—O coração que ama tudo adivinha.
Então Lisia proferiu com incerteza este Enigma de caracter religioso:
Vive sem ter corpo,
No valle ou em gruta;
Falla sem ter bocca,
Sem ouvido escuta?
—Esse Enigma, devolveu Viriatho, foi-me revelado pela tua voz, quando pela abobada d'esta Torre, lhe escutei o suavissimo Ecco.
—Bem se vê que tens entrado em grutas e cavernas sagradas. Eu bem sei que foi um Ecco em mysteriosa resonancia, que te proclamou invencivel.
E tirando uma armilha de ouro do braço, fechou-a no pulso de Viriatho, e atirou a chave ao mar, proferindo como em vaticinio:
—Para sempre!
E Viriatho, tomando-lhe as mãos ambas:
—Eu ouvia fallar de ti como uma apparição celeste, mas não tinha esperança de chegar a vêr-te. N'esta vida de combates que levo, para a independencia da nossa Patria ser firmada, esperando a morte como consequencia da lucta, e então... morreria sem vêr-te.
—Foi o teu amor pela Patria lusitana que me fez pensar em ti e levou a amar-te como a alma d'ella. As tuas victorias venceram-me tambem; e Virgem Semnothêa do Collegio sacerdotal, que através de todas as perseguições e ruinas ainda aqui se conserva occulto n'esta ilha sagrada de Achale, fiquei pertencendo-te desde que identificaste a tua vida com a independencia da Lusitania.