—Por isso mesmo é que eu lhe tenho tanto amor. Quando andava nas fadigas da Mésta, quantas vezes fui eu ás aguas afamadas de Aljustrel, lá no Alemtejo, lavar as feridas malignas e pustulas do gado. Por lá encontrei sempre muitos pastores, que se iam tratar de feridas rebeldes, de sarna e até da lepra. O que sei dizer, é que de lá voltavam sempre curados.

—São aguas santas!

—Santas, sim, mas é preciso ter cautella, por que bebendo-se de mais... Os banhos, esses são milagrosos.

—Deveis conhecer umas aguas que nascem em Olyssipo, na falda meridional do Monte do Castello?

—Se conheço! Curam os catarros mais fundos, e acclaram tanto a voz, que até se diz que não ha musicos que egualem os d'essa terra. Se os Romanos se apoderassem d'essa cidade com certeza ahi edificariam sumptuosas Thermas.

—Toda esta nossa Lusitania é rica de aguas milagrosas.

E emquanto o carro com a Pedra focal continuava a marcha, Viriatho completou o seu pensamento:

—Como as aguas do Tagus não ha outras no mundo mais acerosas; nem as de Bilbile ou de Tarragona lhe chegam. Bem se vê pelo que se passou agora na Cava.

[XXX]

A Guerra dos ladrões, como chamavam em Roma á lucta heroica de um povo defendendo o seu territorio, os seus lares, a propria existencia, prolongava-se com desastres successivos para as armas sempre ufanas dos Quirites. Os barbaros do occidente eram exemplo de dignidade civica e de altura moral para o povo-rei, que se arrogava a supremacia da civilisação. As derrotas quasi simultaneas de Unimano e Nigidio occultaram-se por alguns dias na Cidade eterna; chegou-se mesmo a espalhar que Viriatho se rendera, que fôra agarrado; que seria trazido para o apresentarem ao povo em espectaculo no Circo. Mas a verdade cruenta irrompeu quando se viu que fôra encarregado Caio Lellio, que era por todos cognominado o prudente, de partir rapidamente para a Hispania, e de intervir com o seu tino seguro na campanha que se desmoralisára. E tal era a importancia da missão, que Lellio partira revestido da auctoridade de Proconsul. A situação era extremamente grave; porque um dos generaes romanos, não se sabia se Unimano ou Nigidio, em consequencia dos muitos ferimentos que recebera, succumbira. Lellio ia substituir um d'elles. O novo general inspirava confiança pela clareza de intelligencia que possuia; não iria imprimir um impulso decisivo ao Bellum latronum, mas ninguem como elle saberia informar o Senado da situação da Lusitania e das condições que cedo ou tarde conduziriam á victoria. Lellio era considerado em Roma como um litterato eximio, dotado de eloquencia empolgante, e de um vasto saber; estas qualidades não eram incompativeis com o espirito militar de um chefe tacitamente encarregado, não de feitos estrondosos, mas de salvar dois exercitos compromettidos em um paiz inimigo e longinquo. Por isso a chegada de Gaio Lellio á Lusitania não produziu ruido; a sua obra capital foi sustar promptamente o revês que se precipitava, reunindo os dois exercitos romanos, e evitando a batalha campal a que Viriatho o provocava, com constantes escaramuças. Depois d'isto preparou as cousas para que d'alli em diante a campanha da Lusitania tomasse um outro aspecto mais favoravel ao poder de Roma. As suas informações para o Senado influiram n'isso, e por ventura foram seguidas mais tarde por outros generaes com o exito desejado. Lellio, com o seu profundo saber, tratou de ir colhendo todas as noticias que importavam ao interesse de Roma, e com as notas que tomava, inquirindo dos povos e dos costumes, escreveu uma carta ao Senado, da qual alguns trechos foram aproveitados pelos geographos contemporaneos. Narrava o Proconsul: