Assim conversando, a brilhante Cavalgada entrou em Toletum, dirigindo-se ao terreiro da cidade em que estava erecta a columna denominada Pilumnos, que symbolisa a independencia da communa ou Municipio. Foi ahi, que antes de destroçarem, pediram a Idevor, para que recitasse a Saga ou narrativa tradicional que se dizia existir da Viria ou Collar de ouro dos tres Crescentes.

Idevor não se fez rogado, e começou em uma recitação quasi melodica o poema em que era celebrado este Symbolo da Confederação primitiva dos estados da Lusonia, antes de um invasor oriental ter penetrado na Hespanha, explorando-lhe as riquezas, e dissolvendo-a pelo espirito separatista com que enfraquecera a raça. Como os Aédos de Hellade, diante das tribus doricas, eolias e acheanas, Idevor unificava idealmente as tribus lusas recitando o poema de:

CHRYSAÔR

Do Herminio Maior na immensa altura
Vê-se o Corgo das Mós, que as nuvens fura,
Formado por tres grupos de rochedos,
Como irmãos que se apoiam firmes, quedos!
Sobre o do centro, como em pedestal,
Bloco estupendo, grandioso assenta;
De um Gigante a cabeça representa,
De longe contornando no horisonte
Negro perfil de mysteriosa fronte.

Das convulsões da Natureza activa,
No calor de uma lucta primitiva,
São taes blocos relêvos manifestos:
Mas ha quem reconheça n'esses restos,
No bloco e nos tres grupos de rochedos,
Da Lusonia antiquissimos segredos:
Governou esta terra um patriarcha,
Théron, desde o norte ao sul a abarca,
E aos extrangeiros a fronteira fecha.

A seus tres filhos este Estado deixa:

—Se a terra de Lusonia dividida
Fôr entre vós, por certo enfraquecida
Fica exposta ao assalto do estrangeiro,
D'Africa, ou levantino aventureiro.
Mas se a Lusonia unida se conserva,
Não entra aqui indomita caterva;
E grande, desde o Sacro Promontorio
Até ao mar Cantabrico, este emporio
Que vae dos Pyreneus té á vertente,
Será da Hespanha o estado mais potente.—
Do mundo era por toda a redondeza
Théron, por causa da sem egual riqueza,
De Chrysaôr por nome conhecido.
Pelo pezo da edade amortecido,
Chama os tres filhos; vieram reverentes,
E um aureo Collar de tres Crescentes
Lhes entregou, no seu momento extremo:

—Dou-vos a insignia do Poder supremo.
Os trez Crescentes d'este aureo Collar,
Pela crença da religião lunar,
As tres phases da Lua symbolisa.
São a Lusonia integra, indivisa,
Abrangendo a Tartéssida virente,
Tarraconia, e Callaecia, a mesma gente!
Ah, se partirdes este Collar de ouro,
Cae a soberania... escuro agouro.

E receiando o temeroso evento
O velho Chrysaôr exhala o alento.

Deram os tres Irmãos ao pae amado
Nas Cavernas do Cantaro Delgado,
Sepultura em pyramides alpinas,
Que têm o aspecto de um castello em ruinas.
Ante o cadaver, na alta sepultura,
Entre si, cada um dos Irmãos jura
Não partir o Collar dos tres Crescentes,
Mantendo unidas as lusonias Gentes.
Em catacumba do Covão do Boi
O Collar de Ouro escondido foi,
Fixando, do local para lembrança,
Aquelle d'onde a vista longe alcança
Sobre o Cantaro Magro ingente bôjo
Que de bruta Carranca tem o antojo.
Resguardado na Arca de um fraguedo,
Os tres Irmãos em mutuo segredo
Conservam da Lusonia, ora indivisa,
Do Poder soberano essa divisa.
Ha entre os tres Irmãos tanta harmonia,
Que sentindo o que cada um sentia,
Ou unidos no mesmo pensamento,
Realisam o accordo em um momento,
Um longe, na Callaecia laboriosa,
Outro áquem na Tartéssida formosa,
Ou já na Tarraconia grande e forte.