E se bem o disseram melhor o cumpriram.
A noticia da derrota vergonhosa de Plancio produziu em Roma uma commoção inconcebivel. Uns acreditavam que as minas de prata e as riquezas da Lusitania ficariam para sempre estancadas, e exclamavam com rancor: É preciso anniquillar esse povo barbaro, que assim se atreve a resistir contra a civilisação da grande e generosa Roma. Que o Pretor Caio Plancio seja chamado a Roma, para dar conta dos seus actos, d'esses miserandos feitos com que infamou as armas romanas, cujo prestigio é a base do poder da Cidade eterna.
E Plancio nem tempo teve para reorganisar o exercito com que se salvára depois da derrota nas faldas do Monte-Veneris; chamado a Roma, para apresentar-se diante do Senado, elle partiu menos seguro do que Galba; não levava barras de prata e ouro para corromper os seus juizes, não lhe deram tempo para isso. A narrativa da campanha na Lusitania era inacreditavel, e por isso a sentença estava prevista,—a deposição e o desterro, para que não se fallasse mais d'elle, e para que os futuros generaes apprendessem no temeroso exemplo.
[XX]
Emquanto os Romanos se preparavam para novas operações de guerra, Viriatho estendeu as suas correrias para o norte, por toda a Celtiberia, até ao Ebro; veiu depois a léste até á Edetania, Contestania; e passando por Castalon, Tucci e Obulca, penetrou na Oretanía. Era um reconhecimento dos territorios e das povoações! sabia aonde teria facil refugio nas cavernas e antas, e que gentes o apoiariam contra o invasor estrangeiro. Na sua passagem rapida ia agrupando quantos se insurgiam contra o dominio romano, lembrados da sangrenta traição de Galba. Quando Viriatho pisava já o solo da Carpetania, vieram ao seu encontro homens alemtejanos com uma mensagem; traziam a Crantara, a Lança ensanguentada, e a entregaram ao destemido Cabecilha. Depois que Viriatho sopezou a Lança, entregou-a a um dos seus companheiros, que a fôram passando de mão em mão, partindo em seguida os mesmo quatro homens com ella. Significava aquelle symbolo a convocação dos chefes militares e dos governadores das Behetrias para comparecerem no Conselho armado. Ia celebrar-se o Conselho no Castro da Colla, junto da grandiosa Anta da Candieira, na Serra d'Ossa; alli jaziam as ossadas dos antigos Lusonios, quando a sua terra não tinha sido ainda invadida pelos Iberos, nem assaltada pelos Celtas, nem explorada pelos mercadores phenicios, nem pelos latrocinos dos Romanos. No ádito sagrado das suas sepulturas é que os Chefes lusitanos consultavam o ecco dos espiritos, nas resoluções irrevogaveis de sacrificio imposto pela lucta. Em uma das enormes lages da Anta da Candieira existe um buraco aberto a meia altura do chão, tendo um palmo em quadrado de diametro; é o unico em toda a peninsula hispanica. É por esse buraco, que o chefe dos Endres, quando esta corporação hieratica não estava ainda desmembrada, interrogava os mortos sobre o destino social das tribus, e sobre a sorte das batalhas; interrogava para dentro da caverna subterranea, e collocando o ouvido a esse buraco escutava os eccos mysteriosos que só elle em uma concentração subjectiva ouvia e explicava aos que vinham alli chamados ao Conselho armado.
Em poucos dias de marcha Viriatho chegou, atravessando charnecas de mato curto e enfezado, e por entre montados de zimbro e azinho, até á chapada de rochas schistosas, aonde no cabeço mais saliente se erguia a Anta veneranda. Infundia um pavor quasi sagrado a vista d'essas sete fortes columnas ou esteios talhados sem artificio, implantados na terra: sobre quatro d'elles assentava uma vasta lage em fórma de mesa, como ára dos sacrificios. Outras lagens cobriam um subterraneo, que era a sepultura dos Antepassados. Logo que Viriatho chegou ao cabêço em que a Anta se eleva, veiu ao seu encontro um velho risonho, que o saudou abençoando-o. Era Idevor, o derradeiro dos Endres, ou pelo menos aquelle que depois de todas as perseguições conservava a tradição das tribus lusonicas; era elle que nas commemorações dos finados, annualmente, alli vinha depôr, na pedra furada as offerendas do banquete funerario; era elle que interrogava os mortos, e collocava o ouvido attento no orificio da pedra que os cobria.
O Conselho armado estava reunido em volta da Anta da Candieira; estavam alli representados os Carpetanos, os Vettões, os Vacceos, os Callaicos, os Artabros; tratava-se da defeza contra o Romano implacavel que se preparava para a desforra de tantas derrotas. Viam-se alli figuras esbeltas de homens, trigueiros, de cabellos compridos cahidos pelos hombros; ligeiros, armados com escudos pequenos, e punhal comprido á cinta; envergavam couraças de linho, tendo por cima a cóta de malha, e nas cabeças os capacetes de couro. Depois de terem feito os seus jogos heroicos, alguns offereciam á Divindade lançando sobre a mesa da Anta, mãos decepadas de vencidos romanos. Idevor avançou para a Pedra furada, ajoelhou e debruçou-se sobre ella, interrogando para dentro. Sentia-se um rumor soturno, como a resonancia de funda caverna. Depois, longo tempo Idevor pareceu escutar; e quebrando inesperadamente o silencio que pezava sobre todos os guerrilheiros e chefes das Contrebias, vociferou com intimativa:
—Viriatho? Viriatho! Nunca serás vencido em batalha! Nunca morrerás ás mãos dos Romanos!
Era isso que Idevor ouvira no rumor do oráculo dos mortos. Repetiu-o depois fitando com assombro Viriatho. Os companheiros vieram abraçal-o pela consagração, que o proclamava invencivel; fitavam-o com espanto, como se, desde aquelle momento, se tornasse um sêr sobrehumano. Disse-lhe Minouro:
—Agora em vez de um Pretor, póde Roma enviar-nos dois, para aparar melhor o pezo da derrota.