Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão de Wartburgo, e resolveu sair de aquella especie de sequestração em que se encontrava. Correu a Wittenberg, e o povo tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se familiarisara, trovejando do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a falta de caridade. Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por fim triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida, e o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum com os excessos de Storch, e do seu companheiro Münzer.

Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma coisa boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as ceremonias do catholicismo romano, que foram substituidas por um serviço religioso mais em conformidade com as Escripturas.

A Dieta de Nürnberg.—O anathema do imperio ainda estava sobre Luthero, pois que não havia sido revogado; mas ninguem pensava em o pôr em execução. Luthero prégava, escrevia, e editava os seus trabalhos, sem que pessoa alguma na Allemanha o tivesse na conta de um proscripto. Ainda mais, alguns dos principes allemães eram de parecer que o edicto de Worms devia ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha, deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros conheciam bem o estado da Allemanha e os sentimentos do povo, e não se sentiam inclinados a desposar a causa do papa.

Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em 1522 e 1524, o nuncio do papa viu que os principes allemães não eram de modo algum favoraveis á sua proposta para que Luthero soffresse a pena de morte. Em vez de discutirem esse ponto, apresentaram differentes reclamações, insistindo muito com o nuncio para que chamasse para ellas a attenção do papa; e muitas d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os quaes se baseou a condemnação de Luthero.

Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os principes allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era necessario nomear uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos abusos fossem abolidos e se esclarecessem certos pontos duvidosos de doutrina que tinham surgido, annunciando, ao mesmo tempo, que toda essa questão de differenças religiosas havia de ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se em Spira. Toda a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero; e alguns estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam abertamente quaes as reformas por que a religião devia passar. Pediam a abolição dos cinco falsos sacramentos, da missa, do culto dos santos e da supremacia pontificia. A Reforma havia-se espalhado tambem para além da Allemanha, e já em 1524 havia discipulos de Luthero em França, na Dinamarca e nos Paizes Baixos.

A revolta dos nobres foi o primeiro dos grandes revezes que o movimento da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero tinham-se espalhado sem obstaculo de maior pela Allemanha e pelo estrangeiro. De toda a parte se protestava contra os cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a confissão auricular, o culto dos santos e das reliquias, o celibato do clero, a negação do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação episcopal e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era uma fórma de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas, e uma fórma de governo que tornasse manifesto o sacerdocio espiritual de todos os crentes. A Dieta tinha repetidamente, na sua lista de aggravos, chamado a attenção do papa para os abusos que se observavam na egreja, e propoz, por fim, que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias reformas.

Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava de ser reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes era cada vez mais insustentavel; os principes, mais poderosos do que elles, supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes viviam, pela maior parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se em segredo para uma revolução. Tanto de um lado como do outro contava-se com a Reforma como com um poderoso auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto a inutilidade dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-se d’este estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas assim o entenderam, e, porque assim o entendessem, entraram no caminho da revolta.

A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo, probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram n’ella estavam, realmente, luctando contra a orientação da epoca e contra a corrente da historia. Viam todo o territorio allemão caindo nas mãos de meia duzia de familias principescas, e todo o povo das cidades enriquecendo por meio do commercio e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam que a Allemanha não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam voltar aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam outra auctoridade que não fosse a do imperador. Tinham por cabecilha Francisco von Sickingen, homem muito notavel, de grande valor militar, e a quem se não podia negar um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os principes aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade.

O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com a Reforma, mas muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar com a Reforma por causa do seu odio aos nobres revoltados. Sickingen tinha de muitos modos tentado fazer com que parecesse que a causa que defendia era a causa da liberdade religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms, Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e a dieta. Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados de perseguição depois da dieta de Worms, Sickingen prometteu proteger todos aquelles que se acolhessem a elle; e, ao levantar o estandarte da revolta contra os principes, declarou que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer as novas doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos principes apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de terem ajudado e instigado esta guerra civil.

De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção de Ratisbonna, ou Regensburgo, que era uma confederação, ou liga, dos principes catholicos romanos contra a Reforma; e assim a Allemanha, que até ali se tinha mantido n’uma união propicia ás reformas, dividiu-se em duas partes, o que tornou o trabalho muito mais difficil. Os confederados de Regensburgo diligenciaram chegar a accordo com o partido papista de Roma. O papa prometteu que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria aquella grande drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de reforma, oppondo-se tenazmente a qualquer modificação de culto ou de doutrina. A Baviera, a Austria e as grandes provincias ecclesiasticas do sul da Allemanha iam pôr-se ao lado de Roma na lucta que estava imminente. A Convenção de Regensburgo veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios horrorosos da Guerra dos Trinta Annos.