No principio da edade media os homens colhiam as suas idéas de governo do velho imperio romano—não do imperio pagão de Augusto Cesar e dos seus successores, mas do imperio christão de Constantino e de aquelles que vieram apoz elle. Posto que aquelle velho imperio tivesse sido destruido pelas invasões das selvaticas tribus teutonicas, depois da epoca das conquistas ter passado os novos povos que habitavam a Europa adoptaram o governo e as leis da nação que haviam derrubado.

Segundo os pensadores medievaes, o governo civil e a ordem social eram coisas impossiveis quando todo o poder não estivesse concentrado n’um foco e identificado n’uma só pessoa—o monarca universal; e quando todo o governo ecclesiastico e communhão religiosa não obedecessem, da mesma fórma, ao arbitrio de uma unica pessoa—o sacerdote universal. O monarca universal era o imperador, que dominava circa civilia como vigario, ou representante, de Deus; e o sacerdote universal era o papa, que dominava circa sacra, como vigario, ou representante, de Deus. Um dominava nos corpos, o outro dominava nas almas, dos homens; e o dominio de ambos era universal. Um tinha o poderio da espada, e o outro tinha o poderio das chaves. Este sonho medieval ainda não se havia tornado em realidade, até então; mas o sonho continuava, e a Europa, no alvorecer da Reforma, estava sob o olhar cubiçoso de duas entidades: o imperador e o papa.

No fim do seculo quinze, Fernando, o Prudente, rei de Aragão, concebeu o plano de, mediante um elaborado systema de enlaces matrimoniaes, restituir ao imperio a sua primitiva grandeza. Tinha tres filhas. A mais velha casou com o rei de Portugal, o que daria logar a que este paiz e Hespanha ficassem constituindo um só reino. A segunda casou com Filippe de Austria, chefe da casa de Hapsburgo, e por direito materno senhor da Borgonha e dos Paizes Baixos. A terceira desposou Henrique VIII de Inglaterra. Do primeiro d’estes consorcios nasceu Isabel, herdeira do throno de Hespanha. Do segundo Carlos de Austria e de Borgonha. Do terceiro Maria, rainha de Inglaterra. Carlos casou com sua prima Isabel, e ficou, portanto, reinando em Hespanha, Austria, Borgonha e Paizes Baixos. E mais tarde foi tambem imperador e rei de Italia.

Carlos V foi, pois, um imperador poderosissimo, como não tinha havido outro durante muitos seculos; e a sua ambição era ver-se investido da mesma auctoridade que tinham tido Carlos Magno e Otto I. Tinha os olhos constantemente fitos no passado; e lá no seu intimo arquitectava a maneira de restabelecer na Europa aquella unidade politica que desapparecera quando começaram a organizar-se as nações modernas. Esta velha unidade, porém, exigia, não sómente um imperio unido, como tambem uma egreja intacta, e esse sonho de Carlos tornava-o intolerante para com qualquer perturbador da paz da egreja, como Luthero era por elle considerado. Posto que tivesse sido acclamado imperador, o seu imperio não estava muito firme. Era poderoso, não por ser imperador, mas por ter sob o seu dominio a Hespanha, a Borgonha, e a Austria; as luctas intestinas de que a Allemanha era theatro, e as muitas questões que surgiam, a que era necessario dar uma prompta solução, enfraqueciam-lhe algum tanto o poder.

O estado politico da Allemanha.—A Allemanha, no tempo da Reforma, não tinha uma unidade politica. Estava nominalmente unida sob o imperio, e era governada pela Dieta; mas o poder, tanto do imperador como da Dieta, era, praticamente, fraquissimo. O imperio era electivo, e desde o anno de 1356 a eleição havia estado nas mãos de sete principes-eleitores, tres na região do Elba, e quatro na do Rheno. Na região do Elba eram o rei da Bohemia, o Eleitor da Saxonia e o Eleitor de Brandenburgo; na do Rheno eram o Conde Palatino do Rheno, e os arcebispos de Mayença, Trier e Köln. As successivas concessões que os principes obtinham á custa das eleições iam diminuindo o poder imperial.

Entre o imperador e o povo estava a Dieta, que era o grande conselho do imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios: I Seis principes eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres clerigos (não entrava o rei da Bohemia); II Os principes, ou gran-barões, seculares e ecclesiasticos; III Os representantes das cidades livres, que eram as que gozavam de privilegios concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi tantos principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado como instrumento para abafar qualquer reforma religiosa. A Dieta, comtudo, tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava tão dividida que cada um dos principes independentes podia fazer o que muito bem quizesse. As cidades, formando ligas entre si, podiam offerecer uma certa resistencia á tyrannia dos principes; mas os aldeãos, incapazes de similhante combinação, eram acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes e pelos barões.

A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco de invejar. Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando as suas terras, mas os senhores feudaes foram, pouco a pouco, cerceando-lhes direitos, chegando ao ponto de lhes prohibirem a entrada nos baldios, de não lhes permitir que se abastecessem de lenha, que pescassem nos rios, etc. Não tinham a quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A sua unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem com o feudalismo, de se tornarem proprietarios.

O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha, deparou com muitas questões graves que estavam á espera de solução; o povo estava ancioso por um governo central, as cidades queriam que se pozesse termo ás constantes contendas que havia entre os barões, os poderes, civil e ecclesiastico, accusavam-se mutuamente, e, por ultimo, a questão de Luthero continuava agitando os espiritos.

Luthero e a dieta de Worms.—A Dieta foi aberta por Carlos V em Janeiro de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar com os principes reunidos em assembléa para que pozessem termo ás heresias de Luthero, não sendo, na sua opinião, necessario que este fosse ouvido. Os principes, porém, que tambem tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem o ouvir e sem elle estar presente. Por fim o imperador intimou Luthero a apresentar-se, e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um arauto foi, pois, procural-o da parte do seu imperial amo, e em abril Luthero partiu para Worms. Ia resolvido a não se retractar, posto que o animasse a convicção de não voltar com vida. A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção de fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de Christo me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando mesmo deante da morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar, se os meus inimigos me assassinarem, continúa tu, de todo o coração te imploro, a ensinar e a dar testemunho da verdade». Antes de deixar Wittenberg, havia preparado, de collaboração com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se compunha de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a respectiva explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma pagina apparecia Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra o papa estendendo o pé para que lh’o beijassem; a Christo levando a cruz contrapunha-se o papa levado em procissão pelas ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo expulsando os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo junto de si um monte de dinheiro.

Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando lhe chegou aos ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia lhe preparava uma emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria de me pôr a caminho, ainda mesmo que houvesse uma chuva de duques da Saxonia». E quando lhe disseram que o diabo se havia de apoderar d’elle por qualquer fórma, replicou: «Não deixaria de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá houvesse tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes multidões, ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou, por fim a Worms, e logo no dia immediato foi apresentado á Dieta. O imperador tinha a seu lado o arquiduque de Austria, seu irmão, e a assembléa compunha-se de seis eleitores, vinte e oito duques, trinta prelados, e um grande numero de outras personagens de menor cathegoria, ao todo uns duzentos principes. Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de confessar a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se os havia escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum tempo para reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte e quatro horas, foi reconduzido á casa onde se hospedára.