No entretanto, Luthero escreveu ao papa, confessando espontaneamente que a auctoridade da egreja era superior a tudo, e que a coisa alguma, quer na terra quer no céu, se devia dar a prioridade, com excepção de Jesus Christo, que tudo governa. Isto foi em Março de 1519.
A disputa de Leipzig.—Luthero tinha promettido conservar-se quieto se os seus adversarios se conservassem quietos—era este o seu ajuste com o cardeal Miltitz; os seus inimigos, porém, não se conservaram quietos, e Luthero considerou-se livre para os atacar. O indiscreto amigo da egreja era João Eck. Desafiou Carlstadt, amigo de Luthero, para uma discussão publica, e no entretanto publicou treze theses que atacavam as noventa e cinco de Luthero. Luthero replicou promptamente, e a polemica publica entre Carlstadt e Eck foi seguida de uma outra entre Eck e Luthero. N’esta disputa de Leipzig a controversia attingiu um grau mais elevado. Não foi já uma discussão theologica, mas, sim, a opposição de duas series de principios em conflicto, affectando todo o circulo da vida ecclesiastica. Aqui, pela primeira vez, a christandade allemã desprendeu-se da christandade romana, insistindo no sacerdocio de todos os crentes e no direito de cada christão julgar em todas as coisas segundo a sua consciencia, esclarecido pela palavra de Deus e pelo Seu Santo Espirito.
Luthero e Eck começaram com as indulgencias e com as penitencias, mas o debate em breve mudou para a auctoridade da Egreja romana e do papa. Eck mantinha a suprema auctoridade do bispo de Roma, como successor de S. Pedro e Vigario geral de Christo. Luthero negou a superioridade da egreja romana sobre as outras egrejas, e baseou a sua negativa no testemunho da historia de onze seculos, no dos decretos de Nicéa, no dos mais santos concilios, e no da Escriptura Sagrada. Isto originou uma grande contestação. «Sem papa não ha egreja», exclamou Eck. «A egreja grega tem existido sem papa, e vós sois o primeiro a negar-lhe o nome de Egreja» respondeu Luthero. «Athanasio, Basilio e os dois Gregorios estavam fóra da egreja? O papa tem mais necessidade da egreja do que a egreja do papa». «Sois tão mau como Wycliffe e Huss», disse Eck, «e elles foram condemnados em Constança». «Nem todas as opiniões de Huss eram erroneas» disse Luthero. «Se recusaes apoiar as decisões dos concilios, eu recuso discutir comvosco», disse Eck, e por aqui se ficou. Immediatamente depois, porém, Luthero completou e publicou a sua argumentação. Declara, pela primeira vez, o que pensa da egreja. Não nega a primazia do papa, mas o que não admitte é que o papa volte as costas á egreja. Se o papa se mantiver no seu logar de servo da egreja, de «servo dos servos de Deus», elle, Luthero, dar-lhe-ha toda a honra. Mas a egreja é a communhão dos fieis—é constituida pelos verdadeiros crentes, pelos eleitos. Á egreja nunca falta o Espirito Santo, e aos papas e concilios falta muitas vezes. Esta egreja, que tem sempre o Espirito Santo, é invisivel; e, portanto, um leigo que possua as Escripturas e se guie por ellas é mais digno de credito do que um papa ou um concilio que o não faça.
Esta disputa de Leipzig produziu importantissimos resultados. De um lado, Eck e os demais adversarios eram de opinião que Luthero devia ser violentamente posto fóra de combate, e insistiram n’uma bulla papal que o condemnasse; e do outro, Luthero viu, pela primeira vez, até onde tinha chegado com a sua opposição ás indulgencias. Viu que a sua theologia agostiniana, com o conhecimento que ella proporcionava da odiosidade moral do peccado, e da necessidade da soberana graça de Deus, feria, em todas as suas peripecias, a vida ceremonial da edade media: mostrava que era impossivel a qualquer homem o ter uma vida perfeitamente pura e santa, e, por consequencia, não podia haver santos, e o culto dado aos santos era um absurdo; tornava inuteis as reliquias e as peregrinações, assim como a vida monastica, com as suas vigilias, jejuns e flagellações. Todas estas coisas eram, em vez de auxilios, obstaculos á verdadeira vida religiosa. Seguia-se tambem que, não podendo haver mediador entre Deus e os homens, com excepção de Jesus Christo, a mediação do papa para nada servia.
A disputa de Leipzig convenceu Luthero de que se havia separado de Roma, e a Allemanha convenceu-se tambem d’isso, chegando o seu enthusiasmo a um ponto extremo. O povo das cidades manifestou a sua sympathia pelo arrojado frade. Ulrico von Hutten e os outros homens de letras viram n’elle, desde então, o seu guia. Francisco von Sickingen e os outros cavalleiros livres viram n’elle, desde então, um poderoso alliado. Os pobres e sobrecarregados camponezes alimentavam a esperança de que elle os libertasse das miserrimas circumstancias em que se encontravam. Luthero tornou-se, por assim dizer, o chefe do povo allemão. Isto teve logar em 1519.
A bulla do papa e a queima da mesma.—Eck e os demais adversarios de Luthero reconheciam que alguma coisa se devia pôr em pratica para reduzir ao silencio o audacioso monge, e instaram com o papa para que publicasse uma bulla condemnando as suas opiniões. Luthero, por seu lado, não estava ocioso. Sabia que se tinha desligado de Roma, e, com a sua habitual actividade e coragem, tornou esse facto conhecido, e pediu ao povo allemão que o ajudasse. A Allemanha era um paiz pobre, e, comtudo, mandava todos os annos uma consideravel quantia de dinheiro para Roma.
N’aquelles dias a egreja era um grande imperio ecclesiastico, tendo Roma como capital. Toda a Europa estava dividida em bispados, e o clero era muito rico. Possuia extensos dominios, que arrendava; tinha tambem direito aos dizimos (a decima parte) de todas as outras propriedades; além d’isso, fazia dinheiro com os baptismos, com os casamentos, com as absolvições, com a assistencia espiritual aos enfermos, com os enterros, e com as missas. As varias ordens de frades tinham-se tambem tornado muito opulentas, sendo a sua maior riqueza constituida por terras que lhes haviam sido doadas ou legadas em testamento por pessoas devotas. Em quasi todos os paizes da Europa se haviam promulgado leis com o fim de impedir ou limitar estas doações, mas essas leis tinham sido tão inefficazes que ao tempo da Reforma as ordens religiosas eram senhoras de quasi um terço do territorio europeu. E, apezar de ricas, andavam continuamente esmolando. Parte dos seus bens ia todos os annos para Roma. Quando um bispado vagava, as receitas eram recolhidas pelo papa, que demorava sempre a nomeação de outro bispo. O papa diligenciava frequentemente que os bispos ou abbades fossem italianos, pois que estes ficavam residindo em Roma, e o dinheiro era-lhes remettido para lá. Quando um novo bispo era nomeado, tinha de mandar ao papa o rendimento do primeiro anno (os annatas). Todo este dinheiro que era exportado para Roma fazia falta nos paizes de onde sahia; e no tempo de Luthero ainda estava extorquindo mais, por meio das indulgencias. Luthero, no seu opusculo Á nobreza da nação allemã tornava tudo isto saliente, e perguntava por quanto tempo se estaria disposto a tolerar similhante coisa. Referia aos nobres que a doutrina romanista dos dois estados distinctos, um espiritual, incluindo o papa, os bispos, os padres, os frades e as freiras, e o outro temporal, constituido por todas as outras individualidades, era um muro levantado pelos romanistas para defenderem as oppressões da egreja. Dizia-lhes, outrosim, que todos os christãos são espirituaes, e que todos deviam ser obedientes ao poder secular. E perguntava, finalmente, como é que os allemães consentiam que do seu depauperado paiz fossem enviados annualmente para Roma 300.000 florins.
Escreveu tambem outro tratado, O captiveiro babylonico da egreja de Christo, para mostrar que elle não desejava destruir mas purificar a verdadeira egreja de Christo. O titulo é bem explicito. Luthero opinava que o papa e os romanistas tinham conduzido a egreja a um captiveiro, muito comparavel ao dos judeus em Babylonia. E dá exemplos d’isso. O Senhor disse por occasião da ultima ceia, quando deu o calix aos Seus discipulos, «Bebei d’elle todos», mas os romanistas dizem «Não bebaes d’elle se não fordes padres». E parecia-lhe que todos os verdadeiros christãos tinham o dever de libertar a egreja da sua escravidão. E concluia de um modo caracteristico. «Consta-me que estão sendo preparadas bullas e outras coisas papistas, em que me é exigida uma retractação, sob pena de ser proclamado hereje. Se é verdade, desejo que este livrinho fique constituindo uma parte da minha futura retractação».
Foram enviados milhares d’estes livros para todos os pontos da Allemanha, e o povo ficou á espera da bulla. Esta veiu, por fim, em 15 de Julho de 1520. Accusava Luthero de sustentar as opiniões de Huss, e condemnava-o. Eck levou-a para Leipzig em Outubro. Foi affixada em varias cidades allemãs, e em geral os cidadãos e os estudantes arrancavam-n’a. Chegou, por fim, ás mãos de Luthero. Respondeu ás suas accusações n’um pamphleto, em que lhe chamava a execravel bulla do anti-christo, e por fim annunciou em Wittenberg que ia queimal-a. No dia 10 de Dezembro, á frente de um cortejo de professores e estudantes, Luthero saiu da universidade e dirigiu-se para o mercado. Um dos lentes accendeu a fogueira, e Luthero lançou a bulla ás chammas. Estava consummada a affronta. Foi tambem queimado um exemplar da lei canonica, pois que a Allemanha ia de ali em deante ser governada pelas leis do paiz, e não pelas leis de Roma. A noticia espalhou-se por toda a Allemanha, dando logar a um enorme regozijo. Roma tinha arremessado o seu ultimo dardo; só o imperador é que tinha poder agora para reprimir Luthero.
O imperador e a Reforma.—O imperador era, por esse tempo, Carlos V. Havia sido eleito em 1519, e ainda não tinha estado na Allemanha, nem era tão poderoso como o seu titulo indicava. N’aquelles dias ainda predominavam as idéas medievaes de governo, e Carlos V tinha resolvido restabelecer o velho poder imperial com todos os seus attributos.