A revolta dos camponezes teve consequencias mais serias. Não fez sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima reformação; deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse, por fim, de opinião a muitos respeitos. O movimento rural não tinha por objecto a Reforma; a sua origem foi a miseria profunda em que a gente do campo vivia. O soffrimento d’essa gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto que a morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo quinze que de quando em quando se levantava uma sedição de camponezes n’um ou n’outro ponto da Europa, e todas essas revoltas haviam sido suffocadas, sem que fossem concedidas as almejadas reformas, de modo que as causas da rebellião continuavam ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que as terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam eram as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam em harmonia com o valor do terreno. Além das rendas, eram tambem obrigados a prestar aos proprietarios certos serviços de que não recebiam remuneração alguma; esses serviços variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o senhorio tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser preciso metter a mão á bolsa.

A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes prohibido, sob pena de um severo castigo, o entregarem-se ao exercicio da caça ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos bosques, era-lhes vedada uma grande parte dos baldios, e de todos os modos se viam embaraçados no seu trabalho e na sua actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da propriedade tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma vacca, uma ovelha, ou até a propria cama.

A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava os dizimos: uma decima parte da colheita, que era chamada o grande dizimo; e uma decima parte do producto dos animaes, que era chamada o pequeno dizimo. Tinham de ser pagos depois de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se ter pago a renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a decima parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco ficava para o pobre camponez e sua familia.

Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias, pode-se supportar as maiores agruras da vida, quando ha a certeza de que se não corre o risco de peiorar, e de que justiça será feita quando aquelles que occupam posições superiores quizerem tirar partido da pobreza e fraqueza dos seus similhantes. O camponez allemão, porém, não tinha essa certeza. O velho codigo romano havia substituido gradualmente a legislação allemã, e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos, para amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios, e quando as leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha viu-se logo que o camponez ficava, pouco mais ou menos, na condição de escravo.

Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa, não ousavam recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o seu amo entendia que deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito algum; o proprietario podia tornar-lhes mais pesados os trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em summa, exigir d’elles o que quizesse.

N’uma epoca pouco anterior á da Reforma tinham sido transportadas para a Europa enormes riquezas. A America, a terra da prata e do oiro, tinha sido descoberta, e o commercio augmentara consideravelmente. Estas riquezas tinham sido ganhas por mercadores e negociantes aventureiros, e a classe commercial havia começado, por esse motivo, a viver desafogada e luxuosamente.

Ora os possuidores de terras não queriam fazer má figura ao pé dos negociantes, mas faltava-lhes dinheiro para sustentarem o mesmo fausto, e só poderiam conseguil-o á custa dos pobres camponezes, cujo viver era cada vez mais miseravel, ao passo que a gente das cidades se rodeiava de commodidades que n’outro tempo desconhecia. O resultado foi serem augmentados os trabalhos, augmentadas as rendas, aggravados todos os impostos.

Estas oppresões deram logar a bastantes tumultos muito antes do tempo de Luthero. Nos Paizes Baixos, na Franconia, no Main e no Rheno os camponezes levantaram-se contra os seus tyrannos, e as associações secretas organizadas durante essas insurreições continuaram permanecendo até muito depois d’ellas haverem sido reprimidas. A mais poderosa d’essas associações era a de Bundschuh, isto é, a do sapato atado. A liga de Bundschuh havia-se formado em 1423, e nunca fôra possivel extinguil-a de todo; e durante a agitação produzida pela estada de Luthero em Worms, quando todos os allemães receiavam pela vida do seu reformador, a sinistra palavra Bundschuh appareceu escripta a giz pelas paredes.

A revolta dos camponezes em 1524 foi uma legitima successora das anteriores, foi mais um fructo das sociedades secretas, e podemos affirmar que os seus promotores contavam com que o Evangelho prégado por Luthero lhes proporcionasse um bom exito. Thomaz Münzer, o discipulo de Claus Storch, que havia sido expulso tanto de Wittenberg como de Zwickau, mettera-se a prégar aos aldeãos da Thuringia e da Saxonia, e a sua inflammada eloquencia havia-os animado para uma nova lucta. A Bundschuh reapparecera em Würtemberg, devido á cruel oppressão do duque Ulrico. Em 1524 os camponios do Rheno ergueram o estandarte da revolta, e a chamma propagou-se em todas as direcções.

Estas insurreições não foram, ao principio, effectuadas por meio das armas. Se os camponezes tivessem começado por uma acção violenta, teriam, talvez, sido mais bem succedidos. A sua idéa era convocar grandes comicios onde fossem expostas as suas reclamações, pois julgavam que por esse meio viriam a conseguir tudo. Teem-se conservado até hoje algumas das listas de reformas que elles reputavam indispensaveis. A mais importante é a dos Doze Artigos. Os camponezes começaram por dizer que só pediam aquillo que os principios do Evangelho os auctorizavam a pedir, e que não desejavam entrar em lucta, porque o Evangelho os mandava viver em paz e amor. Pediam a todos os christãos que lessem os seguintes artigos, e vissem se havia n’elles alguma coisa que estivesse em desaccordo com o ensino da Palavra de Deus: