Que vezes te vêjo
No limiar da porta
De pé a fiar!
Eu, indo a passar,
Cá de longe um beijo,
Que mal me conforta,
Enviava-te então;
N'essa occasião,
(D'isso não te accuso)
Bem notei que o fuso
Te cahiu da mão.

Se te cáe o fuso
Quando estás á porta,
Será por cuidado,
Imaginação,
Que haja eu causado
Com tanta paixão?
Mas, isso que importa!
Ou será ou não.
Seja como fôr,
Certos signaes são
De ânimo confuso;
Talvez falta de uso
De occultar o amor,
Pois te cáe o fuso
Tanta vez da mão.

Com que alegria,
Ou satisfação,
Levantára o fuso
Que te cáe ao chão;
Eu t'o entregaria
Com a cortezia
Que no amor é uso,
Declarando então:
—Eil-o, em homenagem
D'esta vassalagem
De leal coração;
Para sempre agora
Não cahirá, senhora,
Mais da vossa mão.

Emquanto o moço cantava a endecha apaixonada, todos procuravam com os olhos se se denunciava pelo rubor a rapariga que a inspirára. Por casualidade cahiu o fuso da mão a uma d'ellas, e logo as risadas animaram o Fiandão extraordinariamente.

Um outro cantador dedilhou no machête que trazia umas Coplilhas

Ao morder do fio

Que inveja me faz
E tanto me toca,
No fio do linho
Que puchas da roca,
Os beijos que dás!
Presinto, adivinho,
Se esse linho eu fosse,
Como me era doce
Sentir tua bocca!

Tu segues fiando,
De mim descuidada,
Á bocca levando
A linha delgada
Que torces nos dedos!
Do linho os segredos
Tivera eu a posse,
Que os sonhos provoca:
Como me era doce,
Se esse linho eu fosse,
Sentir tua bocca!

E emquanto na roca
Tu passas fiando,
No immenso desejo
Que acorda o que vêjo
E a mente traz louca,
Ficarei sonhando:
Se esse linho eu fosse,
Como me era doce
Morder-me tua bocca!

Estas coplilhas ainda provocaram mais ruido, procurando-se algum rubor traiçoeiro. Ditálcon, que estava junto de Viriatho, enlevado na contemplação d'aquelles costumes da serra, por que tinha ouvido fallar muito na finura do fio lusitano, disse para o cabecilha: