Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de abrir caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o animava e lhe recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o velho general Frunsberg bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada receies, fradinho!» Na vespera havia-se mostrado um tanto confuso, havia denotado uma certa timidez, mas n’aquelle segundo dia estava de posse da sua coragem habitual. O chanceller do arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do imperador. «Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos seus livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação até dos proprios adversarios, e que não se podia esperar d’elle uma retractação no tocante a essas coisas; havia tambem protestado contra manifestos abusos, e seria, decerto, um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião affirmasse ser falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era verdadeiro; n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente, era possivel que n’alguns pontos não tivesse razão, estando, portanto, prompto a desdizer qualquer asseveração cuja injustiça lhe fosse provada. «Esse vosso arrazoado é inopportuno», replicou Eck; «o que o imperador quer é uma resposta definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes contra a Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio de Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero. «Vou dar-vol-a, pois. (Vou dar uma resposta sem pontas nem dentes, diz o original). Não me retracto de coisa alguma, a não ser que me convençam pela Escriptura ou por meio de argumentos irrefutaveis. É claro como a luz do dia que tanto papas como concilios teem algumas vezes errado. A minha consciencia tem de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra a consciencia é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero retractar-me. Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei chegou a crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes, realmente, que um concilio é susceptivel de errar?», perguntou elle, por fim. «Affirmo», retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei sempre. Assim Deus me ajude. Amen». Aquella sua firmeza tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam que o imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á morte, sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que elle, ao mesmo tempo que combatia pela consciencia, combatia tambem pela Allemanha, pozeram-se do seu lado. Conseguiram que o imperador addiasse a sentença, e instaram depois com Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos os seus esforços.

Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo tomar o partido de Luthero e da Allemanha, para não quebrar relações com o papa, não desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto, faltando assim á sua palavra. Ordenou, pois, a Luthero que se retirasse, mas fez publicar um edicto, condemnando os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio sob o anathema do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante ninguem podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o em sua casa: quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe a mão e entregal-o aos guardas do imperador, que ficavam com plenos poderes para o matarem. Tudo isto, porém, só podia ter logar depois de expirado o prazo que o salvo-conducto mencionava.

Luthero em Wartburgo.—Os amigos de Luthero foram de parecer que, depois do edicto de Worms, a vida d’elle corria perigo, até mesmo em Wittenberg; e o eleitor da Saxonia encarregou uns tantos soldados de o irem esperar ao caminho, apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de Wartburgo, que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se, sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos sabia, ao principio, onde elle se encontrava. Emquanto esteve em Wartburgo, submetteu-se a uma vida de isolamento, e para maior precaução deixou crescer a barba, vestiu-se de cavalleiro, e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez mezes n’aquelle seu esconderijo.

Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a traducção da Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu tornar conhecido dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon mandava-lhe de Wittenberg todos os livros de que elle necessitava. Começou com o Novo Testamento, e traduziu-o quasi todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento teve o que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez por semana em casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo auxilio nas passagens difficeis.

Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da Biblia um livro para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella phrases finas, phrases palacianas; desejava tornal-a um livro que fosse comprehendido por todos, homens, mulheres e creanças, e dedicou a esse trabalho todo o seu talento e actividade. Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que se vê o grande numero de emendas por que muitas das orações passaram, chegando algumas a serem emendadas quinze vezes. «Estamos trabalhando com todas as nossas forças», escreveu elle em certa occasião, «para que os prophetas fallem na nossa lingua. Que grande e difficil tarefa é esta, de fazer com que os escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles offerecem uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por uma lingua barbara».

A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de quasi se poder dizer que não existia a lingua allemã. O allemão antes do tempo de Luthero, assim como o inglez antes do tempo de Chaucer, era um aggregado de dialectos; e, de facto, a Biblia de Luthero é que fez a lingua allemã, pois que tem servido desde então como que de modelo, e o seu estylo tem sido imitado por todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto, tornando-se gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz, e a linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de separação que passou depois por toda a Allemanha.

Regresso de Luthero a Wittenberg.—Emquanto Luthero esteve em Wartburgo, andaram os seus amigos prégando o Evangelho por toda a Allemanha, sem soffrerem o minimo incommodo, e os seus livros eram lidos por toda a parte. Dir-se-hia que toda a Allemanha se tornava protestante, a despeito do edicto do imperador. Havia de todos os lados um grande movimento a favor das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria. Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer, a cabeça e querem que as coisas caminhem muitissimo depressa ou vão até demasiadamente longe; foi o que succedeu na Allemanha.

Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira de Erzgebirge, ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada Zwickau. Os habitantes d’essa cidade acceitaram a Reforma. Entre elles havia um tecelão, Claus Storch, homem excitavel, que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e que reuniu em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de muito pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente; a Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados. Metteram-se a limpar a sua terra de todos os indicios da antiga religião—as ornamentações das egrejas, os altares, as cruzes, o clero, etc.—e deram logar a alguns tumultos, levantando-se, por fim, contra elles os seus conterraneos, que os pozeram fóra.

Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram as suas idéas ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon, que eram ali os dirigentes espirituaes na ausencia de Luthero. Carlstadt adoptou por completo o seu modo de pensar, Melanchthon deixou-se persuadir até a um certo ponto, e a agitação começou a lavrar entre as massas populares. As imagens foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades; a Reforma correu o perigo de uma rapida destruição.