Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade para seguir a vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos de direito, voltou, em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente á pequena communidade de protestantes que costumavam reunir-se n’essa cidade para lerem e estudarem as Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz porque deu esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de fallar no que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso. Era, a este respeito, muito differente de Luthero. Este contava a sua historia com a maxima franqueza, a todos expunha as suas duvidas, os seus temores, a sua fé. Cada um tinha a sua natureza especial. Só uma vez é que Calvino tirou de cima de si o véu com que se cobria. No prefacio ao assombroso Commentario ao Livro dos Psalmos diz-nos que Deus o attraiu a Si mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renunciou a uma brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos ecclesiasticos, e ajuntou-se á pequena communidade evangelica de Paris, disposto a partilhar os perigos que ella corresse.

Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado a publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris a toda a pressa, para não ser preso por causa da sua religião. Foi para Strasburgo, onde travou conhecimento com o reformador Martinho Bucer, e de ahi para Basiléa e varios outros pontos, levando uma vida de estudante nomada.

[1] Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos, um nome bem conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde se fazia uso dos seus exercicios em todas as aulas de latim. Converteu-se á fé reformada mediante o seu famoso discipulo, e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as doutrinas evangelicas, utilisando para esse fim as phrases que nos seus exercicios deviam ser traduzidas em latim. Na edição que publicou pouco depois da sua conversão, as referidas phrases eram breves exposições das verdades evangelicas, ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições romanistas. Seguiu Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88 annos.

Os Institutos da Religião Christã.—Na primavera de 1536 publicou em Basiléa a primeira edição dos seus Institutos da Religião Christã. A obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida em francez, para uso, como elle proprio disse, dos seus compatriotas. A primeira edição era mais pequena, e a todos os respeitos inferior, ás edições revistas de 1539 e 1559; mas como producção de um rapaz de vinte e seis annos, que era a edade que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival. Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma», e, mais do que qualquer outro trabalho theologico, influiu nas idéas e amoldou o caracter da Reforma Protestante.

Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro com um duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de theologia para a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma facil introducção, e habilitando-os a vencer todos os embaraços». Mas tinha tambem em vista justificar o ensino dos reformadores e desfazer as calumnias dos seus inimigos, que haviam instado com o rei de França para que os perseguisse, e os expulsasse de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «A Sua Christianissima Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano, João Calvino deseja paz e salvação em Christo». E ajuntava: «Exponho-vos a minha confissão, para que conheçaes a natureza d’essa doutrina que tem provocado uma tão ilimitada raiva a esses desvairados que estão agora, por meio do fogo e da espada, pondo o vosso reino em desasocego. Pois não tenho receio algum de confessar que este tratado contém um summario d’essa mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada da superficie da terra».

Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar o que os protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou logo á comparação d’essas crenças com o ensino da egreja medieval. Luthero fez grande ostentação do Credo dos Apostolos, e nunca se cançava de dizer que elle e os seus correligionarios acceitavam aquella antiga e venerada summula da fé christã, e que, portanto, os protestantes pertenciam á Egreja Catholica de Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou por ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo quando se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos á prova do Credo dos Apostolos, os protestantes eram catholicos mais genuinos do que os romanistas.

Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a publicação dos seus Institutos é necessario lembrar o que era o Credo dos Apostolos. Nosso Senhor, antes da Sua ascensão, disse aos Seus discipulos que fossem a todas as nações, baptizando-as em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo; e assim os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica, quando recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas que fizessem a seguinte profissão de fé: «Creio em Deus Pae, e em Seu Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo, sendo esta a mais antiga e mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe mais estas palavras: e na Santa Egreja Catholica. Estas quatro orações eram proferidas por todos os neophytos por occasião do baptismo. O Credo dos Apostolos e todos os outros credos primitivos são simplesmente desenvolvimentos d’essas quatro phrases; e os primeiros livros theologicos que explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã eram exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno, uma exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre outras coisas, que a verdadeira theologia nasceu da simples expressão de uma confiança em Deus acompanhada de adoração.

Os Institutos de Calvino são, na realidade, uma exposição do Credo, e dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando uma porção do Credo. A primeira parte falla de Deus o Creador, ou, como o Credo diz: «Deus, Pae Omnipotente, Creador do céu e da terra»; a segunda parte de Deus Filho, o Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de Deus Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja Catholica, e da sua natureza e distinctivos.

A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo a passo o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha ácerca da Reforma aquella mesma opinião que Luthero diligenciou expôr nitidamente no seu tratado sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus. Nunca lhe acudiu á mente que estivesse contribuindo para a fundação de uma nova egreja, ou que estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que mantivessem opiniões originaes, até então desconhecidas. A theologia da Reforma era a velha theologia da Egreja de Christo, e as opiniões dos protestantes eram convicções da verdade que se baseiavam na Palavra de Deus, e que, conforme constava da historia da Christandade, haviam sido partilhadas por todo o povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle ensinava era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com toda a clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que pelos pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e philosophia do paganismo. A Reforma, dizia-se nos Institutos, não engendra opiniões novas, trata apenas de desmascarar as falsidades e apresentar, em toda a sua pureza, as verdades antigas.

Calvino em Genebra.—A publicação dos Institutos fez com que Calvino se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos da Reforma; e quando, nas suas peregrinações, deu comsigo em Genebra, tencionando passar ali a noite e abalar em seguida, Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o auxiliasse nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao mesmo tempo reconhecia que era um dever para elle deitar mãos ao trabalho que podia executar em Genebra, e por fim resolveu ficar na companhia de Farel.