André Melville.—João Knox morreu quando este conflicto entre a Côrte e a Egreja estava no principio, e era necessario fazel-o substituir por outro dirigente. Entre os escocezes illustrados que o triumpho da Reforma e a renascença das letras haviam attraido para o seu paiz natal, André Melville era o que mais se tinha distinguido. Nascido, em 1545, em Baldovy, perto de Montrose, recebeu a sua educação na Escola Primaria d’essa cidade, e no Collegio de St.ª Maria, em St.º André. De ahi foi para Paris, onde teve por professor o celebre Pedro Ramus. Depois de terminar os estudos, obteve em Genebra uma cadeira de latim, e em 1574 voltou á Escocia, com a reputação de um dos mais eminentes sabios da Europa. Pouco depois do seu regresso foi nomeado reitor da universidade de Glasgow, e por tal fórma dirigiu esse estabelecimento de instrucção que correu a matricular-se n’elle um elevadissimo numero de mancebos, não só escocezes como estrangeiros.

Foi um dos membros da Assembléa de 1575, em que a questão do presbyterio e do episcopado tomou pela primeira vez um caracter serio; e fez parte da comissão nomeada por essa Assembléa para considerar se o nome e deveres de um bispo tinham alguma auctorização biblica, isto é, se os bispos que havia n’aquelle tempo na Egreja da Escocia estavam ali, e desempenhavam os seus cargos, em obediencia á Palavra de Deus. A decisão a que se chegou foi que o nome de bispo pertencia a todos os pastores da Egreja de quem se havia confiado congregações, mas que tambem podia ser applicado aos ministros escolhidos por seus irmãos para implantar egrejas e inspeccionar as egrejas existentes, e o sentimento geral da Egreja a este respeito pode colligir-se d’estas tres expressões, que indicam tres especies de bispos: My Lord Bishop (Meu Senhor Bispo), My Lord’s Bishop (Bispo do Meu Senhor), e Lord’s Bishop (Bispo do Senhor), sendo os primeiros catholicos romanos, os segundos tulchanos, e os terceiros pastores das congregações.

O Segundo Livro de Disciplina.—Quando a Egreja Reformada da Escocia se encontrou face a face com estes novos problemas ecclesiasticos, sentiu necessidade de um mais distincto e mais completo schema de governo da egreja do que aquelle que o Primeiro Livro de Disciplina continha. Esse systema de governo da egreja havia sido preparado á pressa, e fazia menção de differentes materias que estavam fôra da esphera de um livro de preceitos ecclesiasticos. A Assembléa de 1576 nomeou uma commissão para tratar d’esse assumpto, e redigir um livro que podesse substituir a obra de Knox e de Row. O dito livro foi escripto de vagar, com muita perseverança, e finalmente em 1578 deu-se ordem para que o O Segundo Livro de Disciplina fosse impresso, afim de sujeital-o á critica e se fazerem as necessarias correcções. Tres annos se dispenderam em ponderar todos os seus pontos, todas as suas phrases, e o Livro de Politica, como se lhe chamou, foi então acceite pela Assembléa e incluido nas suas Actas.

Este livro, que apresenta, n’um estylo conciso e claro, o esboço do governo da Egreja Presbyteriana na Escocia, começa por fazer distincção entre as leis ecclesiasticas e civis, e reivindica para a Egreja «uma politica differente da politica do Estado». O conjuncto do governo da egreja, diz o livro, comprehende doutrina, disciplina e distribuição; e para este triplice governo ha um triplice officialato, que se divide em pastor, ou bispo, presbytero e diacono. O Livro de Disciplina addiciona um quarto oficio, ou de doutor, ou ensinador. N’um curto capitulo vem descripta a natureza da vocação, assim como o modo da eleição e ordenação dos pastores. Faz-se tambem uma descripção dos deveres que cabem a cada uma das dignidades, e das varias assembléas em que aquelles que estão d’ellas revestidos teem de comparecer, no exercicio dos seus cargos. É singular que no anno que precedeu o da adopção do Livro de Disciplina pela Assembléa recebesse o seu complemento a organização presbyteriana da Egreja Escoceza mediante o universal reconhecimento do presbyterio como um tribunal superior á sessão da egreja, mas inferior ao synodo; e que este livro de politica não faça menção especial de similhante tribunal, que actualmente exerce funcções tão importantes na organização presbyteriana escoceza.

Como a publicação do Segundo Livro de Disciplina a Egreja Reformada da Escocia completou a sua organização ecclesiastica, e terminou a primeira parte da sua historia. A Reforma estava por esse tempo firmemente estabelecida, e o protestantismo tinha empolgado o povo da Escocia. A Egreja tinha deante de si uma longa lucta; o conflito, porém, não era com o papismo, mas com o Estado; não era no sentido de reformar a religião, mas de desenvolver e preservar a fórma democratica do governo da Egreja, que se impunha ao povo como sendo a mais conforme com a Palavra de Deus, e a mais adequada para a habilitar a desempenhar os seus deveres de Egreja de Christo.

Em 1574 a Escocia achava-se em curiosas circumstancias ecclesiasticas. Haviam-se conservado as paroquias que existiam antes da Reforma, e cujo numero era superior a mil. Para seu funccionamento havia 289 ministros e 715 leitores, e muitos d’estes ultimos eram os padres catholicos romanos que tinham vindo para a religião reformada mas que não possuiam uma educação sufficiente para justificar a sua ordenação como pastores protestantes. Estas paroquias passaram depois a constituir presbyterios, os presbyterios foram agrupados em synodos, e o conjuncto estava sob a direcção da Assembléa Geral. A organização presbyteriana era, n’um certo sentido, completa. A par d’isto, porém, existiam as velhas dioceses, anteriores á Reforma, em numero de treze, na sua maior parte occupadas por homens que eram ministros protestantes, que haviam tomado o titulo de bispos, mas que não exerciam funcções episcopaes. Apenas tres d’esses bispos, o de St.º André, o de Glasgow e o de Aberdeen, haviam tentado exercer a jurisdicção episcopal, e não o tinham feito tanto na qualidade de bispos, como de superintendentes. Os bispos tinham assento no parlamento escocez, e os seus deveres principaes eram administrar as receitas da cathedral e desempenhar as funcções judiciaes que eram da competencia dos bispos n’outro tempo, anteriormente á Reforma.

Esta organização episcopal vivia lado a lado com a activa e aggressiva constituição presbyteriana da Egreja. O estado dos negocios ainda mais anomalo se tornava com o facto de ainda viverem, e exercerem a sua fiscalização, tres dos antigos superintendentes; e os districtos dos outros superintendentes eram governados por commissarios provisorios nomeados pela Assembléa, que podia demittil-os quando entendesse.

O fim que a Egreja tinha em vista com o conflicto que durou desde 1574 até 1638 era acabar inteiramente com aquillo a que chamava a inutil e nociva organização episcopal, que não tinha ligação alguma com a obra espiritual da Egreja, e substituir os superintendentes e commissarios por presbyteros, unindo assim a Egreja n’um todo harmonico. O fim que a côrte tinha em vista era conservar o velho systema episcopal, e, mediante elle, ir gradualmente dividindo a Egreja em fragmentos, cada um d’elles governado por um bispo que só era responsavel para com o parlamento; e, no fim de tudo, restabelecer o episcopado no velho sentido da palavra, e derribar por completo a constituição presbyteriana.

O anno de 1638 foi o do triumpho da Egreja, mas a historia completa d’esta lucta ultrapassa os limites da presente obra.