«Cumpre ter sempre presente, que a Lusitania é habitada pela mais poderosa das nações hispanicas; e que achando-se já subjugadas as outras, é esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas.

«Não provêm a sua força do numero dos seus habitantes, mas da sua resistencia devida a um temperamento tenaz e incansavel, a uma dignidade individual que antes prefere a morte a qualquer apparencia de escravidão.

«Explicarei isto pela pureza do sangue lusitano; elles não se misturaram com os Celtas, que haverá quatro seculos invadiram a Hespanha e conseguiram alliar-se e fusionar-se com os Iberos. Na Lusitania não aconteceu como nas Gallias, quando ahi se effectuou a conquista do Celta invasor; o lusitano não cahiu na servidão militar como o gaulez. O povo vive espalhado por casaes, villares, pobras, agricultando, deixando o trabalho dos campos ás mulheres, desde que é preciso correr ás armas para defender a terra; as Cidades são confederadas entre si, tambem no intuito da defeza, e para o fim de governo administrativo. São elles que votam em Conselho armado a guerra defensiva, e que elegem os seus chefes e generaes, declarando cada povo ou localidade com quantos Cavalleiros ou infantes contribuirão para a guerra contra os Romanos. Os Chefes eleitos apresentam-se na entrada de Maio promptos para a campanha, seguidos dos seus Companheiros, que são todos os homens seus dedicados, soldurios e protegidos, que os seguem por toda a parte, e lhes obedecem incondicionalmente. É esta a organisação do seu exercito. E de Viriatho me contam, que elle tem, além do commando geral de todas as forças, uma guarda de Mil Soldurios, que desde a matança do Tribola, em que salvou o exercito Lusitano da perda immediata quando já propunha a rendição, ficaram constituindo a sua Guarda de corpo, com juramento de lhe não sobreviverem morrendo elle em campanha, como prova da sua Irmandade heroica. Desde o desastre de Tribola até hoje muitos d'entre os Mil Soldurios têm morrido nas guerras com Plancio, com Claudio Unimano e Caio Nigidio, mas esse numero está sempre completo, porque a maior gloria que póde aspirar um guerreiro lusitano é jurar o pacto de amisade na vida e além da morte, sendo eleito em consequencia de feitos extraordinarios um dos Mil de Viriatho. Com uma organisação militar que assenta no vinculo sentimental da confraternidade, e que se move pela emoção hallucinante da Patria, as Legiões romanas nada pódem, e a estrategia dos Pretores fracassará sempre desde que continuem com o systema das batalhas campaes, em um terreno cheio de anfractuosidades perigosissimas e que os naturaes conhecem perfeitamente.

«Apontando estes contras não quero espalhar o desânimo; e assim como Roma já soube tirar uma lição luminosa dada por estes barbaros, adoptando para o seu exercito a Espada hispanica, que lhe tem proporcionado victorias, d'elles temos a tirar ainda a arte de os vencer. Porque, rigorosamente, os Lusitanos não pódem ser vencidos senão pela perfidia. Sabereis que entre a raça dos Iberos e a dos Lusitanos ha um odio irrefreavel mas latente; nunca se ligam, nem se entendem, e a sua aversão mutua separa-os mais do que as inaccessiveis fronteiras de rios caudaes ou de alterosas montanhas. Passarão os seculos, mas esta antinomia prevalecerá. É sobre ella que Roma deve apoiar o seu dominio; muitos povos da Lusitania estão hoje confundidos em territorio iberico, e Viriatho conseguindo reunil-os para a Confederação defensiva em que trabalha expulsará o poder de Roma da Hespanha, com certeza e não tarde. O Ibero lisongeia-se com os contactos da soberania de Roma: dêem-se-lhe titulos de cidades municipaes, attraiam os seus filhos a Roma, e elles ficarão submissos, porque adoram o poder; aproveitemos o odio do Ibero para demolir o Lusitano. Para aniquilarmos o Lusitano é debalde que empregaremos a espada, mas é infallivel o resultado impellindo-o para a união iberica. Hoje toda a Lusitania tende a retomar a extensão primitiva, e unifica-se moralmente á voz de Viriatho, que se acha revestido entre o povo de um prestigio maravilhoso: nada menos do que acreditarem todos que elle é invencivel. Nós sabemos quanto esta credulidade influe no animo das tropas e decide das batalhas. Corria por aqui entre as tribus da Lusonia que appareceria um guerreiro montado em um Cavallo branco, e que elle conseguiria repellir o estrangeiro invasor; todos hoje consideram Viriatho como a realisação d'essa velha prophecia, e os companheiros que lhe deram o Collar de ouro do commando ou a Viria, foram os primeiros que o acclamaram pelo nome de um guerreiro prestigioso do tempo de Annibal, chamando-o VIRIATHO! Morto este chefe dissolver-se-ha a Lusitania; porque esse profundo sentimento de raça e de patria, que anima as tribus lusas, carece de uma representação que as identifique. Viriatho deve ser morto; sem o que, não acabará a campanha e Roma será sempre vencida. Urge pensar n'isto e só n'isto. Simulem-se campanhas, mas vise-se a este fim unico. Perguntareis: Quem hade matar Viriatho? Por certo, que nenhum general romano ou cavalleiro audacioso o desafiará para um combate individual. Mas, já indiquei o caminho: o odio dos Iberos e dos Lusitanos entre si é insondavel, e não faltará um Capitão de sangue iberico que se preste a alcançar a gloria d'essa traição.»

Era mais longa a Carta de Caio Lellio ao Senado; muitas das suas passagens foram aproveitadas pelos geographos gregos e chronistas romanos, de épocas ulteriores, e pelos historiadores que referiram as Guerras viriathinas. A parte que interessava directamente á politica romana foi lucidamente comprehendida, não só pela experiencia dos anteriores desastres, mas pela confiança no tino indiscutivel de Caio Lellio. Por isso nos Annaes da Republica não se referindo nenhum combate dado por Lellio na Lusitania, inscreveu-se que imprimira aos successos uma direcção que os tornava menos favoraveis aos Lusitanos.

O effeito das palavras sensatas de Lellio era tardio, e os acontecimentos atropellavam-se exigindo uma acção immediata. Para os espiritos ambiciosos a missão de Lellio tambem fôra frustrada; era uma derrota como as outras, mas sem apparato. O Senado obedeceu á corrente da opinião: n'aquelle anno de DCIX da Edificação da Cidade, e sexto da Guerra dos Ladrões, foram eleitos Consules Quinto Fabio Maximo Emiliano, e Lucio Hostilio Mancino, filhos e irmãos de afamadissimos generaes, que tinham levado as armas romanas ao maximo esplendor na victoria de Pydna, e na destruição de Carthago. Fervia-lhes o sangue; Quinto Fabio empenha-se para vir tomar pessoalmente o commando na guerra da Lusitania. O Senado attendeu o seu desejo dando-lhe a ordem peremptoria.

[XXXI]

A Guerra viriathina, como em Roma já se dizia da campanha desgraçada na Lusitania, levou o Senado a encarar os acontecimentos com a justeza que lhe competia, preparando uma solução pratica. Usando de um direito de negociar e concluir allianças com os povos estrangeiros, entendeu o Senado que era tempo de propôr a Viriatho um tratado de mutuas garantias, da cathegoria d'aquelles em que ha egualdade de obrigações, e designados sob o titulo de Foedus aequum. A lucta desesperada das populações da Hispania Ulterior resultava de um sentimento de independencia local e pessoal, que Roma não podia apagar pela força das suas legiões; pelo direito era possivel ligar esses povos aos interesses romanos, por que as terras ficariam governando-se pelos seus costumes e os individuos adquiriam o Jus peregrinum, gosando de uma protecção legal em Roma sem dependencia de patronos.

Cada derrota de um Pretor ou Consul na Lusitania manifestava ao Senado a difficuldade de poder submetter esta região hispanica ao regimen do Foedus iniquum, titulo com que Roma cobria a subserviencia dos povos submettidos ao seu protectorado. A Lusitania não era um inimigo vencido, nem tampouco seria um amigo fraco; reconhecendo-o no meio de tanto desastre, o Senado viu claro o caminho para exercer a sua acção na Hispania Ulterior indicando a opportunidade do Foedus aequum. Approveitava-se a occasião da partida de Quinto Fabio para a Lusitania: elle seria o portador do tratado de alliança, ficando-lhe reservado o arbitrio de poder firmar o tratado com Viriatho, ou de o occultar, caso o successo das armas romanas mantenha o seu imperio. A convenção diplomatica não comprehendia sómente a segurança das pessoas e das transacções entre os dois paizes; continha-se ahi um facto capitalissimo, e que poderia exercer uma influencia decisiva no futuro da Hispania Ulterior: o Senado reconheceria Viriatho como princepe ou rei da Lusitania, assignando e responsabilisando-se pela execução do tratado como soberano.

Quando entre alguns membros do Senado se aventou a importancia de um tal acto, de consequencias imprevistas, um dos Senadores mais experimentados no governo sorriu-se com superioridade: