Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse, muitos annos depois: «Devemos ter consideração por Martinho Luthero; mas o que é certo é que aquillo que temos em commum com elle já o conheciamos muito antes de ouvir fallar no seu nome».

Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em seguida foi nomeado cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu ahi dez annos, lendo e estudando os auctores classicos latinos, e em especial Cicero, Seneca e Horacio; começou tambem a aprender grego com muito afan, e a esse respeito escreveu a um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de Deus é que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas Sagradas.» Os seus livros favoritos do Novo Testamento eram, diz-se, as Epistolas de S. Paulo. Copiou-as com as suas proprias mãos de mais de um manuscripto, e sabia-as, por fim, de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a declarar que o unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar ouvidos á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o seu modo de pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um dedicado filho da egreja medieval, torturando-se com jejuns e flagellações.

Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde havia uma abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre imagem da Virgem, a que se attribuiam muitos milagres. As multidões vinham em peregrinação a esta localidade, e Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante a idolatria e superstição de aquella gente, e perante o embuste e sacrilegio do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura e o peccado de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos seus sermões proferiu o seguinte: «Na hora da vossa morte clamae só por Jesus Christo, que vos comprou com o Seu sangue, e que é o unico Mediador entre Deus e os homens.» Estas suas predicas produziram uma enorme excitação, e, tendo constado em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja. Elle recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação que o dito legado lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos de Zurich lhe pediu, em 1519, para ir para lá como pastor, acceitou muito gostosamente, e não tardou em ter uma grande influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão.

Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor ambulante de indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer ao povo o artigo do seu commercio. Zwinglio protestou contra o seu procedimento, e conseguiu que as auctoridades o pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de conferencias sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas da graça e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias eram feitas na presença de centenares de pessoas, que ouviam o Evangelho com agrado.

A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de infanteria o papa nas suas guerras com o imperador; a influencia de Zwinglio, porém, era tão grande que em 1521 o cantão de Zurich recusou alugar os seus soldados, como até ali tinha feito. Esta patriotica resistencia a um infame trafico de sangue levantou maior opposição do que todos os sermões prégados por Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os bispos das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias para que a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o legado do papa tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e destruisse todos os livros lutheranos que haviam penetrado no paiz, e a Dieta passou ordens n’esse sentido.

A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio, posto que obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos os curas, pastores e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos e as Epistolas em conformidade com o Espirito de Deus e com as Sagradas Escripturas do Antigo e Novo Testamento.» Esta intimação deu um impulso ao movimento evangelico, que já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado sobre o jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo, durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela egreja. Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o. O papa, Adriano II, queria a todo o transe evitar uma questão com os suissos, cujas tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir Zwinglio por boas maneiras, nada conseguindo, porém. Emquanto os legados percorriam leguas e leguas para lhe transmittirem os lisongeiros recados de que eram portadores, escrevia Zwinglio o seu Apologeticus, vigoroso ataque ás corrupções da egreja.

O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que impozessem silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles licença para uma discussão publica, e comprometteu-se a provar, na presença de todos, que as suas opiniões se fundamentavam na Biblia. A junta accedeu, e fixou, para essa discussão, o dia 23 de Janeiro de 1523.

As theses de Zwinglio.—A fim de separar convenientemente os assumptos a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta theses, inscrevendo por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação differia da dos seus accusadores, constituindo o conjuncto um bem elaborado resumo de theologia protestante. As theses affirmavam, em poucas palavras, o seguinte:—Jesus Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto, e é só Elle a quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é abraçal-O e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou tirar alguma coisa do Evangelho, não passa, por consequencia, de meras pretensões, com que insulta a Jesus Christo, nosso unico Summo Sacerdote. Christo morreu na cruz, resgatando, de uma vez para sempre, os peccados do Seu povo, e portanto a missa, que se assevera continuar, ou repetir, esse sacrificio, constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma ceremonia commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre Deus e o homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria. A Escriptura Sagrada não contém uma palavra ácerca do purgatorio, e é coisa que não existe. Nada desagrada mais a Deus do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que tudo quanto assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação, a confissão auricular, a absolvição, o celibato clerical e todas as ordenanças exclusivamente ecclesiasticas.

Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica, e, na opinião dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente os seus antagonistas.