—Uma terra que tempéra com as suas forças occultas o ferro por essa fórma unica, essa terra só póde ser pisada por homens livres communicando ás suas fibras a rijeza do aço. Ah, sinto em mim alguma cousa d'essa tempera das espadas de Toletum.
Andergus fallou-lhe mysteriosamente:
—Não é só a agua e as areias auriferas do Tagus que dão ao ferro essa força inquebrantavel; nem tampouco ser o ferro das minas de Mondragon; este céo tambem entra para ahi em alguma cousa. Reparae para este céo azul e profundo. Quando o metal está derretido, e á sua superficie a calda reflecte esse azul ferrete do céo, é quando álgum influxo da abobada etherea diamantina desceu e veiu dar-lhe tão assombrosa qualidade.
Andergus fallava com uma confiança absoluta em Viriatho, e n'aquelle momento para o caudilho lusitano não guardava segredos. Depois, com um certo orgulho de tratar com Viriatho, de quem tanto se fallava, e maravilhado de o encontrar lhano e despido de toda a soberba, confessou-lhe:
—Muito quizera forjar por minha mão uma Espada, que fôsse a vossa companheira nas batalhas que ainda tendes de dar contra o Invasor romano. Não devo fazel-o; ha uma Espada heroica já consagrada por victorias, com o poder que torna invencivel aquelle que a cingir, e é essa a que vos compete.
—Eu nunca ouvi fallar d'essa Espada.
—É a espada Gaizus! devolveu promptamente Andergus: Não sei aonde ella está occulta, mas ha por certo quem o saiba. É um talisman de liberdade. Dizem que está enterrada, e creio que em chão lusitano, ou com certeza na sepultura de algum bravo. Se Indibilis, Mandonio e Salondico a tivessem brandido! Ah, se a espada Gaizus apparecer, e vier á vossa mão, saberão os romanos o que é um raio...
Viriatho presentiu que uma força maravilhosa se ia desvendando; mas Andergus fallava de uma tradição vaga, e nada mais podia adiantar. E levando o caudilho lusitano pelas officinas, parando ao pé das forjas, das bigornas e rebolos, em que trabalhavam activos armeiros, mostrava-lhe as armas diversas que estavam fabricando:
—Já podestes vêr a Spatha e o Gladius, comparando-os com a nossa Espada hispanica de aço puro, com uma nevrura ao meio ou especie de quina; agora reparae para esta Espada curta, é a Machoera, á maneira de punhal, para combater corpo a corpo, mas é propriamente uma adaga. Verdadeiramente lusitana é a Rhanda, a faca ou naifa de quasi dois palmos, pendurada á cinta, e que acompanha sempre o homem quer nos trabalhos dos campos ou nos da guerra. Até isto os Romanos nos roubaram, porque de ha muito deram em usar a Rhanda pendurada ao lado direito. Se nós fossemos a reclamar o que nos pertence, tambem como conhecedor pratico posso attestar, que a Lancea romana é imitada da nossa lança ou chuço peninsular: tem uma ponta de cobre, outra de ferro, e algumas como a Soliferrata são completamente de ferro. Mas, deixemos aos homens que nos devastam dizendo que nos querem civilisar, a gloria dos seus roubos; aqui estão as Tragulas, com a sua ponta em fórma de anzol, arma terrivel que tem ferido generaes carthaginezes e consules romanos.
—Tenho mais confiança na Falcata, uma gadanha que chega a dar os resultados de uma boa espada.—Acudiu Viriatho, terminando o seu pensamento:—Quando o povo quer, com as suas foices, gadanhos, forquilhas e engaços, é capaz de levar adiante de si o poder do mundo. Em Roma já se diz, que o mais destemido general não é capaz de fazer virar as costas a um Cantabro. Resta-me a esperança de que ainda hão de tremer ao encarar um Lusitano, que nenhuma calamidade descorçôa.