-romanos, com a mesma inintelligencia com que o curandeiro ataca o symptoma morbido. Permaneciam as causas, e os mais sinceros esforços ficavam sempre improficuos. Estafou-se inutilmente a Academia de Historia portugueza, apezar do poderoso influxo official que a sustentava. Erigiu-se a Academia dos Anonymos de José Freire Montarroyo, mas caíu na glorificação banal de D. João V; os Ericeiras prestaram os seus palacios, e póde-se julgar que sob a influencia critica do Verdadeiro Methodo de estudar, de Verney, que analysava o Culteranismo, se organisou a Academia dos Occultos, que veiu a servir de nucleo á Arcadia de Lisboa. A relação entre estas duas Academias explica-nos a reacção estabelecida contra o anterior elemento seiscentista, representado por Pina e Mello e D. Joaquim Bernardes, e o purismo classico que procurava restabelecer a auctoridade dos Quinhentistas.
A Arcadia de Lisboa.—Foi fundada por homens de alta posição official, principalmente desembargadores que se envergonhavam de ser poetas, como Diniz (Elpino Nonacriense) que conservou inéditas as suas composições. Os Estatutos da Arcadia eram tão draconianos, que para ser admittido como socio exigia-se a unanimidade, e para a critica das obras um sigilo absoluto. Floresceu de 1757 até 1774, e representa historicamente o absolutismo do canon classico em boa alliança com o despotismo politico e o intolerantismo religioso. Exercendo-se em dogmatisar, esterilisou-se na indecisão, gastando as suas energias na discussão se deveria admittir na linguagem litteraria o neologismo e o archaismo. Desde que os árcades perderam o favor official do omnipotente ministro de D. José, desappareceu a sua actividade, e a academia desagregou-se silenciosamente.
O poeta, como vêmos pelo exemplo de Tolentino—«acabava por fim pedindo esmola;» era uma especie de creado de casa fidalga, que festejava os annos dos titulares e esperava que o brindassem com um fato. Ainda não havia a dignidade do escriptor. O Marquez de Pombal viu na Arcadia uma Companhia com o privilegio ou monopolio das composições metricas, e assim a protegeria; desde que alguns espiritos sympathisaram com as doutrinas pedagogicas do Oratorio, o ministro tirou-lhes o favor official, e aos que suspeitou de fallarem mal do seu governo metteu-os no carcere, como ao Garção que morreu no Limoeiro.
Os Dissidentes da Arcadia.—A verdadeira feição do seculo XVIII na poesia não está no que produziu a Arcadia adstricta á imitação classica; sob a pressão do despotismo houve protestos irreflectidos da natureza, como se observa n’esse phenomeno de perversão mental da poesia erotica. O molinismo dos conventos e a sensualidade do cesarismo patrocinavam este genero litterario, de que foram victimas quasi todos os poetas do seculo XVIII. Esse phenomeno é conhecido em França pelo nome de Sadismo.
O Camões do Rocio e o Lobo da Madragôa revelam melhor a depressão moral sob o cesarismo, do que as campanudas odes horacianas. Garção, Tolentino e Filinto Elysio sacrificaram ao gosto erotico; foi a doença do seculo, cuja intensidade se nota na quantidade de nomes que cultivaram o genero, taes como Domingos Monteiro de Albuquerque, Pedro José Constancio, Fr. José Botelho Torrezão, o Abbade de Jazende, o P.e José Agostinho de Macedo, Bocage, Pimentel Maldonado e outros.
Na constituição da Arcadia de Lisboa alguns poetas afamados do tempo não foram convidados, e outros mais tarde não foram admittidos por causa do seu genio satyrico. N’este caso apparecem Nicoláo Tolentino, que metrificava irreprehensivelmente, e Francisco Manoel do Nascimento (Filinto) que com outros poetas constituiu o Grupo da Ribeira das Náos. Cruzou-se por vezes o tiroteio das satyras, acirrando-se uns e outros, a ponto de ser conhecido o seu principal conflicto pela designação da Guerra dos Poetas, a proposito da cantora Zamperini.
Havia no seculo XVIII um costume em que a poesia se tornava um elemento das festas; chamava-se-lhe Outeiro poetico, em que se versejava nas eleições dos abbadeçados. Seria ainda uma apagada reminiscencia das Côrtes de Amor. Tolentino pinta com traços pittorescos este costume, que formava reputações.[209]