Antes o linho semear
Pelos vallados e encosta,
Do que um olhar sem resposta,
Desdens que são de matar;
O amor que se não desgosta
Não póde raíz deitar.
E emquanto as outras moças iam fazendo a sementeira, disse uma para a que cantava:
—Caenia! não descubras o teu segredo; deixa cantar Nilliata.
E começou logo outra rapariga, continuando na mesma toada, mas com um timbre de arrancar a alma:
Pelos trabalhos do linho
Está-se a gente a entender:
Nasce o amor para soffrer.
D'entre abrolhos do caminho
Quantas flôres a nascer!
Foi quando vim a entender
Que me davas com carinho
Tua vontade e querer,
Pondo fim ao meu soffrer.
A mesma voz que interrompeu a que levantára a cantiga:
—Aponia! não fiques para traz; ou tu já não és cantadeira de fama?
Ouviu-se logo outra voz ainda mais terna, de uma frescura de mocidade, e de paixão commovente:
Bota uma flôr azulada
O linho, estando a florir:
Tem essa côr teu sorrir!