Os povos do occidente da Europa constituem uma grande confederação natural, uma mesma familia moral; a Italia, a Hespanha e Portugal reconhecem espontaneamente a França como o centro da hegemonia da civilisação latina. Separados politicamente por odios dynasticos, em que a Italia foi invadida pela Hespanha e pela França; em que pelos exercitos napoleonicos invadiu a Hespanha e Portugal a mesma França, que sob a Santa Alliança tornou a invadir a Hespanha sob a bandeira absolutista, estes paizes, á medida que se aproximam da comprehensão da democracia, vão reconhecendo que esses odios provinham do egoismo dos interesses monarchicos, que deram em resultado a decadencia da Civilisação occidental. A sciencia estudando a similaridade do grupo das linguas novo-latinas e comparando a evolução das Litteraturas romanicas ou meridionaes, reconstrue a unidade ethnica e moral dos estados do Occidente; e em quanto a democracia não funda em bases juridicas de federação esta solidariedade historica da França, Italia, Hespanha e Portugal, é indispensavel que essa conclusão scientifica se generalise na fórma de sentimento.

Pelo exame da marcha da historia moderna da Europa desde o seculo XII até ao seculo XIX, vê-se que a esse longo processo de dissolução do regimen catholico-feudal corresponde um trabalho reconstructivo. De Maistre, que tanto trabalhára para sustentar o regimen da Edade media, proclamava o facto evidente: «Tudo indica que caminhamos para uma nova Synthese.» Para elle, essa synthese seria uma reorganisação do christianismo para abranger a sociedade e a consciencia modernas que lhe fugiam; mas, os espiritos que seguiram o trabalho reconstructivo da rasão pela descoberta das verdades positivas das Sciencias experimentaes e pelo estabelecimento da liberdade civil, tambem proclamaram o advento da nova Synthese, como Comte, terminando a acção social das ficções theologicas e metaphysicas substituidas pela noção da solidariedade humana.

Eis pois determinado o sentimento fundamental que deve inspirar todos os themas estheticos. Por falta d’este sentimento universal e decisivo, é que na longa crise da dissolução do regimen catholico-feudal as Litteraturas fluctuaram na sua idealisação, imitando e parodiando sem intuito social; uma vez determinado, a missão do sentimento é chegar á synthese a que as luctas mental e social ainda não souberam dar fórma. Todo o systema das Bellas-Artes é chamado a cooperar n’esta missão para a qual foram impotentes os politicos, os sabios e os philosophos. É verdadeiramente assombrosa a percepção de Wagner, quando tendo analysado a anarchia da arte, formúla o grande destino da funcção esthetica: «Aonde outr’ora o artista desesperou, ahi começaram a politica e a philosophia; ahi, aonde hoje em dia a politica e a philosophia desesperam, é ahi que começa o artista.»[210] Todo o vasto corpo da Historia litteraria de Portugal que temos coordenado é a narrativa d’esses antecedentes do sentimento esthetico, que, pela comparação com as outras Litteraturas romanicas e relação com o meio social nos conduzem a uma clara deducção da Philosophia da Litteratura.

FIM

NOTAS DE RODAPÉ:

[210] Maravilha a concordancia do genio philosophico de Comte com a intuição artistica de Wagner; tudo nos confirma o valor e segurança da sua direcção mental.

NOTA BIBLIOGRAPHICA

Quem confrontar o presente livro com o que foi publicado em 1870 com o titulo de Introducção á Historia da Litteratura portugueza, poucas paginas encontrará semelhantes; pouco ou quasi nada aproveitámos da fórma da sua redacção, que era vacilante por falta de nitidez da ideia fundamental, mas reproduzimos sempre os factos, embora deslocados ou mal interpretados.

Vinte e cinco annos de estudo sobre a Historia da Litteratura portugueza impõem a obrigação de estar ao corrente dos problemas indispensaveis para a comprehensão d’esta litteratura. Tendo de proceder a uma edição integral d’esta obra, não me podia contentar com esse primeiro e imperfeito esboço. Tambem não devia atiral-o fóra por inutil e aleijado; submetti-o a uma revisão minuciosa, reconhecendo—quanto é mais facil emendar do que crear de novo,—circumstancia que tornará perdoaveis os meus antigos erros.

Eis as modificações a que submettemos o nosso primitivo trabalho: