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Não ouvindo a dobadoira,
Que gemia intermittente,
Cahindo da mão dormente
O novello...
Com disvello,
A neta, cabeça loira,
Vem á porta
Vêr o que foi; com susto olha:
Uma lagrima inda molha
A face á velhinha morta.
No fim da canção uma das raparigas limpou as lagrimas; disse uma d'ellas:
—Tu, Nilliata, nunca ouves essa aravenga sem chorares.
—É que eu conheci a velhinha cega, e tantas tardes a vi sentada á porta a dobar.
Viriatho approximou-se da porta da choupana, e saudou as raparigas:
—É bem triste essa historia. O que é feito da pobre orfã?
—Ah, senhor! Houve uma alma apiedada que a tomou como filha. Todos os seus parentes tinham morrido nas guerras ou na escravidão dos romanos, e Idevor acudiu-lhe em tanto desamparo. O que nos vale são as boas almas. E se não fosse agora Viriatho, o que os romanos não fariam por essa nossa terra...
—E nunca vistes Viriatho? Perguntou o cabecilha com bondade.
As tres raparigas, que estavam em volta da molinheira, depois de terminado o cantar ou aravenga da Dobadoira, encetando uma conversa intima, trocaram sorrisos maliciosos: