Luthero não o perdia de vista desde havia muito tempo, e a sua alma justa sentia-se indignada com o facto dos bispos, apezar de todas as suas cartas e protestos, permittirem que elle andasse de diocese em diocese. Não obstante haver prégado contra Tetzel e contra as indulgencias, o traficante do perdão ia-se approximando. Tetzel chegou, por fim, a Jüterbogk, perto de Wittenberg, e Luthero, que já se havia tornado famoso como prégador e como professor da universidade, não poude conter-se por mais tempo. Escreveu noventa e nove theses contra as indulgencias, e pregou-as na porta da egreja: declarava elle, n’essas suas proposições, que, se havia na Egreja logar para Tetzel e para os seus bilhetes de perdão, não o haveria para elle, Luthero, nem para as idéas que elle tinha relativamente ao peccado e ao modo como Deus concede o perdão. Roma e as indulgencias estavam produzindo uma forte indignação em toda a Allemanha. Bastaria uma faulha para ateiar o incendio; foram as theses que o ateiaram, dando principio á Reforma.
As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra ellas.—As indulgencias que Luthero denunciou não constituiam uma coisa nova na Egreja, e, posto que Luthero não o imaginasse, formavam um elemento tão preponderante da vida exterior da Egreja n’aquella epoca que seria dificil censural-as sem ir de encontro a muitas outras coisas. A Egreja da Edade Media preoccupava-se muito com a representação visivel dos factos e forças espirituaes, e tornou-se um caso vulgarissimo dar tanta importancia a essa manifestação externa que se chegava a perder de vista o verdadeiro sentido espiritual, e d’esta fórma muitas e excellentes verdades evangelicas se acharam envolvidas por uma espessa camada de formulas estereis que não permittiam que se desenvolvesse a vida espiritual.
É uma verdade evangelica que quando um homem se sente triste por causa dos seus peccados ha de mostrar a sua tristeza d’este ou d’aquelle modo; o verdadeiro arrependimento torna-se sempre manifesto. A Egreja da Edade Media pegou n’este axioma e incrustou-lhe a idéa de que o arrependimento deve manifestar-se sempre em certos e determinados modos prescriptos pela Egreja; e esses meios exteriores de mostrar arrependimento, taes como, o dizer um grande numero de rezas, o jejuar em certos dias, ou o praticar outras penitencias mais ou menos dolorosas, vieram a ser consideradas como o verdadeiro arrependimento e a serem chamados por esse nome.
No decurso do tempo, quando a Egreja se tornou mais corrupta, ficou estabelecido que o pagamento de umas determinadas sommas de dinheiro dispensasse os signaes exteriores do arrependimento, comtanto que o peccador penitente se sentisse compungido no seu coração por haver peccado. Quando a Egreja attingiu um estado ainda peior, decidiu-se, como coisa assente, que o desembolso do dinheiro alcançaria o perdão—o perdão de Deus—tanto dos peccados commettidos, como de aquelles que se commettessem depois. Foi de ahi que proveiu o indigno trafico das indulgencias. Os papas e os seus dependentes acharam esta doutrina muito lucrativa, e, como foi abertamente proclamado, diligenciaram extrair todo o dinheiro que lhes fosse possivel «dos peccados dos allemães». A indulgencia contra a qual Luthero protestou era a quinta das que nos ultimos dezesete annos tinham sido publicadas.
As noventa e nove theses de Luthero constituem um discurso encadeado contra a doutrina e pratica das indulgencias. E torna evidentes estas tres coisas: (1) É, de algum modo, digna de approvação a indulgencia quando significa simplesmente um dos muitos meios de proclamar o perdão do peccado, concedido por Deus; mas uma tal proclamação deve ser sempre gratuita. (2) Os signaes exteriores do arrependimento não equivalem á dôr intima que se sente por haver peccado, isto é, ao verdadeiro arrependimento, e a auctorisação para deixar de os pôr em pratica não pode, de maneira alguma, garantir que Deus tenha realmente perdoado. (3) Qualquer cristão que se sinta verdadeiramente arrependido recebe um pleno perdão, e é participante de todas as riquezas de Christo, por um dom directo de Deus, sem ser necessaria uma carta de indulgencia ou outra intervenção humana. E, n’um sermão que publicou para explicar melhor as suas theses, declara que o arrependimento consiste na contricção, na confissão e na absolvição, e que a mais importante das tres coisas é a contricção. Se a dôr, ou contricção, fôr verdadeira, sincera, seguir-se-lhe-hão naturalmente a confissão e a absolvição. Assim, para Luthero, a coisa essencial é o facto intimo, espiritual, da dôr produzida pelo sentimento do peccado; a manifestação do pezar é uma coisa boa, mas para o que Deus olha é para o estado espiritual, e não para a exteriorisação d’esse estado.
As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias.—Luthero, nas suas theses e no seu sermão, declarou que os factos intimos, espirituaes, experimentados pelo homem, eram de um infinito valor, comparados com a expressão d’esses factos mediante formulas esteriotypadas que a Egreja reconhecia; e tornou, outrosim, bem claro que no tocante a um tão solemne assumpto como é o perdão dos peccados o homem podia ir ter directamente com Deus, sem qualquer mediação humana. Dizendo isto, fez muito mais do que atacar as indulgencias; protestou contra as mais enraizadas noções da Egreja medieval.
