—Para que te deixas assaltar por presentimentos de morte? Eu ainda não te desvendei todos os conhecimentos contidos n'esses Bastões dos Poetas, ou Sagitas, que se arrojam ao ár, e conforme cáem voltadas para o Oriente ou para o Occidente, assim nos dão os Pre-Sagios venturosos ou aziagos. Ha um conhecimento de incomparavel sagacidade: revela-o a seta, que equilibrada sobre um ponto, trémula, oscilante, indica a linha do Norte a Sul; mais poderosa do que aquellas que guardam as Sagas das Tradições dos Navegadores liguricos, ella os guiou seguros—por Mares nunca de antes navegados!—Pela posse d'essa Vara chamada a Seta de Ouro, realisará a Lusonia o seu alto destino.

E á medida que ambos se afastavam da Caverna, disse Viriatho, ao perder de vista o penhasco das inscripções mysteriosas:

—Agora comprehendo eu o verso da saudação: «A Pedra sagrada da esperança do povo.»

[XLVI]

A cerimonia do casamento de Viriatho com Lisia estava determinada para dia certo. O cabecilha era esperado na Torre redonda de Achale, e já sobre o lar ardia o fogo sagrado que representa a santidade da familia apoiada n'esses mysterios cultuaes da memoria dos Antepassados. Lisia entretinha o fogo, quando chegou Viriatho; o guerreiro aproximou-se de Idevor, e disse com uma dominadora serenidade:

—Agora, que já temos uma patria livre, tambem quero render culto aos meus Antepassados, e venho rogar-vos por isso, para que Lisia, vossa filha adoptiva, me acompanhe n'este acto comendo commigo do mesmo pão diante do mesmo fogo.

Idevor ergueu-se d'onde estava assentado, aproximou-se da Pedra focal, e chamando para junto de si todas as pessoas que habitavam na Torre Redonda, proferiu a fórmula sagrada:

—Eu vos entrego, oh mancebo, a minha filha Lisia, trocando este lar paterno pelo que ides inaugurar com amor e esperança.

E pegando em Lisia pela mão, conduziu-a para Viriatho, como desligando-a da religião domestica, e entregando-lh'a para que a iniciasse em um novo culto da familia a que de ora em diante pertencia. Os dois esposos olharam-se com ternura; os canticos das donzellas que acompanhavam Lisia resoavam com a magestade de um sacramento, e n'aquelle dia entre festas, banquete e recitação de poemas, passou-se a primeira parte do cerimonial consuetudinario do casamento.

No dia seguinte era a partida da esposa para a terra de seu marido; sahiram da Torre Redonda os tres Companheiros de Viriatho, e a luzida cavalgada que tinha de conduzir a noiva pôz-se a caminho. Lisia, vestida de branco e com a lunula de ouro na cabeça, coberta com um véo, ia em um carro todo enramalhetado, ladeado pelos cavalleiros da Trimarkisia. E adiante caminhava um arauto levando um facho accêso, que como symbolo nupcial dava á cavalgada o prestigio do sentido religioso. Em todo o percurso ou pompa, modulavam-se hymnos consagrados; e de toda a parte vinham ao encontro da cavalgada homens e mulheres, que atiravam com flôres para o carro da noiva e lhe derramavam trigo pela cabeça, augurando felicidades.