Nos accessos da febre produzidos pelo ferimento, tinha phantasticas visões da Virgem; e, ao restabelecer-se, dedicou a sua vida, com todo o ceremonial da cavallaria da Edade Media, a Deus, á Virgem e á Egreja. Elle vivia alheiado da moderna erudição. Não sabia nada de theologia. A sua religião era medieval, e o seu sonho era ser, no seculo dezeseis, um novo Francisco de Assis.
É singular que este enthusiastico fidalgo hespanhol fosse excitado pela mesma idéa que ditou a fria politica de Carlos V. Ambos queriam renovar seculos que tinham desapparecido para sempre; e, emquanto um estava planeando a restauração do Imperio do primeiro periodo da Edade Media, o outro estava regalando a mente com uma nova ordem de frades, cujos feitos missionarios haviam de rivalisar com os dos antigos franciscanos. O imperador foi mal recebido; o solitario fidalgo teve um exito que excedeu quasi os seus sonhos. Apoz alguns annos de estudo, de decepções, de demoras, obteve permissão do papa para fundar a Companhia de Jesus.
A nova ordem tinha apenas cinco annos de existencia quando teve logar, em 1545, o concilio de Trento, mas já se havia tornado famosa. Os seus sucessos como sociedade missionaria, a sua devoção por Francisco Xavier, e o enthusiasmo de seus membros, tudo contribuiu para a tornar formidavel. Lainez, um dos primeiros discipulos de Loyola, e seu successor como cabeça da companhia, cujo criterio deu á ordem o caracter que lhe estava destinado, representou os seus companheiros no concilio de Trento.
A maxima da Sociedade era uma inexoravel suppressão da heresia, e o seu unico principio era a obediencia á Ordem e ao papa; e, n’essa conformidade, Lainez tratou activamente de evitar que o concilio fizesse quaesquer concessões aos protestantes. O seu modo de discursar, a sua subtileza e a sua tenacidade deram-lhe grande influencia. Poude logo ao principio levar de vencida os cardeaes Contarini e Pole, esses grandes catholicos romanos liberaes, e conseguir que o concilio não auctorizasse reformas doutrinaes.
As victorias de Carlos na Allemanha ajudaram os jesuitas. O papa não podia jámais pensar ou obrar simplesmente como chefe da Egreja. Elle era uma potencia politica, e as razões de estado influiram nas suas acções. N’esta conjunctura, os interesses do principe italiano oppunham-se á existencia de uma christandade una. O rei de França, Henrique II, chamou a attenção para o facto de Carlos se tornar poderoso em demasia e de ser provavel que assim continuasse se as concessões religiosas estabelecessem a união na Allemanha. Quando Carlos venceu a Liga protestante, e procurou obter de Roma concessões que satisfizessem os subditos que havia submettido ao seu dominio, o papa recusou auxilial-o, afastou de Trento o concilio, e installou-o em Bolonha, na Italia, de modo que os planos do imperador foram novamente contrariados pelo cabeça da egreja que elle se empenhava por conservar catholica. Na sua ira, virou-se para o papa e compelliu-o a dissolver o concilio. Este dispersou para só se tornar a reunir quando toda e qualquer esperança de reconciliar os protestantes tinha desapparecido, e d’esta vez poude, sem a peia do protestantismo, consolidar a organização externa de um dominio exclusivamente papal.
O imperador não foi mais bem succedido na Allemanha. As crueldades de que os principes que tinha feito prisioneiros foram victimas, a infidelidade de que deu prova na perseguição dos protestantes, a despeito de tudo quanto tinha feito proclamar, e as extorsões commettidas pelas tropas hespanholas—tudo isto contribuiu para tornar a Allemanha hostil, e não faltavam indicios de que o paiz não supportaria por muito tempo a tyrannia de Carlos. E a revolta teria rebentado mais cedo, se Mauricio, o traidor, não fosse tão odiado, ou se tivessem confiança n’elle.
O imperador parecia não ter olhos para ver o que se estava passando. Estava convencido de que Mauricio, a quem havia nomeado eleitor, estava nas suas mãos, e de que sem elle, Mauricio, a Allemanha não podia fazer coisa alguma. Entretanto, os principes procuravam reunir-se de novo. Offereceram á França uma parte do territorio allemão em troca do seu auxilio, e por fim organisou-se uma confederação, em que entrava Mauricio, e os principes trataram de guarnecer as fronteiras do Tyrol, para que estas não fossem transpostas pelas tropas imperiaes. Mauricio avançou impetuosamente e tomou de assalto a fortaleza de Ehrenherg, que era a chave do Tyrol; e o imperador para escapar teve de recorrer a uma fuga subita, e achou-se em Steiermark, sem exercito, e expulso da Allemanha. Foi a um tumulto que se levantou entre as tropas confederadas que elle deveu não ser apanhado, pois que Mauricio fez todo o possivel por agarrar «a velha raposa no covil», segundo a phrase d’elle.
A paz religiosa de Augsburgo.—Carlos V nunca se resarciu d’este desastre. A Reforma tinha-o, por fim, vencido, e elle reconhecia esse facto, sem, comtudo, o comprehender. Elle não quiz entrar directamente em negociações com os principes victoriosos, encarregando d’isso o seu irmão Fernando. Filippe de Hesse e João Frederico da Saxonia foram postos em liberdade. Filippe reentrou na posse dos seus dominios; a João foram tambem restituidas algumas das suas propriedades, mas Mauricio continuou no logar de eleitor. Os preliminares de uma paz permanente foram vasados nos velhos moldes de Nürnberg, pelo tratado de Passau, em 1552.
Por fim, apoz longas negociações, saiu da Dieta de Augsburgo, em 1555, uma paz religiosa, «a qual» dizia o decreto, «tem de ser permanente, absoluta, e incondicional, e tem de durar para sempre». Foi reconhecido aquelle principio que se estabeleceu em 1526, isto é, que a suprema auctoridade civil de cada estado tinha liberdade para escolher o respectivo credo, lutherano ou catholico romano. Esta paz, por conseguinte, reconhecia o direito das egrejas com separadas crenças existirem ao lado umas das outras na Allemanha, tornando assim legal a existencia da Reforma.
O principio a que obedecia este regulamento, cujus regio ejus religio, acarretava difficuldades que não podem ser aqui descriptas, e foi, na verdade, uma das causas da guerra dos Trinta Annos, que tão calamitosa foi para a Allemanha. Não concedia liberdade de consciencia; não fazia provisão para qualquer outra fórma de protestantismo além da lutherana; e todos aquelles que não tinham adherido á confissão de Augsburgo estavam ainda fóra da lei, juridicamente fallando.