«As Estrellas da Grande Ursa, em numero de sete, assim como os bois que pucham os carros pesados chamados Teriones, foram designadas Septemtriones. O homem representou no céo os actos da sua vida terrestre: o Sol fecundante da estação estival foi representado como o Touro, ou o Deus Thor das gentes germanicas, e o mugido do trovão Tarana, como do touro que berra. E a navegação, que se fazia de uns para outros lagos, era tambem completada transportando os Teriones as barcas em carros de um ponto para outro. Chamaram por essa fórma dupla de Navegação a esse povo aventureiro os Gansos, ou Liguses, os patos dos lagos. Foi assim que se fez conhecida no mundo a forte raça de Navegadores, os Liguses, ou Ligures, que constituiram Ligas ou Hansas maritimas, protectoras das suas remotissimas viagens, transportando pelo Atlantico e através da Europa os blocos de Ambar amarello, e o estanho das ilhas Cassitérides.
«Esses Povos da região septemtrional da Europa, que se chama a Scandinavia, viveram longo tempo ás bordas do mar, e foram conhecidos pelo nome dos Homens da Agua, que em suas linguas se exprimia pelas palavras Soma-lassed, Sabme-lassed. Pela orla occidental da Europa esse Povo veiu descendo para o sul, e occupou as regiões de Hibernia, da Britania, e na Hispania esse Povo fundou o grande estado da Lusonia ou terras de Lez, que se denominaram Anda-Lezia, Cale-lezia e Lusitania.
«Pela sua audacia aventurando-se na exploração do Mar tenebroso, as outras raças chamaram-lhes os Atlantes, de Atl, o nome da agua; e nas suas rascas ou barcas de duas prôas, ajudadas a remos, a que chamaram Kamares, estenderam as suas expedições pelas Ilhas perdidas no meio do Atlantico, desceram ao longo da costa occidental da Africa, foram tocar em um continente ou Mundo novo da Aymerica, penetraram o Mediterraneo até ao Egypto, e subindo o Golpho persico, chegaram até á Chaldêa, e á India.
«Esses Povos ribeirinhos, ou de Lez, e propriamente maritimos ou Atlanticos, levaram os conhecimentos da Astronomia, fixados no seu Zodiaco, ou Symbolismo zoomorpho das Constellações observadas no Anno sideral, até esses Povos da America, do Egypto, da Chaldêa e da India. Foi por isso que o Symbolo do Touro é adorado no Egypto com o nome de Ser-Apis, e na fórma Shor, o Bezerro de ouro, na Palestina; com o nome de Tauro o designaram os Chaldeos, os Syrios, e os Gregos. Por esse Symbolo da Constellação do Touro é que a Civilisação da raça iniciadora dos Ligures se denominou Turana; todos esses Povos do Oriente adoptaram o Zodiaco occidental, sem notarem que pela evolução millenaria dos Equinocios, o Signo do Touro deixou de coincidir com o comêço do Anno estival.
«Contra a Raça ligurica veiu do Oriente a pressão de outros Povos. As gentes do Iran, adorando o Fogo espiritual representado em Mithra, reagiram contra a representação do Fogo terrestre ou o Touro, morto por Mithra, ou contra o Turan. Na Europa, os Povos dos Celtas, e dos Iberos, dos Jonios e dos Phenicios, dos Carthaginezes e dos Romanos, foram gradativamente atacando a raça dos Ligures, e pelas invasões por terra, e pela pirataria nos mares, quasi que apagaram o nome e a Civilisação dos Ligures na Europa! Os Iberos, que atravessaram da Africa quando a Europa ainda estava ligada a ella por um isthmo, repelliram-na da vertente occidental dos Pyrenneos, em que se tinha apoiado na Edade glaciaria, cujas geleiras estacaram ante essa cordilheira; os Celtas louros e corpulentos atacaram-a nas Gallias trans-e-cisalpinas; os Phenicios apoderaram-se dos Periplos das suas navegações atlanticas pela pirataria; e os Jonios roubaram-lhe os seus Poemas em que celebravam as temerosas Aventuras do Mar. As luctas guerreiras, e o imperio das Civilisações militares fizeram esquecer a civilisação agricola e as Navegações dos Povos liguricos. Entre o Occidente e o Oriente deu-se uma separação, e esqueceram-se de que eram solidarios na História.
«Uma tréva immensa caíu sobre o mundo depois da Éra glaciaria; a força bruta prevaleceu sobre a Sciencia, a Guerra de devastação e de conquista sobre o trabalho pacifico da Agricultura. A Missão civilisadora dos Ligures, iniciada na America, no Egypto, na Chaldêa, na India, ficará interrompida para sempre?
«Diante da extensão e perstigio dos Imperios militares, parece que a acção da força bruta é definitiva. Mas, a Rasão e a Paz hãode triumphar um dia; o Occidente tem de reatar a sua antiga solidariedade com o Oriente. É essa a missão e o futuro glorioso da Lusonia.
«Este ramo, certo, o mais tenaz do tronco decepado da luctadora raça dos Ligures, resistindo na Hispania contra os Iberos, contra os Celtas, Persas, Phenicios, Carthaginezes e Romanos, hade um dia através de todas as crises reorganisar-se outra vez como Nação, e o seu poder derivará do regresso á primitiva capacidade da raça: Recomeçará as grandes Navegações do Atlantico; hade reoccupar pelas suas colonias laboriosas a America; fundará um vasto Imperio na India; dominará na Africa; e primeiro que nenhum outro povo circumdará a Terra, affirmando outra vez a supremacia pacifica como destino da Civilisação occidental. Sustentar a autonomia da Lusitania é impellil-a para a realisação d'este incomparavel destino,—alargando pela actividade pacifica a antiga Liga hanseatica n'uma Confederação das Gentes, na solidariedade humana.»
Dentro da Caverna do Cachão da Rapa ia escurecendo; estava já terminada a leitura ou exposição do Poema. Viriatho, cheio de esperança no futuro da Lusitania, exclamou:
—Este ideal dá vida e energia a uma nacionalidade! Torna-a imperecivel. Agora já posso morrer; e fosse esta Caverna, deposito de uma tradição sagrada, a minha ignorada sepultura.