—Isto é uma terra de poetas.
—E de apaixonados...
A phrase de Viriatho foi interrompida por um facto extraordinario; n'aquelle momento chegava á sua presença um rancho de homens, que o procuravam com anciedade:
—Nós somos gente da povoação de Gouvêa, que vimos...
O seu aranzel confundiu-se com este outro, mais atrapalhado:
—Nós somos gente da povoação de Manteigas, que tambem aqui vimos...
Viriatho impoz silencio a esse grupo de homens valentes, que vinham armados de varapáos e mangoaes, e com lucidez apurou em poucas perguntas, que eram povoações rivaes, que por causa das aguas de rega se hostilisavam de longos tempos, havendo todos os annos grossa pancadaria e até mortes. Os de Gouvêa não queriam que as suas aguas vertentes fossem para os de Manteigas; estes não lh'as queriam pedir. Então Viriatho sentenciou:
—Agora, que a nossa terra está invadida pelo inimigo estrangeiro, os odios internos enfraquecem-nos. É de força unirmo-nos: Entre Manteigas e Gouvêa haja paz para sempre. Em todos os comêços do Anno estival a communa de Manteigas irá levar á de Gouvêa uma bilha de agua, em signal da compra por que adquiriu a posse das suas regas.
—Bem julgado! gritaram todos.
E depois de terem bebido tigellas de zitho, e acclamado Viriatho, voltaram alegres para as suas povoações, em que o symbolo da concordia mutua se guardou no costume immemorial.