Á maneira que o nome de Ouriato ia resoando na calada da noite, tambem na reminiscencia da soldadesca se acordava a vaga relação com o nome glorioso de um valente lusitano, que em tempos não remotos acompanhando Annibal, fôra combater os romanos até á propria Italia. Esse ainda lembrado VIRIATHO, que no seu odio contra Roma transpozera os Pyreneos e os Alpes, dizem que morrera na batalha de Cannas; mas o seu odio não morreu, é redivivo. E por ventura não será Viriatho o que agora reapparece na figura do Maioral da Mésta, do valente Ouriato? Como elle, é um salvador que resurge, um vingador da liberdade da Lusitania?
Este prestigio espalhou-se entre a soldadesca, influindo por modo absoluto na confiança do commando de Ouriato. E desde aquelle momento os dois nomes identificaram-se, como synthetisando a missão do guerreiro que votava a sua vida á defeza da Lusitania livre de todo o jugo estrangeiro. Emquanto levavam o novo general em triumpho, e as acclamações repercutiam por todo o acampamento lusitano, os chefes depostos conformaram-se pela necessidade da situação desesperada a tudo cumprirem. Acercaram-se do novo chefe, para receberem as particularidades do plano da cilada sob a fórma apparente de retirada urgentissima, logo ao primeiro alvor. Todas estas disposições fôram organisadas aproveitando o costume dos generaes romanos de suspenderem a marcha durante a noite.
As cohortes lusas, emquanto aguardavam o momento de se moverem, cantavam coreadamente:
Acclamação de Viriatho
Ha setenta e dois annos
Que falta aos Lusitanos
Um braço que os defenda
Da escravidão horrenda!
Rumor incerto espalha,
Que morreu na batalha
Que se travou em Cannas
Contra as Legiões romanas.
É rumor não exacto;
Não morreu Viriatho!
Porque o odio não morre,
E esse odio nos soccorre.
Rejuvenesceu hoje!
Viriatho nos arroje
Á implacavel guerra
Por esta livre Terra.
Salvador desejado,
Não debalde esperado,
Vencerão seus tyrannos
Por ti os Lusitanos.