—Viva a Lusitania!
A vibração d'aquella voz e d'aquelle nome produziu um delirio indescriptivel; e d'entre aquelles gritos sinceros e fervorosos, provocados por um intimo sentimento de Patria, destacou-se uma outra, distincta e magestosa:
—Viva a Lusitania! e com ella Viriatho, symbolo da sua independencia.
As festas do casamento duraram outo dias, e n'esse decurso nunca deixaram de chegar novas mensagens, e carinhosos presentes que se foram accumulando na Cava. No meio d'aquella multidão alegre levantou-se um rumor enthusiastico, vendo apparecer um formoso touro ladeado por cinco campinos; seguia lento e magestoso, levando enfiadas nas pontas, brancas regueifas de trigo, e em volta do pescoço grinaldas das mais rescendentes flôres. Era o costume dos povos da Extremadura, nas suas festas da entrada da primavera, que votavam a Viriatho esta sua manifestação cultual. Por onde o touro passava, uns lançavam-lhe flôres, outros batiam-lhe no lombo lustroso palmadas de affecto, e a multidão seguia atraz para presenciar a entrega d'aquella expressiva offerta a Viriatho. Os chefes das Contrebias, que assistiam á apparatosa cerimonia, approximaram-se de Idevor, insistindo com empenho:
—Explicae-nos o sentido religioso da Festa do Touro. Porque é que encontramos por todo o territorio hispanico Touros de pedra, como esses de Guisande? Que sentido historico terá a lenda do combate de Mithra com o Touro atravessado pela sua espada, como se vê insculpido em tantas rochas e monumentos?
Idevor accedeu promptamente ao empenho:
—«Um povo, que habita na latitude em que o maior dia do anno é o dobro do menor dia do inverno, desenvolveu-se e enriqueceu na paz dos trabalhos da Agricultura. Para elle o Sol representava-se-lhe á mente como o Touro celeste: e no começo do Anno solar, na efflorescencia estival, symbolisou essa Constellação pelo signo do Touro, a força geradora, a potencia fecundante. Esse symbolo zodiacal do Touro, conservou este nome entre todos os povos civilisados, como expressão de um conhecimento astronomico; e foi tambem objecto de adoração. O nome de Thor, o deus dos povos da Germania e da Scandinavia, designa o Touro, tornado a propria imagem do deus. Os Cimbros e Teutonios, que invadiram a Italia, juravam sobre o boi sagrado, que traziam comsigo. Thor, o chefe de todos os deuses scandinavos, é representado com um sceptro com cabeça de boi. Muitos nomes de povos e de logares foram tomados d'este symbolo do Touro, como o monte Tauros, o Darana, ou Atlas, os Tourisci e Taurini, e a região da Taurida. A Civilisação d'este povo occidental foi propagada ao Oriente, e chamaram-lhe Turan, pela representação do Touro, occupando o primeiro logar entre os quatro Signos do Zodiaco, na casa em que marcam no Céo as Estações solsticiaes e equinociaes.
«Contra esta civilisação do Occidente, que divinisára o Fogo material do Sol, no Touro, combateu o Iran, symbolisando no joven Cavalleiro cercado de raios luminosos, Mithra, o Fogo vivente e espiritual. A lucta do Iran e de Turan foi representada em um combate de Mithra atravessando com a sua espada o Touro; era o antagonismo e o triumpho da civilisação militar sobre a civilisação agricola, sacrificada diante das invasões da força armada, da rapina organisada. A vinda dos Persas à Hespanha foi uma consequencia d'essa lucta; Mithra tambem aqui venceu o Touro, que representava as forças impetuosas da Natureza.
«Mas, apesar d'esse triumpho, podemos exaltar o Touro na sua morte, como no velho hymno:==Do seu corpo nascem as plantas salutares que cobrem a terra de verdura; do seu sangue vem o vinho, que produz a bebida sagrada dos Mysterios, e dos seus tutanos o trigo que dá o alvo pão; do seu espermen derramado provieram todos os animaes uteis.==O Touro será vencido pela Espada, mas esse triumpho só ficará effectivo quando os vencedores por seu turno cultivarem a terra, levantarem cidades, abrirem estradas e coadjuvarem pelo commercio a confraternidade dos Povos. Então a Espada desapparecerá, para que a Cornucopia, esse emblema da Força do Touro, seja o symbolo da Abundancia e da riqueza inesgotavel, restabelecendo no mundo a supremacia do Occidente.»
Mal acabára Idevor de esboçar o poema que se recíta em Hierna, do Touro ou Tarvos, defendido pelas arvores cortadas para não ser agarrado, quando se ouviram estrondosas gargalhadas a pouca distancia. Era um desafio de bebedores: