O sonho de Viriatho tornára-se uma realidade: a Lusitania livre, e Roma vinculada pela Paz. O Caudilho contava com a pacificação geral, embora algumas resistencias se manifestassem na Hespanha citerior; Roma era sufficientemente politica para ratificar esta Paz sem apparencia de impozisão. E emquanto Viriatho esperava a ratificação do Tratado pelo Senado Romano, partiu pressurosamente para a ilha de Achale. Cumprira a condição exigida por Lisia para a realisação do seu casamento.

Lisia sabia todos os terriveis accidentes da campanha de Serviliano, mas não tinha chegado ainda á ilha sagrada a noticia da pacificação inesperada. Do alto da Torre Redonda a semnothêa viu vogar para a ilha uma barca de couro; o coração bateu-lhe agitadamente, sem se atrever a conjecturar o que teria succedido. Mais proximo a barca, reconheceu a figura de Viriatho. Desceu subitamente para ir esperal-o á lingueta de areia.

Não se imagina a eloquencia da mudez de Viriatho e Lisia, quando se deram as mãos e assim ficaram por alguns momentos. Avançando para a Torre Redonda, ia-lhe dizendo Viriatho:

—Cumpriu-se o teu desejo.

—A Paz? Com Serviliano?!

—A Paz com Roma; assignou-a Serviliano, Proconsul e general.

Lisia fitava immovel o vulto de Viriatho, crendo um sonho o que escutava. O valente cabecilha tirou d'entre a cota de malha de linho retorcido a folha em que estava escripto o Tratado de Paz, em que Roma reconhecia a liberdade e independencia da Lusitania. Lisia não pôde lêr esse texto, porque a impressão da alegria tinha-lhe arrasado os olhos de lagrimas. Viriatho entregou o Tratado ao ultimo dos Druidas Idevor, que leu a clausula: Haverá paz entre o Povo romano e Viriatho.

Lisia, lançando os braços em volta de Viriatho, exclamava:

—Temos uma Patria livre! A Lusitania é independente!

E beijando com candura as faces crestadas e as mãos de Viriatho, continuou como se estivesse fallando em sonho: