Quem descobrir a lamina fulgente
No revolvido chão,
Cumprirá—a missão
De tornar livre a soffredora Gente,
Dando-lhe a consciencia de Nação.

E feito o sacrificio pelo mais sabio dos Endres, os membros do Conselho armado comeram em commum o que traziam em seus farneis, pães de glande de carvalho rotundifolio, pernas de carneiro assado, e despejavam os picheis de céria ou zytho encostados aos grandes esteios da Anta; e depois de gritos festivos, ouvidas as ordens de Viriatho, debandaram cantando, pelos campos de Ourique, seguindo para as suas terras em um

Coral de Tripudio

Terra da Patria!
Querida terra,
Liberta e altiva!
Na paz, na guerra
A alma idolatre-a,
Para ella viva.

Nosso chão patrio,
Terra querida,
Sempre liberta!
De um mundo és átrio,
Nunca vencida,
Por ti—álerta!

Terra sagrada
Da Patria amada,
Sê triumphante!
Pequena e forte,
Até á morte
Avante! ávante!

[XXI]

Quando os chefes das Contrebias pisaram terras a que não tinha chegado a devastação da guerra, encontraram ranchadas de mulheres trabalhando nos campos, alegres e risonhas, ouvindo-se de longe as cantigas com que aligeiravam a faina do dia. Approximaram-se da lavrada, e notaram que vigorosas mocetonas, de olhos castanhos e cabello preto, com arrecadas de ouro nas orelhas, contas de ambar e crystal raiado de preto e azul ao pescoço, descalças de pé e perna, andavam n'aquella encosta fazendo a sementeira do linho. Ellas não se apavoraram com a passagem da cavalgada. Os Cavalleiros que se deixaram ficar atraz, fôram-se approximando do rancho, simulando interesse pela suavidade das cantigas, que lhes faziam saudades dos seus casaes e villares, de que andavam ausentes desde que se empenharam na resistencia contra os romanos. É certo que a alguns d'esses guerrilheiros, requeimados pelo sol e pelas geadas, acudiram as lagrimas aos olhos. Cantavam tres raparigas alternadamente uma Cantilena dos Trabalhos do Linho, que na sua emoção fazia sentir o perfume da terra, por que todos elles combatiam. Entoava uma d'ellas, como deitando o pé da cantiga:

Quem anda a semear o linho,
Bem sabe que hade viçar
Para trabalhos passar.

Tambem quem semêa amores
Aqui, além, á ventura,
Sem se arrecear de dôres
Doce esperança procura;
E nascem-lhe em vez de flôres
Trabalhos para passar.