—Entrego-te a Espada invencivel nas batalhas. Tu, e todo aquelle que a brandir pela Lusitania têm certa a victoria. Que ella passe de mão em mão, e de edade em edade.
Viriatho apoderou-se da Espada com enthusiasmo; beijou-a, mirou-a com desvanecimento, e brandindo-a no ár, gritou:
—Hade ser livre a Lusitania.
A espada que o velho endre sacou de dentro da sepultura ancestral era uma lamina curva, tendo afiada a folha por um dos lados inteiramente, e pelo outro até um terço apenas; tinha a ponta aguçada, terminando a curva por fórma que servia para ferir de ponta e simultaneamente de gume. O fio era tão resistente e cortante, que se fôsse a Espada brandida com força decepava instantaneamente uma cabeça. Quem tivesse visto mundo, reconheceria que aquella Espada era semelhante em tudo á Copide oriental, com que batalham os Argivos, ou á Sicca dos Persas e Thracios; mas emquanto aquellas eram forjadas de ferro batido, esta que estava occulta ha centenas de annos n'aquella sepultura, tinha uma tempera tal, que cortava o proprio ferro, e era, de uma flexibilidade que a tornava inquebrantavel. Não era indifferente a comparação com a Sicca dos Persas, por que d'esse povo guerreiro se conta que viera á Peninsula hispanica como invasor, e que Mithra, o Mediador de Ahura, com uma Espada de Lamina curva matára o Touro, que symbolisava as Crenças e a Cultura dos Povos occidentaes. A Espada começou a apparecer com um caracter mysterioso! Pertenceria ella ás éras primitivas d'essas espantosas luctas das raças do Oriente? No seu punho, que terminava com uma cabeça de Dragão, estavam ornatos de incrustações de ouro com os desenhos usados pelos Espadeiros de Toletum. Havia o quer que é de mysterioso; por que o povo ao fallar de uma Espada magica ou invencivel que existira na Hespanha antiga, diz ainda: que sete vezes fôra temperada no sangue de um Dragão! A sua tempéra não será esse segredo que só os armeiros de Toletum conservam no mais absoluto segredo? E as incrustações de ouro, não serão a prova de que as areias auriferas do Tagus misturadas no ferro derretido é que lhe dão esse poder cortante o incomparavel do aço.
Idevor, correndo a mão ao longo da lamina, descobriu sem esforço a face lisa de uma vaga côr azulada, e que semelhava o cariz do céo; entregou-a a Viriatho, e elle proprio cingiu-lh'a á cinta do lado direito, dizendo:
—Esta Espada encontrou o braço digno de brandil-a no ár. Ella tem um nome, como têm todas as Espadas dos Heroes; são como elles uma entidade, com quem se consorciam; chama-se Gaizus, segundo as tradições religiosas que se transmittiram dos povos scythicos e dacios. E se a insignia da Viria dos tres Crescentes, que hoje usas como supremo chefe, te dá a rasão do titulo de Viriatho, de agora em diante como portador da Espada maravilhosa serás conhecido entre os que te acompanharem até á morte pelo nome de Porto-Gaizus...
Effectivamente a Espada que symbolisava o Deus da guerra, entre numerosas tribus scythicas e liguricas tinha o nome de Gaizus, e entre os kimricos Gaisus, de Hesus entre as hordas celticas, e Gaisos entre os ramos goticos. Era essa Espada que se espetava no chão, tornando-o sagrado para ahi se constituir a assembleia ao ár livre e o tribunal do julgamento. A Espada era a representação divina e o emblema da fecundidade, por que lampejava como o raio celeste.
Viriatho espetou a Espada Gaizus na terra, reunindo-se todos os guerreiros em volta; e Idevor proferiu a
Benção da Espada
Fita de luz traça no ár o raio,
Quando encastella nuvens a rajada:
É assim esta Espada!