A perfeição do lyrismo de Camões exerceu uma influencia immediata; seguiram-o os lyricos Heitor da Silveira, Simão da Silveira, Estacio de Faria, Antonio de Abreu, André de Quadros, André Falcão de Resende, D. Manoel de Portugal, Vasco Mousinho de Quevedo, Balthazar Estaço e Diogo de Couto, que começou a fazer um commentario aos Lusiadas. A naturalidade e verdade da sua inspiração foi comprehendida pela nação, que estava incorporada na unidade hespanhola pela Casa de Austria; serviu de alento ao sentimento de patria e de estimulo á sua autonomia. O valor da obra de Camões resume-se na eloquente phrase de Schlegel: Camões é uma litteratura inteira.
No seculo XVI appareceu nas principaes litteraturas da Europa a preoccupação de uma Epopêa moderna, individual, academica, pautada pelos moldes virgilianos. Estavam esquecidas ou diluidas em novellas as grandes Gestas francezas; faltava um assumpto que servisse de thema ao ideal heroico, e fosse compativel com a sympathia da sociedade moderna; por isso os poetas francezes, italianos e hespanhóes malbarataram esforços sem conseguir essa creação esthetica. Camões deu fórma á moderna Epopêa, por que idealisou o facto capital—a posse da terra e a lucta do homem com a natureza, d’onde deriva a civilisação da Europa na sua synthese activa. O assumpto dos Lusiadas tinha sido entrevisto por outros espiritos, mas faltou-lhes as condições para attingirem a fórma eterna. João de Barros no Panegyrico a D. João III, falla da necessidade de um poema das Navegações portuguezas, e no Clarimundo chega a esboçar quarenta outavas sobre o grande quadro. Os chronistas Damião de Góes e Castanheda reconhecem que é necessario uma fórma mais solemne que a da historia para a exaltar as navegações portuguezas; o poeta Antonio Ferreira incita Caminha a essa empreza; Jorge de Monte-mór tentava um poema do Descobrimento da India oriental, e Pedro da Costa Perestrello rasga com desespero o seu poema sobre a expedição de Vasco da Gama, quando viu os Lusiadas de Camões, como conta Faria e Sousa. Camões realisando esta intensa aspiração seguiu o typo virgiliano, que o gosto do tempo exigia; mas salvou-o a intuição do genio, com que soube agrupar em volta do facto historico todas as bellas tradições e lendas da nacionalidade portugueza. É isto o que o distingue dos outros poetas épicos, que julgaram fazer epopêas pondo as chronicas em verso, como Jeronymo Côrte Real com o Segundo Cêrco de Diu, em 1574, Luiz Brandão com a Elegiada, em 1588, Francisco de Andrade com o Primeiro Cêrco de Diu, em 1589. Na expedição inconsiderada de D. Sebastião á Africa, encarregou o monarcha a Diogo Bernardes de ser o seu Homero; Camões foi preterido pela influencia dos intrigantes palacianos, talvez o mediocre Jeronymo Côrte Real. Camões saberia inspirar-se da derrota, como o cantor de Roland. Depois da perda da autonomia nacional em 1580, morre o poeta, mas ficaram os Lusiadas como a unica força viva em que se apoiou a consciencia portugueza.
A Comedia e a Tragedia classicas.—Assombrado pelo que vira na Italia, maravilhado com as comedias de Ariosto, de Bibiena e de Machiavelli, no seu regresso a Portugal tentou Sá de Miranda renovar a litteratura dramatica, como o emprehendera com a poesia lyrica. Começou por protestar contra o titulo e a fórma dos Autos hieraticos, e a escrever no gosto italiano. Pallido reflexo da sociedade grega, as comedias latinas de Terencio serviram de typo para o renascimento do theatro classico, em que as hetairas e o miles gloriosus se transformavam nas cortezianas e no condotieri. Montaigne descreve este processo litterario: «Muitas vezes me occorre á phantasia, como no nosso tempo, aquelles que se entregam a fazer comedias (assim como os Italianos, que são os mais felizes) empregam trez ou quatro argumentos das de Terencio ou Plauto, para fazerem uma das suas; e accumulam em uma só comedia cinco ou seis contos de Boccacio.» (Ess., II, 10.) Sá de Miranda seguiu esta mesma pauta; o cardeal D. Henrique folgava em vêl-as representar. A Comedia classica sustentou-se entre os humanistas, servindo de ensaio litterario nos divertimentos e férias escholares. D’este costume falla Montaigne, ao descrever a influencia pedagogica de André de Gouvêa no Collegio de Guienne, em Bordéos: «j’ay soustenu les premiers personages ez tragedies latines de Buchanan, de Guerente et de Muret, que se representerent en nostre Collège de Guienne avecques dignité: en cela, Andreas Goveanus, nostre principal, comme en toutes aultres parties de sa charge, feut sans comparaison le plus grand principal de France.» (Ess., I, 25.) Em 1547 veiu André de Gouvêa a Portugal por chamado de Dom João III estabelecer o Collegio real em Coimbra, que os Jesuitas apanharam e converteram no seu Collegio das Artes. Sob a influencia de Mestre André e dos professores francezes é que mais se desenvolveu o gosto do theatro classico, e pela amisade de Diogo de Teive com Antonio Ferreira é que este seria levado a tentar os seus primeiros ensaios dramaticos. Nos prologos das suas comedias se reconhece o esforço para sustentar uma fórma dramatica sem condições de vida. Adstringindo-se ás regras da comedia motoria, os quinhentistas esqueceram-se da realidade da vida, sendo muitas vezes incomprehensiveis as situações e mesmo o plano da acção.
Como a Comedia, tambem a Tragedia classica foi conhecida indirectamente, não dos modelos gregos, mas das imitações latinas de Seneca. Separada dos seus elementos mythicos, d’onde derivára, foi esta fórma reproduzida como mero artificio, visando os talentos que a imitavam a manter escrupulosamente as trez unidades. Ferreira, um dos mais elevados representantes do humanismo portuguez, teve um conhecimento directo da tragedia grega. Ao ensaiar esta nova fórma litteraria teve a felicidade de se compenetrar do verdadeiro espirito da fatalidade antiga, e de comprehender o valor de um assumpto nacional e moderno. Mas esta direcção justa não foi sustentada; a desgraça de Inez de Castro tornou-se o assumpto quasi exclusivo dos tragicos portuguezes desde os imitadores da comedia de capa y espada até aos exageros ultra-romanticos. A Tragedia classica foi desnaturada pelas Tragicomedias latinas dos Jesuitas, que dramatisavam assumptos biblicos, n’esse como que exercicio collegial, cuja representação com um apparato scenico assombroso durava por vezes dois e trez dias. O Collegio das Artes, de Coimbra, o de Santo Antão, de Lisboa, e a Universidade do Espirito Santo, de Evora, foram os centros em que os Jesuitas mais desenvolveram estes espectaculos tragicomicos. Eram essas Tragicomedias intermeadas de grandes córos cantados por estudantes, apresentando mutações phantasticas, a que se chamou tramoias. Na formatura do Prior do Crato representou-se em Santa Cruz a tragicomedia latina Golias; e quando D. Sebastião, ainda criança, em 1570 visitou Coimbra, assistiu á representação de uma tragicomedia do P.e Luiz da Cruz, que durou trez dias. Póde-se inferir, que por via das tragicomedias chegaram a Portugal as primeiras noticias da Opera, que estava ainda nos seus rudimentos, como os Madrigaes da Italia e os Ballets francezes, que se desenvolveram no seculo XVII.
2.o Periodo: Os Culteranistas (Seculo XVII):
Quando as Litteraturas se afastam das fontes naturaes da tradição seguindo uma imitação erudita, ou uma artificiosa originalidade, tornam-se o producto de uma aberração doentia; faltando-lhes a communicação com o publico e um destino social, apoiam-se nos preceitos banaes da rhetorica, e na superstição dos modelos. Deu-se no seculo XVII em todas as Litteraturas da Europa este desvio das suas bases naturaes; chamou-se a esta corrente do máo gosto, Culteranismo. Penetrou o seu influxo em Portugal de um modo absoluto, caracterisando todas as manifestações estheticas do seculo, e maculando a obra de espiritos superiores, como D. Francisco Manoel de Mello ou o Padre Antonio Vieira. O que se passou em Portugal foi simultaneo em Hespanha, Italia, França e Inglaterra, o que leva a considerar uma causa geral, immanente ao mesmo seculo. As Litteraturas confinavam-se nas côrtes e nas Academias. Toda e qualquer actividade da intelligencia humana, esthetica, scientifica ou philosophica, exercendo-se em um subjectivismo exclusivo e sem relação com o meio social, cáe na degenerescencia morbida. Quando a Philosophia ficou confinada nos claustros, longe da communicação com a realidade das cousas, ou a objectividade, deu a Scholastica, em que os cerebros especularam sobre entidades nominaes, sem o apoio dos factos scientificos, e sem o intuito de subordinar a uma concepção synthetica os dados do mundo objectivo; reduziu-se a philosophia a uma dialectica palavrosa, a uma argucia sophistica, e por fim a uma futilidade e inutilidade lamentaveis. A renovação philosophica de Bacon e Descartes até Augusto Comte, começou por arrancal-a do isolamento claustral, dando á especulação a complexidade dos elementos objectivos que constituem o mundo physico e moral. Fecundada pelas observações o experiencias physicas, a Philosophia libertava-se de um inane Ontologismo; mas as Litteraturas fechadas nas côrtes, e nas escholas e academias, cahiram nas banalidades do Humanismo. Por isso mesmo que a especulação intellectual activava o trabalho scientifico do seculo XVII, é que as manifestações estheticas foram prejudicadas. A rasão emancipava-se da auctoridade theologica; a Companhia de Jesus tornou-se o fóco de toda a educação publica, monopolisou o ensino, tomou conta das gerações novas, amoldou-lhes os cerebros, esgotou a rasão humana em cousas inuteis, com o prolongado ensino do latim, da rhetorica, da dialectica e da theologia. Os Jesuitas antepuzeram-se aos Humanistas, e sustentaram o scholasticismo; aonde dominaram como pedagogos não penetrou a sciencia; e as Academias, que se creavam como fócos de actividade mental, nos paizes mais catholicos tornaram-se exclusivamente litterarias, á maneira das Tertulias hespanholas, proseguindo o humanismo das escholas jesuiticas.
Este periodo seiscentista caracterisa-se por um impudente pedantismo, pela falta de senso commum no emprego das metaphoras; dava provas de culto, o que encobria a falta de pensamento em laboriosos hyperbatons, o que primava em sustentar theses ridiculas com gravidade, o que forjava anagrammas propheticos, o que engenhava labyrintos recheados de acrosticos, com versos lipogrammaticos ou chronogrammaticos, com a fórma de columna, de pyramide ou de calix.
Além da educação do automatico humanismo jesuitico, as côrtes, pelas conveniencias do euphuismo, reduziram a idealisação litteraria a uma indignidade pela bajulação obtida pela protecção official; os reis boçaes, a aristocracia frivola, emfim todos os prepotentes eram proclamados Mecenas. Foram numerosissimas as Academias litterarias em Portugal no seculo XVII, taes como a dos Ambientes, de 1615, a Sertoria, de Evora, de 1630, a dos Anonymos, de 1637, a dos Generosos, de 1647, a dos Singulares, de 1663, a dos Solitarios de Santarem, de 1664, e Conferencias discretas, de 1696. As bibliothecas estão repletas de manuscriptos d’este periodo litterario. Uma vez separados da naturalidade, não tinha limites a aberração mental; ha nos seiscentistas uma tendencia satyrica, que os absolve, por que protestavam contra o absurdo da moda.
No meio dos desconcertos dos Culteranistas destacam-se pela sua incontestavel superioridade no lyrismo, D. Francisco Manoel de Mello e Francisco Rodrigues Lobo. Conheceram estes dois eminentes poetas as tradições portuguezas; D. Francisco Manoel, que allude a muitos cantos e contos populares, estudou Sá de Miranda e imitou-o nas suas encantadoras Eclogas. A superioridade do lyrismo de Rodrigues Lobo, que estudára Camões, era explicada por Faria e Sousa como consequencia dos plagios feitos ao immortal poeta; é certo que Rodrigues Lobo conheceu as antigas serranilhas, mas as suas Eclogas são principalmente bellas por que se ligam a successos reaes da sua vida desgraçada.
Abundam n’este periodo culteranesco as Epopêas historicas, com o competente tempero da fabula, descripções, narrações e episodios, segundo a norma virgiliana. Na perversão do gosto houve intenções de annullar o poema de Camões, substituindo os Lusiadas pela Ulyssêa do desembargador Gabriel Pereira de Castro. Levantou-se tambem a polemica entre Tassistas e Camoistas, chegando-se a recorrer ás delações ao Santo Officio para fazer triumphar o partido que esquecido das tradições nacionaes queria por todos os modos impôr á admiração o poema de Tasso. O que mais impressiona é o facto da revindicação da autonomia nacional, pela revolução de 1640, não despertar a idealisação de tantos poetas épicos que metrificaram a mythologia dos falsos chronicões.