Á proclamação da liberdade de consciencia no seculo XVI, pela Reforma, corresponde essa outra emancipação do dogmatismo na arte, pelo Romantismo, com o qual a Allemanha no começo do seculo XIX propagou o principio da espontaneidade do sentimento. Em ambas as revoluções, religiosa e esthetica, existiu uma base commum: o regresso á tradição, quer a da Egreja primitiva, quer a das origens nacionaes. A Allemanha chegou a este resultado fundamental pelo trabalho erudito da descoberta das tradições germanicas, e pela renovação philosophica exercida na critica da Arte, suscitada práticamente pela necessidade de estimular o espirito da nação contra as desvairadas devastações napoleonicas. O influxo da Allemanha na transformação do Romantismo foi universalisado por M.me de Staël; em Portugal tambem uma mulher teve essa sympathica iniciativa. Herculano confessou dever á marqueza de Alorna a direcção dos seus primeiros passos na Litteratura: «Como madame de Staël, ella fazia voltar a imaginação da mocidade para a Allemanha, a qual veiu dar nova seiva á arte meridional, que vegetava na imitação servil das chamadas letras classicas...»

De facto a renovação do Romantismo correspondia a uma transformação social da Europa moderna pelo influxo dos principios da Revolução franceza; e se a nova eschola triumphou foi por que se encontrou em um novo meio social. As monarchias absolutas reagiam contra o direito das Constituições ou codigos da soberania nacional, e pretendiam restaurar o antigo e decahido regimen, ou pelo menos falsificar esse direito pela outorga ou concessão de Cartas constitucionaes. Aquelles que combatiam pela liberdade politica e civil, tanto na Italia e França, como em Hespanha e Portugal, abraçaram por instincto a nova concepção das Litteraturas, da mesma fórma que os trovadores provençaes tinham sido os proclamadores da independencia municipal, e os humanistas da Renascença os propugnadores do livre-exame.

Os chefes do Romantismo.—Os principaes promotores da renovação do Romantismo em Portugal foram dois emigrados liberaes, Almeida Garrett, que em 1823 fugira para França ante a restauração do absolutismo de D. João VI, que prejurára a Constituição de 1822, e Alexandre Herculano, que em 1831 fugira para Inglaterra ás forcas de Dom Miguel, que tambem prejurára a Carta constitucional de 1826. Garrett no seu regresso d’estas duas emigrações procurou descobrir o veio da tradição nacional, lançando as bases do Romanceiro portuguez; no poema Camões comprehendeu a mais alta expressão do genio nacional; na D. Branca, no Alfageme de Santarem, no Arco de Sant’Anna, universalisou no poema, no drama, no romance historico as bellas lendas antigas, que estavam dispersas e desconhecidas nas chronicas monachaes e monarchicas.

A acção exclusiva de Garrett na fundação do theatro portuguez manifesta-se na extraordinaria intuição do artista que comprehendeu o alcance da transformação da sociedade burgueza, para a qual o theatro era uma fórma tambem de liberdade. Teve o raro tino nas suas obras de inspirar-se nos conflictos do meio social, como se observa com a tragedia Catão, ligada ás aspirações liberaes de 1820; com o Camões, idealisado nos desalentos do desterro; com o Arco de Sant’Anna, vivificado pela resistencia do cêrco do Porto; com o Alfageme de Santarem, exprimindo a necessidade de recorrer á revolta, na crise terrivel do cabralismo em 1842.

Com a iniciação pois da liberdade constitucional appareceu uma vaga comprehensão do valor dos elementos tradicionaes como a base das litteraturas; com esta intuição pôde Garrett levantar o theatro portuguez. O drama Frei Luiz de Sousa hade ser sempre uma obra prima em todas as litteraturas modernas. A acção de Garrett ficou isolada por falta de uma geração intelligente; o theatro continuou reduzido a uma macaqueação dos dramas ultra-romanticos, por que surgiram as ambições politicas de um absolutismo mascarado em constitucionalismo, que perverteram e esgotaram todas as capacidades, que para engrandecimento pessoal se prestaram á hypocrisia liberal com que illudiram a nação. Ainda hoje a litteratura dramatica se acha na mesma esterilidade e mesquinhez em que a deixou a morte de Garrett; traduzem-se dramas pelo mesmo espirito com que na representação parlamentar se traduzem relatorios e leis.

