Aproveitando o enthusiasmo e confiança das suas tropas pela derrota estrondosa de Unimano, avançou Viriatho para o norte, transpondo a margem direita do Tagus. Não havia tempo a perder; era urgente ir ao encontro do Pretor Caio Nigidio. As esculcas trouxeram a Viriatho a aterradora noticia de que esse segundo corpo do exercito romano vagava pela Beira Alta devastando, incendiando granjas e casaes, roubando gados e aniquilando as sementeiras para reduzir pela fome a população trabalhadora e pacifica. Era preciso sustar o passo a Nigidio, agora enfraquecido pela impotencia de Unimano. Viriatho avançou a marchas forçadas, contando a cada momento encontrar o exercito pretorial.
Proximo já das faldas dos grandes Herminios, vieram as esculcas trazer ao cabecilha a noticia, de que Nigidio acampára o seu exercito dentro da Cava, que já então começava a ser conhecida entre os povos das cercanias pelo nome de Cava de Viriatho, gloriosos por saberem que alli o Maioral da Mésta abrigava os gados, quando desciam da serra.
A alegria de Viriatho foi vivissima com a noticia do acampamento de Nigidio dentro da Cava, em que se considerava seguro, sobretudo para o aquartelamento durante a noite, despreoccupado de toda a surpreza. Um plano decisivo fulgurou na mente do cabecilha; entreviu uma derrota inesperada, impossivel de ser prevista pelo Pretor, que considerava a Cava como uma Castra aestiva, para segurança do seu exercito. Qual fosse esse plano, a ninguem o communicava, resolvendo logo partir para o grande Herminio, acompanhado dos cavalleiros da trimarkisia, em marcha forçada. Por ventura iria combinar qualquer feito com os maioraes que constituem a Cabana da Mésta, seus antigos companheiros?
Viriatho chegára ao fim da tarde á povoação de Sedarça, logarejo na encosta da Serra, em que passára a infancia. Tudo eram recordações, que o enterneciam e o alentavam. De uma obscura choupana ouviu resoar um canto, e risadas frescas e animadas de raparigas que estavam junto de uma molinheira moendo bolotas, de cuja farinha se fabricava o bolo em uma larga certã de barro sobre brazas. Viriatho, que seguia sempre mais adiante dos companheiros, parou diante da porta, escutando o canto rythmado ao movimento da molinheira. Uma das raparigas ia cantando uma historia triste, talvez com realidade; era a canção narrativa,
A Dobadoira
Estava á porta assentada,
Dobando a sua meada
A velhinha;
Lenço branco na cabeça
A madeixa lhe sustinha,
E envolve-a como toalha:
Com que pressa
Sentada á porta trabalha!
O sol doira
Seu cabello,
Que tem a côr da geada:
Para passar o novello,
A velhinha
De vez em quando sustinha
A gemente dobadoira,
Em que anda branca meada.
Na dobadoira que gira,
Como a mente que delira,
Nem já toda a attenção pondo;
Nem no novello redondo,
Augmentando
Ao passo que o fio tira,
Todo o seu cuidado emprega!
Pobre e cega,
Anciada, de quando em quando
Com que tristeza suspira!
Por vezes, o movimento
Claro exprime
Tumultuar do pensamento,
Que no imo da alma a opprime
E quasi oura!
Muda angustia e paciencia
Reflecte-as a intermittencia
Do andamento
Ao voltear da dobadoira.
Fica-lhe na mão suspensa
O novello,
Concentrada não o enleia:
Na orfã netinha pensa!...
Vem-lhe á ideia
Por sua morte:
«Só, no mundo! entregue á sorte!
Pobre neta...»
Pezadello,
Que tanto a velhinha inquieta.