Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores soubessem perfeitamente que a verdadeira egreja visivel era constituida pelo povo piedoso que professava a fé em Jesus Christo, não tinham podido dar uma expressão pratica a esse sentimento, e o systema consistorial dos lutheranos collocava os principes e as outras auctoridades civis no logar que os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer que o povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar a essa egreja uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por si propria, como os christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos tinham feito. Pode-se quasi dizer que não trataram de incutir na vida da egreja reformada as maximas de auto-governo que inspiraram a communidade christã do Novo Testamento. Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser dirigida de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma.

Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente que a egreja e o povo christão eram uma e a mesma coisa, e os projectos de auto-governo, que, se não foram sempre bem succedidos, eram, pelo menos, feitos com boa intenção, faziam parte da Reforma proposta. Isto proveiu, indubitavelmente, de um cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a vida popular dos suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o sentido do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da livre e democratica vida suissa estava mais no caso de comprehender a democracia espiritual do christianismo do Novo Testamento do que aquella que principiou nas universidades e nas côrtes dos principes allemães.

A situação politica da Suissa.—A Suissa era, n’aquelle tempo, um paiz como não havia outro na Europa. Estava tão dividido como a Italia ou a Allemanha, e, comtudo, apresentava uma união que ellas não apresentavam. Era uma confederação de estados, ou cantões, cada um dos quaes era independente de aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles uma perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes, ou, antes, «uma pequena republica de communas e cidades do primitivo typo teutonico, em que o poder civil era exercido pela communidade», cada uma d’ellas com um systema governativo differente.

Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios no principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten, onde 1.300 suissos derrotaram 10.000 austriacos, teve logar em 1315. Cerca de dois seculos mais tarde, os cantões florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a que pouco depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca ao centro, e tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos por um.»

Os cantões florestaes eram communas independentes, e os seus habitantes, todos elles proprietarios rusticos, residiam em valles quasi inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que se havia formado em redor de uma colonia ecclesiastica; Berne a um antigo logarejo que se aninhava junto á base de um castello senhorial; e assim por deante. Os cantões florestaes tinham um governo simples, patriarcal; em Zurich os nobres tinham a mesma consideração que os commerciantes e artistas, e a constituição era perfeitamente democratica; Berne era uma republica aristocratica; e assim successivamente; mas em todas ellas o governo estava nas mãos do povo, e todos os homens eram livres.

Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve, durante umas poucas de gerações, nada que se parecesse com uma administração episcopal. As suas communicações com o pontificado eram effectuadas por meio de delegados, ou emissarios, e obedeciam apenas a motivos politicos. O territorio estava sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de Besançon; mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões suissos, e d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir reformas na egreja.

No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e a convivencia com os paizes adjacentes foram mudando os velhos e simples costumes do povo suisso. Na Edade Media era crença geral que a força principal de um exercito estava na sua cavallaria; mas as victorias que os suissos alcançaram sobre as tropas austriacas e borgonhezas mostraram a superioridade de uma boa infanteria, convenientemente adestrada. As tropas suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos quando tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se desenvolvido gradualmente o mau habito de alugar os seus soldados a quem maior somma de dinheiro offerecesse. Era costume, quando um regimento suisso partia para a guerra por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo, na qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que este serviço mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam todo o possivel, no seu regresso á patria, para que esta perniciosa pratica fosse abolida.

Ulrico Zwinglio.—Um dos mais famosos d’estes patriotas foi Ulrico Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu a ser o Reformador da Suissa.

Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no Toggenburgo, pequena região montanhosa, cuja altitude era tal que não produzia arvores de fructo, sendo tambem impossivel cortal-a de estradas. O pae d’elle era o chefe, ou magistrado, da communa, e um dos seus tios era o deão de Wesen.

O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como, em vista da sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar ao filho uma boa educação, mandou-o estudar em Basiléa e em Berne, de onde passou para a grande universidade de Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os estudos classicos, enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que a Italia estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para Basiléa, e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de aquelles theologos liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias, sobre o fundamento de que Christo resgatou, com a Sua morte, os peccados de todos os homens.