Não vamos agora narrar pormenorisadamente o que teve logar em seguida. Devido á traição de Mauricio, á hesitação dos outros, e á falta de mutua confiança entre os caudilhos da liga, o imperador alcançou uma facil e, apparentemente, decisiva victoria. A batalha de Mühlberg teve logar a 24 de abril de 1547, e João Frederico, eleitor da Saxonia, ficou ferido e foi feito prisioneiro, não tardando que Filippe de Hesse caisse egualmente em poder dos inimigos.

Toda a Allemanha se prostrou deante do imperador, que declarou logo a sua intenção de restabelecer a unidade religiosa. Ia redigir um documento denominado o Interim de Augsburgo, especie de confissão de fé que os allemães seriam obrigados a acceitar. Eram por meio d’elle reintegrados a hierarquia e o culto catholicos romanos, com todas as suas festividades, jejuns e ceremonias, sendo apenas tolerado o casamento dos clerigos e a faculdade do povo commungar nas duas especies.

O Interim era, por assim dizer, um plano de reformação, e estava n’elle incluido, segundo a opinião de Carlos, tudo quanto se devia conceder aos protestantes. Em parte alguma o acceitaram de boa vontade. O imperador não o remetteu aos districtos catholicos romanos, e em todos os protestantes encontrou uma resistencia passiva. O proprio Mauricio hesitou em o proclamar na Saxonia, publicando, em logar d’elle, o Interim de Leipzig, que tendia a uma conciliação das ceremonias papistas com as doutrinas protestantes.

Em breve se tornou evidente que o codigo religioso do imperador só encontrava submissão da parte do povo nos pontos onde a presença das tropas hespanholas obrigava a essa submissão. O imperador havia triumphado, o seu exercito saira victorioso, parecia ter adquirido um dominio na Allemanha como não succedera a nenhum outro soberano durante muitos seculos, e, comtudo, lá no seu intimo, sentia-se derrotado, pois não conseguira o fim principal que tinha em vista. A invisivel força da consciencia, esse adversario com que elle não contara, estava erguida contra elle, e havia de, por fim, inutilisar todos os seus bem elaborados planos politicos.

O imperador e o Concilio Geral.—Emquanto o imperador estivera formando e pondo em pratica os seus projectos para a conquista da Allemanha protestante, a côrte pontificia vira-se forçada a convocar um Concilio Geral. Este concilio reuniu-se em Trent, no Tyrol, e, emquanto o imperador andou mettido na tarefa de subjugar os protestantes, esteve tomando deliberações relativas á Egreja.

Nos primeiros periodos da controversia a que a Reforma deu origem, os reformadores appellavam constantemente para um concilio livre, e os concilios foram sempre os instrumentos favoritos do imperador para a liquidação das contendas. Os papas, porém, procuravam, antes, evital-os. No seculo quinze, os concilios geraes de Basiléa, Pisa e Constancia foram os meios de que os ecclesiasticos e principes se serviram para investir contra o poder da côrte de Roma. Um concilio geral era um ponto de reunião para todos aquelles que eram adversos ao christianismo papal; e a um politico como Carlos V affigurava-se ser um excellente meio de engrandecer o imperador e humilhar o papa. Anteriormente á Reforma, os concilios geraes eram olhados com muito respeito. Cria-se que o Espirito Santo fallava mediante esses concilios, e muitos theologos medievaes, que negavam a infallibilidade do papa, sustentavam que um concilio não era susceptivel de errar.

Nos primeiros seculos da Egreja christã, um concilio geral, ou ecumenico, significava simplesmente uma assembléa que se podia com justiça dizer que representava a Egreja no seu conjuncto, de modo que as suas decisões podiam ser chamadas as opiniões de todos os christãos. N’esses remotos tempos os bispos eram eleitos pelo clero e pelo povo, e eram, portanto, representantes das regiões de onde tinham vindo, e assim um concilio em que todos os bispos christãos estivessem presentes achava-se realmente no caso de fallar em nome de todo o povo christão. Mesmo nas epocas mais puras da egreja primitiva, concilio algum se realisou a que concorressem todos os bispos, e que fosse, por conseguinte, realmente ecumenico e representativo de todos os christãos. No decurso da Edade Media a Egreja perdeu inteiramente o seu antigo caracter popular, ou democratico, e os bispos não podiam ser chamados, n’um sentido rigoroso, os representantes do povo; eram, muitas vezes, apenas os delegados do papa, e iam aos concilios para votar o que elle houvesse dictado.

Estas e outras considerações tinham feito com que os protestantes respeitassem menos os concilios, e mostraram ao imperador que um concilio, para ser util, devia estar quanto possivel fóra da influencia do papa. Os allemães tinham pedido que se convocasse um concilio livre na Allemanha, e o imperador tinha tambem ultimamente pedido o mesmo; o papa, por outro lado, queria que o concilio se realisasse em Italia, onde elle poderia mais facilmente ter mão nas suas deliberações e decisões. Depois de muitas negociações entre o papa e o imperador, resolveu-se afinal que o concilio se reunisse, não em Italia, onde o papa poderia ter demasiado poder sobre elle, nem na Allemanha, onde o imperador e os principes poderiam impôr a sua auctoridade, mas em Trent, no Tyrol, n’um ponto equidistante da Allemanha e da Italia.

O imperador esperava grandes coisas d’este concilio. Sabia que havia na egreja romana muitos homens competentes que se tinham preparado para grandes reformas, que ao proprio papa, Paulo III, não eram indifferentes; não tinha, porém, contado com a influencia de uma nova e poderosa organisação que estava destinada a alcançar a sua primeira e grande victoria n’esse mesmo concilio para cuja convocação elle havia trabalhado.

Loyola e os jesuitas.—Ignacio Loyola, joven fidalgo hespanhol, educado no meio da cavallaria de Hespanha, onde as prolongadas guerras com os moiros tinham tornado a dedicação ao papado um grande elemento de patriotismo, ficou com uma perna esmigalhada no cerco de Pamplona. Duas dolorosas operações tinham-n’o convencido, por fim, de que a sua carreira militar tinha findado, e os seus pensamentos voltaram-se na direcção de um novo mister. Votou que havia de ser um soldado da Egreja.