—É para mim muito mais do que a corôa de rei a escolha que de mim fizeste para teu esposo.—Disse Viriatho, tomando as mãos de Lisia e beijando-as trémulo.

Lisia approximou a face immaculada da bocca do guerreiro, que a osculou com emoção e pureza, na ingenuidade de heroe, que fazia d'esse beijo não um prazer mas um sacramento. Viriatho ficou mudo por algum tempo, fitando o mar como esquecido de si.

Lisia, com ternura e graça, perguntou-lhe:

—Quando te entreguei a taça de ouro, por que hesitaste em leval-a aos labios?

—Dominou-me o espasmo de uma impressão divina.

—Comprehendeste a minha tristeza n'esse momento rapido. Ah, n'esse momento decidiu-se na minha alma uma determinação mais forte do que o meu desejo, e que se tornou um voto religioso. Levaste a taça de ouro aos labios acceitando a minha escôlha; mas... só virei a ser a tua Esposa, cobrir-nos-ha o mesmo cortinado quando um General romano te pedir a Paz.

—Lisia, escolheste-me para teu esposo! Entrego-me á tua vontade,—para sempre. A condição que revelas é um impossivel, por ventura para não te destituires da hierarchia de Semnothêa? Virgem dos mysterios cultuaes, nunca deixarei de amar-te, elevando-me a uma adoração pura, e tirando d'este santo amor o impulso para vencer os Romanos, e para... que digo eu? deixa-me delirar um instante, para forçar um Pretor, um Consul a pedir-me a Paz. Eu tambem jurei sobre a Pedra focal não ter familia em quanto não expulsar os Romanos da Lusitania.

Nas palavras de Viriatho accentuara-se uma vibração de confiança em si, para, servindo a causa santa da liberdade da patria lusa, cumprir a condição quasi ultrahumana que Lisia lhe impozera. Lisia tambem teve a presciencia de que isso aconteceria, e tirando o annel de esmeralda que trazia, metteu-o no dedo da mão esquerda de Viriatho, n'aquelle em que se diz passar a vena-percordial.

E desceram ambos da Torre redonda, mais unificados nas almas do que se tivessem cohabitado em uma concordia de annos de ventura. Viriatho d'aquelle dia em diante tinha mais do que a Espada invencivel, que o não deixaria ser derrotado na guerra, nem morrer em combate; era o Annel de Lisia, que lhe infundia na alma uma confiança no futuro da inextinguivel raça lusitana através de todos os desastres em que a envolvessem as vicissitudes dos tempos vindouros. Viriatho via no Terçado e no Annel os Talismans que pelo poder da tradição formariam o Thezouro do Luso.

[XXXIII]