[I]—A Reforma na Allemanha.
[II]—A Reforma lutherana fóra da Allemanha.


CAPITULO I
A REFORMA NA ALLEMANHA

O principio da Reforma, [pag. 3].—As Indulgencias, e as Theses que Luthero escreveu contra as mesmas, [pag. 5].—As Theses de Luthero não atacavam sómente as Indulgencias, [pag. 6].—A historia de Luthero, desde o principio, [pag. 7].—Partidarios e adversarios de Luthero, [pag. 9].—A disputa de Leipzig, [pag. 10].—A bulla do papa, e a queima da mesma, [pag. 12].—O imperador e a Reforma, [pag. 14].—O estado politico da Allemanha, [pag. 15].—Luthero e a dieta de Worms, [pag. 16].—Luthero em Wartburgo, [pag. 18].—Regresso de Luthero a Wittenberg, [pag. 19].—A dieta de Nürnberg, [pag. 20].—A revolta dos nobres, [pag. 21].—A revolta dos camponezes, [pag. 23].—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529, [pag. 28].—O imperador pretende subjugar a Reforma, [pag. 32].—A Conferencia de Marburgo, [pag. 33].—Divergencia entre Luthero e os suissos, [pag. 33].—A Dieta de Augsburgo, [pag. 36].—A Confissão de Augsburgo, [pag. 38].—A Liga Protestante de Schmalkald, [pag. 39].—A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald, [pag. 42].—O imperador e o Concilio Geral, [pag. 43].—Loyola e os jesuitas, [pag. 45].—A paz religiosa de Augsburgo, [pag. 47].

O principio da Reforma.—A reforma principiou, se é que similhante movimento, cujos estimulos vieram de uma epoca remotissima, teve realmente um principio, quando Martinho Luthero pregou as noventa e nove theses contra as indulgencias na porta da egreja da pequena cidade de Wittenberg, na Saxonia. João Tetzel, frade dominicano, havia sido enviado á Allemanha pelo papa Leão X com o fim de colher dinheiro para o serviço da egreja; para ajudar a pagar as despezas da guerra com os turcos, dizia-se, mas o verdadeiro intuito era angariar fundos para serem dispendidos pelo papa em quadros e outras obras de arte para a sumptuosa egreja de S. Pedro, em Roma. O dinheiro obtinha-se em troca de uma especie de recibos, em que se declarava que o comprador havia recebido perdão da perpetração dos peccados que mencionara e pago a respectiva importancia.

O vendedor de indulgencias viajava sob a protecção do arcebispo de Mayença, um dos sete eleitores da Allemanha. Atravessou durante o outomno de 1517 o centro da Allemanha, e chegou em outubro a Leipzig, na Saxonia. A sua presença não tinha sido bem acolhida, nem pelos principes, nem pelos clerigos mais zelosos dos seus deveres, nem pelas pessoas do povo mais bem intencionadas. Os principes não gostavam d’elle pelo facto de extrair do povo tanta somma de dinheiro e mandal-o todo para o papa; estava empobrecendo o paiz; e alguns d’elles não lhe deram licença para entrar nos seus territorios senão depois d’elle prometter que lhes dava uma parte do que adquirisse.

A classe mais escolhida do clero paroquial não gostava d’elle pelo facto de, por onde quer que elle passasse, o povo se tornar peior; vendia por sete ducados o direito de assassinar um inimigo; aquelles que desejavam roubar uma egreja eram perdoados se pagassem nove ducados; e o assassinio de pae, mãe, irmão ou irmã custava apenas quatro ducados. Os homens e mulheres que compravam estas indulgencias queriam, como é natural, tirar algum lucro de aquillo que lhes custara o seu dinheiro, e por isso o crime abundava onde quer que o vendedor do perdão apparecesse.

As pessoas amigas do socego tambem lhe eram adversas, pelo facto do tumulto e dos escandalos a que a sua presença dava origem. Enviava adeante de si homens extravagantemente vestidos, que fixavam annuncios pelas paredes, e que apregoavam pelas ruas e pelas estradas a sua proxima chegada, encarecendo a excellencia das cedulas de perdão que elle trazia á venda. Eis algumas d’estas proclamações: «O perdão torna aquelles que o comprarem mais limpos do que o baptismo, mais puros do que Adão no seu estado de innocencia no paraiso»; «Assim que o dinheiro tilintar no fundo do cofre, o comprador fica perdoado, e livre de todos os peccados». Em seguida a estes charlatães, apparecia o vendedor do perdão e o seu ajudante, n’uma pesada carroça, que era conduzida para o meio da praça do mercado. Tetzel, tendo de um lado uma gaiola de ferro de cujas grades pendiam os celebres papelinhos, e do outro um cofre em que o dinheiro era lançado, offerecia ao publico a sua mercadoria, á maneira dos vendedores de elixires que costumam apparecer pelas feiras.