Tambem com os desalentos da emigração e diante das situações reaes e sublimes do cêrco do Porto, soube Alexandre Herculano inspirar-se; na Harpa do Crente a sua poesia é viva. Comprehendendo a Edade media através dos romances de Walter Scott, fez romances historicos de segunda mão, cahindo por vezes n’esse mesmo ultra-romantismo que condemnára nos pareceres do Jornal do Conservatorio. A falta de uma concepção synthetica levou-o para o campo da historia critica, na doce esperança de exercer sobre Garrett essa influencia fecundante de Herder sobre Goëthe e de Thierry sobre Victor Hugo. Não foi secundado nos estudos historicos, e por isso a concepção da Edade media ficou em mera exterioridade que suscitou um impertinente prurido de banalidades no lyrismo, no theatro e no romance.

Os ultra-romanticos.—A primeira phase do Romantismo consistiu em todas as litteraturas em renovar com mais ou menos intelligencia as tradições nacionaes. Como as modernas nacionalidades provinham das transformações sociaes da Edade media, nas instituições, linguas, crenças, costumes e mesmo em quanto ás fórmas litterarias e artisticas, caíu-se insensivelmente na admiração exclusiva d’essa época profundamente poetica, e facil foi ás mediocridades o apossarem-se dos caracteres exteriores da vida medieval; repintando castellos, pontes levadiças, juras tremendas á meia noite, reprezalias de barões feudaes, ou pelo lado religioso despedidas de trovadores-cruzados para a Terra santa, apaixonados amantes cobrindo o seu fogo com as cinzas da penitencia claustral, tudo isto recortado como se fosse de cartão, dava uma litteratura romantica de soláos e xácaras, romances historicos e dramalhões tetricos. A esta inintelligencia de uma concepção fundamental, que caíu no exagero do processo, chamou-se o Ultra-Romantismo. Em quanto a Edade media era scientificamente estudada em todos os seus aspectos, os litteratos continuavam a explorar a nova rhetorica da emphase romantica, que se tornava tão inexpressiva como a rhetorica classica. Os talentos verdadeiros reagiram contra esta dissolução, procurando inspirar-se da realidade, da verdade do natural; mas n’este esforço rasoavel, excederam-se sacrificando o elemento ideal ou a representação subjectiva á reproducção ou descripção exacta do dado objectivo.

Dissolução do Romantismo: Eschola de Coimbra.—Causas immanentes ao nosso meio social mantiveram o gosto do Romantismo em Portugal, quando elle estava já em dissolução por toda a Europa. As necessidades do jornalismo da pedantocracia monarchico-representativa absorveram todos os talentos e vocações litterarias, que se esgotaram n’essas paixões e ambições, abandonando o estudo pela espectativa de uma pasta ministerial. A nação querendo revindicar a sua liberdade foi violentamente abafada por uma intervenção armada da Inglaterra e Hespanha, a reclamo de D. Maria II, para subjugar a revolução contra a oligarchia dos seus ministerios de resistencia. Edgar Quinet comprehendeu o alcance de tal attentado; tendo apreciado o esplendor da primeira iniciação romantica, vaticinou o paroxismo da nação, da sua vida intellectual e moral sob esta traição da realeza. A nação vergada brutalmente ao statu quo caíu na inconsciencia. Abafada toda a aspiração da liberdade, os talentos novos puzeram-se do lado do paço contra a nação, como Mendes Leal e Rebello da Silva; n’este interregno do espirito creador e original, ergueu-se Castilho, reduzindo a elaboração litteraria a traducções dos poetas latinos, e á cultura do estylo, independente das ideias. Mas peior do que isto, foi ainda a perversão do elogio mutuo, que favorecia o imperio das mediocridades e a aversão por toda a ideia ou innovação esthetica.

Tinha de dar-se a dissolução d’este ultra-romantismo extemporaneo; irrompeu em 1865 de um modo tempestuoso, dando logar á longa polemica da chamada Questão coimbrã, analoga ao que na Allemanha se passára com o Sturm und Drang. Proclamava-se a alliança da poesia e da philosophia, inspirando-se do sentimento da solidariedade humana, dando fórma ao ideal da Humanidade.

A poesia abandonada ao subjectivismo metaphysico, ia fatalmente cahir no romantismo mystico ou em um pessimismo doentio; carecia-se de uma disciplina critica. Pelos processos novos da critica comparativa applicados á historia politica e litteraria, á philologia, aos costumes ou ethnologia, ás tradições, é que Portugal se relacionou com o movimento intellectual e social da Europa. Com todos estes elementos novos da actividade mental, havia a necessidade de evitar a tendencia da especialisação, que amesquinha as intelligencias, ou a dispersão incoherente de estudos, que leva á banalidade acobertada com o verniz do estylo; essa somma de elementos novos fez reconhecer a necessidade de uma disciplina philosophica. Assim a Philosophia positiva veiu em um momento opportuno demarcar uma nova orientação na mentalidade portugueza, mostrando como terminada a revolução todos os esforços deviam convergir para activar o advento a uma edade de normalidade.