Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma terceira, em 1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich e os seus magistrados se pozeram inteiramente ao lado de Zwinglio.

A Reforma em Zurich.—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma do culto e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se que a missa não era tal um sacrificio; que não se devia venerar as imagens; que a Ceia do Senhor era uma simples commemoração da morte de Christo; que se devia ministrar o calix aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito na lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida, e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão. Em 1524, Leão Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir o Velho Testamento, e antes de decorridos dez annos tinha a Suissa cinco versões da Biblia.

Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo todas as suas despezas custeadas com o rendimento de vastas propriedades. Os conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos seus beneficios. Uma parte do dinheiro foi destinada ao sustento dos ministros da cidade, e o resto ficou constituindo um fundo de instrucção. Era com este fundo que a assembléa de Zurich, seguindo o conselho de Zwinglio, pagava ao professorado das escolas. Foi tambem resolvido que se solicitasse em todos os conventos, tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens em beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos assim se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia emquanto vivessem.

A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda, do norte da Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas. Os discipulos de Thomaz Münzer não tardaram em causar perturbações. Conseguiram, com a sua prégação, agregar a si alguns adherentes de entre a população de Zurich. As suas doutrinas eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes, constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados de Deus e não precisavam de leis que não fossem as que os seus corações e consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem coherentes, queimaram as suas Biblias em publico. Tinham idéas singularissimas. Como Christo tivesse dito que os Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os enthusiastas anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente absurdas. O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie de loucura, de que resultou haver sangue derramado. O conselho tolerou durante bastante tempo as suas manias, mas viu-se por fim obrigado a mandal-os retirar, proseguindo depois a obra da reforma com a mesma tranquillidade como anteriormente.

A Reforma estendeu-se aos cantões circumvisinhos, taes como Basiléa, Berne, Schaffhausen e Appenzell.

Basiléa era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada pelos sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general. Era tambem o centro da industria do papel, e a maquina de impressão de Froben deu-lhe uma grande celebridade. Era muito visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande Holbein durante o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach, professor de Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher benevolamente as novas doutrinas. Capito, o futuro reformador de Strasburgo, Polyhistor, o eminente hebraista e celebre physico, Œcolampadius, o sabio de Reuchlin e futuro companheiro de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do Delphinado, que tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não deixasse de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de Basiléa.

A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius e Farel começaram a prégar contra a superstição.

Berne, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas, fez-se tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em pouco a Reforma começou a palpitar no meio dos cidadãos que a compunham. O conselho foi instigado a annunciar que na cidade só seria prégado o Evangelho puro, e tres prégadores, Kolb, Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão para fallarem contra a missa e contra as ceremonias papistas.

Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros cantões, durante a qual a Reforma foi, ainda que lentamente, ganhando sempre terreno, e por fim a Suissa ficou dividida em duas partes pela questão religiosa.