O que tragia o pendou a aquilom
e vendid'é sempr'a traiçom
nom vem al Maio.
O que tragia o pendou sen oyto,
e a sa gente nom dava pam coyto,
nom vem al Maio.
E no final da canção:
O que tragia pendom de cadarço
macar nom veo no mez de Março,
nom vem al Maio.
O que da guerra foy por recaùdo
macar em Burgos fez pintar escudo,
nom vem al Maio.
Indubitavelmente o codice madrileno provém de uma outra fonte, por que tem omissões e accrescentamentos, que o differenciam do Codice da Vaticana; mas a ordem das canções e os nomes dos trovadores, communs aos dois, provam-nos que ambos foram copiados de cancioneiros já organisados dos quaes um era já apographo. A circumstancia de começarem ambos pela trova de Fernão Gonçalves, e de se lêr no codice do Roma a nota: "Manca da fol. ij in fino a fol. 43" provam-nos que o original primitivo já andava truncado e é isto o que dá a mais alta importancia ao Indice de Colocci do Cancioneiro perdido que era a cópia mais antiga, por que o monumento diplomatico estava ainda completo. Monaci não desconheceu o valor das variantes do Cancioneirinho.
Depois de toda esta discussão sobre os diminutos vestigios que restam de alguns cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV, a aproximação de numerosos factos secundarios, e as inducções que se formam sobre elles, exigem uma recapitulação clara para que se possam tirar a limpo algumas conclusões geraes. Representamos os cancioneiros que são conhecidos por letras maiusculas, e aquelles cuja existencia se pode inferir pelas variantes são notados por letras minusculas; com estes signaes formaremos uma tentativa de filiação de todos esses cancioneiros em um schema, que poderá, ser modificado á medida que se descobrirem novos subsidios:
A.] O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos,—citado no seu testamento, e deixado a Affonso XI, tambem trovador. Tendo em vista o genio compilador do Conde e o andar ligado ao seu Nobiliario o Codice da Ajuda, cancioneiro de varios auctores, pode-se inferir que o Livro das Cantigas não era exclusivamente do Conde, mas sim uma compilação sua. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se canções do Conde, de Affonso XI e grupos de canções do Codice da Ajuda em numero de cincoenta e seis assignadas por fidalgos da côrte de D. Diniz.
B.] O Cancioneiro de D. Diniz (Livro das Trovas de Elrei Dom Diniz; existiu separado em volume pelo que se sabe pelo Catalogo dos Livros de Uso de el-rei Dom Duarte. Foi encorporado no codice da Vaticana depois da canção 79. B¹.] Outro, dos Freires de Christo de Thomar.
C.] O Cancioneiro da Ajuda, começa em folhas 41, a parte anterior está perdida e o final não chegou a ser terminado. Isto explica as pequenas relações com o Codice de Roma.—As 24 canções achadas na Bibliotheca de Evora e as guardas da encadernação do Nobiliario provam o muito que se perdeu d'este cancioneiro. Não se chegou a escrever a musica das canções, nem a inscrever-lhes os nomes dos auctores que as assignavam, e por isso conclue-se que não chegou a servir para a collecção de Roma, que é assignada. Não chegaram a entrar n'elle canções de el-rei D. Diniz, e portanto entre este e o Cancioneiro de Roma pode fixar-se a existencia de outro cancioneiro hoje desconhecido.