Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo gradualmente o direito de se governar a si propria, podendo, por fim, eleger um conselho constituido pelos seus concidadãos. Em 1513 o papa Leão X poz á testa da diocese um bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este modo os dois partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, duas facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da cidade. Um dos partidos trabalhava para que a cidade ficasse por completo sob o dominio da casa de Saboya; o outro pretendia tornal-a uma republica livre, como os cantões da Suissa, e para conseguirem o fim que tinham em vista contrairam uma alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito mal vistos pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome de «mamelukos», ao passo que os do partido republicano eram cognominados «Eidgenossen», isto é, confederados. Este ultimo nome desperta algum interesse, por ser provavelmente d’elle que se originou o nome do grande partido protestante francez, os huguenotes.

A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na cidade, assim como a devassidão italiana. O partido aristocratico tinha-se tornado notorio pela sua má vida. O palacio do bispo e o castello do duque de Saboya eram theatro dos mais impudentes excessos, e estes maus exemplos tinham corrompido muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do seu superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento das freiras franciscanas, em que se observava uma certa pureza de vida. Os republicanos não eram isentos dos vicios que deshonravam os seus adversarios; o seu desejo de liberdade era muitas vezes um desejo de licença, e o seu enthusiasmo republicano tinha em muitos casos uma origem pagã. Eram filhos da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse estranho movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre muito boa venda em Genebra.

Farel em Genebra.—Estavam as coisas n’este pé quando, em 1532, veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos e impetuosos sermões contra o «anti-christo romano» e a idolatria e superstições da egreja romanista, um joven francez, Guilherme Farel, que fôra um dos reformadores de Berne. As suas predicas produziram um grande alvoroço; os partidarios do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu respeito opiniões desencontradas.

Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados a Berne e a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado Farel a Genebra; Freiburgo era romanista, e havia encarregado algumas pessoas de instarem com os burguezes para que pozessem fóra da cidade o impetuoso orador. Elles pensaram muito no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse. Este assim fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne, que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de Berne, para celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou para Genebra, e foi nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha em grandes multidões ouvil-o prégar, e a Reforma foi avançando.

O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa commum contra Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O Conselho declarou abolida a diocese, concedeu a Farel plena liberdade para prégar, e os seus sermões sobre liberdade civil e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em 1535 teve logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, como os cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com elles os pontos sobre theologia e moral que estavam em debate entre a egreja de Roma e os reformadores.

O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia conter-se, nem comprehendia que as coisas tinham de ser feitas devagar e com a devida legalidade, precipitou-se, depois da polemica, para as egrejas, destruiu as reliquias, derrubou as imagens, rasgou os paramentos, e commetteu muitos outros actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho declarou abolido o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos que adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma cidade inteira, por mandado do conselho municipal, suprema auctoridade civil, não poderia, decerto, melhorar o caracter do povo. Havia, sem duvida, muita gente sobre quem a prégação de Farel produzira bom effeito, mas o Evangelho não pode conquistar os corações quando é imposto d’aquella fórma. O estado moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e tudo indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca da natureza da liberdade christã. Parecia não haver meio de suster o povo. Farel tinha esgotado todos os recursos da sua intelligencia. Por fim teve mão n’um moço estudante francez que, quasi accidentalmente, se encontrava na cidade, e supplicou-lhe que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse. Esse moço estudante era João Calvino, e aquella visita casual foi o inicio da obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as egrejas reformadas da Europa.

A mocidade de Calvino.—João Calvino, ou Chauvin, nasceu em Noyon, na Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, uma creança quando Luthero e Zwinglio começaram a atacar a egreja romanista, e pode-se dizer que pertence á segunda geração da Reforma. O pae exercia um cargo publico em Noyon, e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma senhora muito religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As relações que o pae mantinha com as familias nobres da região e com o bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que n’aquelle tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com os filhos da nobre familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, desde os primeiros annos, a carreira ecclesiastica.

Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae obteve para elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, e mandou-o para a universidade de Paris. Foi primeiro para o Collegio de La Marche, onde teve por professor o celebre Mathurino Corderier,[1] e em seguida para o Collegio Montaigu, que mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente se celebrizou, Ignacio de Loyola.

Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os seus condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», pelo motivo de estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. Quando elle tinha dezoito annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, e, para receber o respectivo estipendio, teve de sujeitar-se á tonsura, sendo esta a unica coisa que elle teve em commum com os padres da egreja de Roma. Não chegou a ordenar-se, nem fez voto de celibato.

Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu que o filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, com esse intuito, estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo obedeceu; tornou-se um applicado estudante de direito, posto que similhantes estudos não fossem do seu gosto; e, trabalhando de dia e de noite, conseguiu cursar com egual exito tanto aquella faculdade como a de theologia. Alcançou fama de ser o estudante mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que com as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira juridica.