A sua opinião tem sido partilhada por muitos christãos desde o dia de Pentecoste, e atravez de todas as epocas de superstição homens e mulheres, cheios de confiança em Christo, se teem dirigido humildemente a Deus, rogando-lhe o perdão. Foi-lhes concedido esse perdão que solicitavam, e a sua simples experiencia christã foi cantada nos grandiosos e velhos hymnos da egreja medieval; encontrou expressão nas orações da Egreja; constituiu a alma da prégação evangelica da Egreja, e agitou as multidões nos muitos despertamentos da Edade Media. Como quer que fosse, porém, esses piedosos prégadores e auctores de hymnos não viram quão inteiramente essa sua preciosa experiencia era opposta ao maquinismo ecclesiastico do seu tempo. A Egreja accumulava de tal fórma as coisas exteriores, que a vida espiritual ficou sepultada debaixo d’ellas, e na linguagem corrente da epoca havia-se mudado a verdadeira significação dos termos «espiritual» e «santo». Dizia-se que um homem era «espiritual» quando havia sido ordenado para officiar na egreja; o dinheiro tornava-se «espiritual» quando era dado á egreja; a um dominio, com as suas estradas, bosques e campos, chamava-se «espiritual», ou «santo» se pertencia a um bispo ou a um abbade.
E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos, com a sua linguagem, tanto tinha aviltado as coisas espirituaes, e tão cega tinha sido para ellas, interpozera-se entre Deus e o homem, proclamando que ninguem se podia chegar a Deus senão por meio d’ella, e que Deus não poderia jámais fallar ao coração do homem senão egualmente por seu intermedio. A confissão dos peccados tinha de ser feita ao padre, e o perdão era concedido mediante a absolvição. Luthero havia fallado contra tudo isto n’aquellas suas theses, mas elle proprio quasi que o não sabia. A sua devota natureza havia-se revoltado perante a profanidade de se suppôr e se dizer que se podia obter de Deus o perdão dos peccados comprando um papel, e que o peccado e a ira de Deus eram coisas que desappareciam mediante o desembolso de uma certa quantia. Ao dar saida á sua indignação, referia-se apenas ao sacrilegio que via deante de si; e, comtudo, atacou, não simplesmente a peior parte de um systema mau, mas o systema todo. A Reforma tinha começado.
A historia de Luthero, desde o principio.—O homem que se oppoz a Tetzel tinha, apoz um longo e encarniçado combate, chegado ao conhecimento do que o perdão dos peccados significa realmente. Recorrera a todos os meios que a Egreja poz ao dispôr dos espiritos attribulados, mas nenhum d’elles lhe proporcionara conforto: por fim, dirigiu-se elle proprio a Deus, e achou a paz que procurava. Sabia por experiencia propria que o perdão de Deus não se alcança mediante a compra de um bilhete estampado com as armas pontificias, e lavrou o seu protesto em nome de todos aquelles que, em todos os seculos da egreja, sentindo-se vergados ao peso do peccado, tinham encontrado em Deus a paz e o perdão. A historia espiritual d’elle torna isto bem evidente, como vamos ver.
Luthero nasceu em Eisleben, em 10 de Novembro de 1483. «Sou camponez, e filho de camponez», costumava elle dizer. O pae era mineiro, e a mãe uma camponeza com fama de muita austeridade. Teve uma infancia muito pouco risonha, e, apezar do modo prazenteiro que constituia um dos seus caracteristicos, notava-se-lhe de quando em quando um certo ar triste que elle proprio attribuia ao que tinha soffrido nos primeiros annos da sua vida. O pae tinha resolvido fazer d’elle um homem. Como todos os homens de trabalho, tinha em desprezo os indolentes frades, e toda a sua idéa era que o filho fosse advogado; queria que elle se formasse em direito, conhecesse todas as engrenagens da lei, d’esse terrivel tyranno do camponez allemão, que o tratava como a um servo, quasi como a um proscripto. Luthero frequentou, pois, as escolas de Mansfeld, de Magdeburgo, de Eisenach. A vida do estudante pobre era, n’aquelle tempo, bem custosa. Passou fome, levou pancadas, não houve mal que não experimentasse. Para ter um bocado de pão era-lhe, muitas vezes, forçoso cantar pelas ruas. Foi em Eisenach que o attingiu o primeiro lampejo da caridade humana, quando Frau Cotta, attraida pela triste solidão em que elle vivia e pela sua melodiosa voz, o introduziu em sua casa e lhe fez todo o bem que poude. De Eisenach foi para Erfurt, para a Universidade, onde não tardou a fazer rapidos progressos. Aprendeu muita coisa, além da jurisprudencia. Leu Cicero, Platão, Terencio e Tito Livio. Leu as grandes obras theologicas da egreja medieval; e, acima de tudo, leu e tornou a ler, até os saber de cór, os escriptos do bravo franciscano inglez Guilherme de Occam, que resistiu denodadamente aos papas no seculo quatorze, e que ensinou Wycliffe e Huss a fazerem o mesmo. Luthero chamava-lhe com todo o carinho: «Occam, o meu querido mestre». Em 1503 recebeu o grau de bacharel, e em 1505 o de doutor. Tornou-se notado pela sua viva intelligencia e pela sua pasmosa eloquencia. Estava, pois, no caminho da posição em que o pae desejava vêl-o: a de um grande jurisconsulto.