Quanta prosperidade d'esta sorte
De Lusonia engrandece os tres Estados,
Rica de bens, dinheiros, e de gados!
Mas a faina do Mar fôra esquecida,
Trocada pelas da agricola vida!
Ah! d'aqui a catastrophe resulta,
Que a liberdade lusa atroz sepulta.

Quantos Povos invejam com insania
Os viçosos Jardins da Bastitania,
E vêm pelos cantares dos Homerides
Buscar o Elysio e os Jardins Hispérides,
Crendo encontrar aqui o Velocino,
Que reconhecem ser gado bovino!
Aventureiros lá do mundo Asiano,
Arribaram ao porto Gaditano,
Affrontando do pélago o terror,
Para roubar o gado a Chrysaôr!
Heracles forte, o tyrio, vinha á frente,
Doésta os tres Irmãos, soberbamente,
Para um combate a corpo, singular.
Terrivel o recontro, atroz o azar!
Caiu dos Tres Irmãos o irmão mais velho,
Heracles o esmaga sob um joelho!
E a mesma dôr, que a vida lhe arrebata
Aos outros dois Irmãos é a que os mata.
Desde então a Lusonia sem commando,
Viu-se roubada de estrangeiro bando,
Que a invade, a devasta e a governa,
Perdida a ideia da união fraterna!
A aspiração moral ficou intacta!
Do Collar de ouro nunca se desata
Nenhum dos Tres magnificos Crescentes;
E á espera de outra Éra e novas gentes,
Aguarda, ao fim do secular destrôço,
Um bravo e audaz a quem cinja o pescoço.

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O sabio Idevor, dominado por uma commoção profunda, interrompeu a recitação do Poema de Chrysaôr, que segundo a tradição contava milhares de annos de vetustade; e de facto os successos referidos narravam as primeiras invasões no territorio hispanico, que antecederam todos os documentos ou monumentos da historia.

Os chefes das cidades confederadas applaudiram com os seus renchilidos e vivas o recitador, o Endre sapiente; o velho, mostrando o Collar de ouro dos tres Crescentes, avançou para junto de Viriatho, e depois de fazer uma vénia solemne lançou-lhe ao pescoço a Viria da triplice soberania.

[XVI]

Emquanto os Cavalleiros decorados de Collares de ouro de um só Crescente rodeavam o novo Caudilho lusitano, começou a ajuntar-se muito povo pelo empenho de admirarem de perto o vingador, aquelle que soubera inflingir a formidanda derrota ao exercito consular. E naturalmente aos gritos com que se saudavam as varias regiões autonomas:—Viva a Callaecia! Viva a Tartéssida!—começavam-se a organisar dansas peculiares dos montanhões e dos ribeirinhos, vistosas e com caracter guerreiro, outras surprehendentes pela agilidade dos pés e dos saltos, com um sapateado rythmico, ululando phrases que tornavam mais delirante o enthusiasmo. A dansa mais querida era a propriamente armada, formando uma grande roda ou circulo girando ora sobre a direita, ora sobre a esquerda, por homens de mãos dadas, mas tendo cada um a lança, da qual lhe provinha o nome de Palotêo ou Paulitos, ora avançando, e já recuando ao compasso do canto de um Côro gigantesco, terminando no cabo de todos os passos por um simulacro de batalha.

No fim do animado palotêo, appareceu um grupo de mocetonas gaditanas, formosas e desenvoltas, com braceletes ricos e armilhas nos braços e pernas, dansando á moda da Tartéssida, e com seus adufes, dando-lhe um aspecto religioso orgiastico, estonteante. Os Romanos, que vieram á Hespanha Ulterior, sentiram-se fascinados por estas dansas das soalhas ou castanholas metalicas, e memoraram em seus livros a Betica crusmata e a Tartessiaca aera, que tanto iria enlouquecer a mocidade dourada da Cidade eterna. Proseguindo na sua dansa fôram as bailadeiras beticas approximando-se do grupo em que estava Viriatho, dirigindo-lhe em Côro em fórma de corranda:

A Canção da Viria

Onde ha fontes de agua pura,
Vamos a sêde matar.