«A Lusitania nunca teve reis, e por isso foi sempre autonoma. No dia em que as suas cidades confederadas se submetterem a um chefe soberano, começará a sua servidão; esse Rei, preoccupando-se unicamente do seu interesse pessoal e da hereditariedade da sua familia em uma Dynastia irresponsável, tratará de unificar sob um mesmo sceptro a Lusitania e a Iberia, jungindo as duas nações como os bois ao carro. Para alcançar esta unificação, começará pelos meios capciosos dos casamentos reaes, para vir a conseguir pelas heranças a juncção das soberanias. E se estes meios falharem, o Rei procurará allianças com outros reis estrangeiros que o defendam, comprando a estabilidade do seu throno á custa da liberdade, da independencia e até do territorio da Lusitania, desmembrando-a se lhe fôr preciso, ou chamando o estrangeiro para se impor ao seu povo, ou abandonando-o na hora do perigo, deixando-o entregue ao assalto dos invasores.

«É isto um Rei, planta parasita e damninha, que esterilisaria toda a Lusitania. E Roma bem o presentiu, quando para subjugar esta terra, vendo-se impotente pelas armas, recorre a um instrumento de intima dissolução dotando-a com um Principe, acclamando um Soberano. Rejeito o glorioso titulo, que é uma affronta para Cidades livres, ligadas federativamente com as suas autonomias locaes. A alliança para a paz e francas relações de commercio entre os dois povos, essa abraço-a em condições de egualdade agora e sempre; mas estou certo de que o Senado visa a outros fins, tem outros intuitos.»

O emissario de Quinto Fabio partiu, assombrado d'aquelle desinteresse do Caudilho lusitano, que em Roma passava por chefe de ladrões. A incomprehensão do valor moral de Viriatho era uma das maiores causas dos generaes romanos serem continuamente derrotados; contavam com o homem audaz, mas não com a grandeza do caracter.

[XXXVI]

O tempo dispendeu-se n'estes preparativos de uma acção estrondosa e decisiva, quando começaram as primeiras chuvas do inverno; o corriculo do Consulado de Fabio estava terminado, e com elle o seu commando, em verdade esteril e inglorio. Poderia considerar-se equivalente a uma derrota surda. Em Roma fallava-se aggressivamente contra Quinto Fabio, como deslustrando as tradições heroicas da familia Emiliana. Aconteceu que n'esse anno de DCX foram eleitos Consules Servio Sulpicio Galba, esse antigo Pretor que ordenára traiçoeiramente o morticinio dos trinta mil Lusitanos, o qual se enriquecera com os latrocinios do seu governo provincial, e Lucio Aurelio Cotta, que com elle compartilhava n'esse anno o poder, e tambem era em Roma assás conhecido por uma avareza sordida e insaciavel ambição de dinheiro.

A guerra da Lusitania appareceu para esses dois Consules como uma venturosa espectativa; o commando do exercito facultava o exercerem em nome da Republica todas as extorsões e vilezas. Ambos os Consules disputavam entre si o commando da guerra contra Viriatho. Galba não queria perder o ensejo que se lhe appresentava; era o meio de voltar á Hespanha e de reconstituir a sua riqueza malbaratada ou perdida. Lucio Cotta já sonhava em vir a ser o argentario mais preponderante de Roma. Galba allegava:

—Já fui Pretor em Hespanha e governei a Provincia da Lusitania; conheço aquelles territorios, aquellas gentes e os seus costumes. Sou temido, e a lembrança do meu nome fará fugir diante das Legiões romanas todas essas tribus de ladrões e barbaros. Só eu tenho no actual momento as condições excepcionaes para commandar essa guerra que se vae tornando uma vergonha. Os Lusitanos bem sabem que eu não me pago com palavras.

Os credores e parasitas de Servio Galba apoiavam aquellas pretensões apparentemente plausiveis. Os partidarios de Lucio Cotta conclamavam:

—Ainda nos não esqueceu a accusação tremenda de Catão o Censor. O governo de Galba na Lusitania infamou Roma com uma nodoa indelevel. Galba é o unico homem a quem não póde ser confiado o commando da guerra contra Viriatho, porque a sua presença levantaria na Hespanha as proprias pedras contra Roma. Seria a prova de que Roma não civilisa os povos barbaros como proclama ao mundo, mas rouba-os, devasta-os, por que subsiste por esse expediente que a dispensa no seu exclusivismo militar de toda a actividade agricola ou fabril. Galba por fórma nenhuma!

Esta questão foi debatida no Senado; até ahi, entre esses venerandos patricios, sentados soberanamente nas suas cadeiras eburneas, se dividiram as opiniões, uns por Galba, outros por Cotta. Mas quando se discutia o assumpto, levantou-se o senador Scipião Emiliano, e erguendo a mão intimativamente exclamou com nitidez: