Viriatho escutava com encanto e assombro a observação de Andergus, e sentiu-se animado de uma intima confiança com aquella revelação: as espadas lusitanas eram de aço. E Andergus appresentou-lhe uma espada:
—Vêdes! aqui está uma espada romana; tem de extensão um pé e quatro polegadas, larga de tres dedos, cortando com dois gumes, e de ponta aguçada, punho do proprio metal. Serve para ferir de golpe de alto a baixo, ou de estocada a fundo. Mas... reparae como esta espada se entorta e fica vergada.
E calcando a espada debaixo do pé esquerdo curvou-a:
—É romana; cá está a marca gravada. Reparae: ABVRBCDCIII. Não conheceis talvez o que querem dizer estas letras: Ab urbe condita, da fundação de Roma, no anno seiscentos e tres.
—Ah! do anno da matança. Acudiu Viriatho.
—Agora vêde esta nossa espada toledana; um golpe d'ella corta no ferro como se fôsse em chumbo. É mais comprida do que a romana uns dois palmos, e de folha mais estreita. É mais leve, e incute o golpe mais longe, porque a tempéra do aço dispensa a grossura, necessaria ao ferro doce. É com estas espadas que nos havemos achar frente a frente com os Romanos; elles não conhecem esta nossa vantagem.
No semblante de Viriatho transluziu um raio de alegria; e abraçando Andergus, como um d'aquelles de quem dependia a liberdade da Lusitania:
—Não temeis que um dia vos roubem o segredo da tempéra do aço?
—Esse segredo está n'estas aguas do Tagus, e nas suas areias auriferas. É aqui n'esta região que sómente se póde dar ao ferro em brasa a dureza impenetravel.
Viriatho ficou pensativo, e como que voltando a si de um transporte, exclamou com jubilo: