Fez-se uma traducção do Catecismo para a Infancia, de Calvino, e deu-se ordem para que se fizesse uso d’ella. O Livro de Ordem Commum, ou a Lithurgia de Knox, foi substituindo a pouco e pouco a Lithurgia do rei Eduardo VI, e a Egreja Reformada da Escocia, com a sua Confissão, a sua constituição ecclesiastica, o seu methodo de culto publico e as suas provisões para a instrucção das creanças, espalhou-se pelo paiz, levantando egrejas, melhorando o estado moral do povo e contribuindo efficazmente para a educação do mesmo.

Uma das principaes dificuldades com que a egreja teve de luctar foi falta de dinheiro para pagar aos ministros. A Egreja Catholica Romana tinha sido officialmente abolida, e, comtudo, não se havia feito provisão alguma para a manutenção do clero reformado. A propriedade ecclesiastica estava em condições anormaes. Até 1560 a Egreja Catholica Romana da Escocia vinha sido muito opulenta, e havia estado de posse de uma grande parte do territorio da nação. Emquanto a egreja estivera luctando com Maria e procurando frustrar os esforços que ella empregava para introduzir de novo a religião e hierarquia romanista, os prelados distribuiram uma grande parte dos bens ecclesiasticos por quem elles muito bem entenderam, os nobres apoderaram-se de uma parte d’elles ainda maior, e o que restava e nominalmente pertencia á egreja estava nas mãos de homens que se intitulavam bispos, abbades, priores, deãos e curas, mas que nunca haviam recebido ordens, eram protestantes só no nome, e se serviam de aquelles titulos ecclesiasticos para poderem usufruir as propriedades a que o cargo dava direito. Depois de alguma discussão, a Assembléa obteve do Estado que aquelas pessoas que conservavam em seu poder bens que nominalmente pertenciam á egreja ficassem com dois terços de rendimento para as suas despezas particulares, e entregassem a restante terça parte para a manutenção do ministerio e das escolas, e para os encargos de beneficencia. A Egreja Reformada, porém, teve muita difficuldade em ver esta disposição convertida em lei, e assim, durante os primeiros annos da Reforma os ministros e as escolas foram principalmente mantidos por meio de offertas voluntarias, ou «benevolencias», como Knox pittorescamente lhes chamava.

A Educação.—As idéas democraticas do presbyterianismo, avolumadas pela necessidade de cooperar com o povo, fizeram com que os reformadores escocezes se ocupassem seriamente da educação popular. Todos os impulsionadores da Reforma, quer na Allemanha, quer na França, quer na Hollanda, tinham reconhecido a importancia de esclarecer o povo; mas a Hollanda e a Escocia foram talvez os dois paizes onde a tentativa foi mais bem succedida. A educação do povo não era uma novidade na Escocia e, posto que nos agitados tempos que precederam a Reforma as escolas superiores tivessem desapparecido, e as universidades tivessem caido em decadencia, o desejo de aprender não se havia extinguido por completo. Knox e o seu amigo Jorge Buchanan tinham um plano magnifico para crear escolas em todas as freguezias, estabelecer collegios superiores em todas as cidades importantes e augmentar o poder e influencia das universidades. O seu plano, devido á cubiça dos barões que se haviam apoderado dos bens da egreja, pouco mais era do que uma devota imaginação, mas havia-se apossado do espirito da Escocia, e a falta de dotações era mais do que compensada pelo desejo ardente que o povo tinha de se instruir. As tres universidades, de Santo André, de Glasgow e de Aberdeen, receberam uma nova vida, e fundou-se uma quarta universidade, a de Edinburgo. Alguns estudantes escocezes que haviam recebido educação nas escolas continentaes, e que haviam abraçado a fé reformada, foram encarregados de superintender o re-organizado systema educativo do paiz, e tudo se fez em harmonia com o viver do povo, preferindo-se, nas escolas, e externato ao internato, e estabelecendo um systema de inspecção que era exercido, em cada circumscripção escolar, por um dos homens mais espirituaes e de maiores conhecimentos. Knox estava tambem disposto a impôr ás duas classes da sociedade, a mais baixa e a mais elevada, uma frequencia obrigatoria ás aulas; quanto á classe media, elle confiava no seu natural desejo de aprender. E desejava que o Estado exercesse a sua auctoridade no sentido de compellir os mancebos de posição a matricularem-se nas escolas superiores e nas universidades, para que podessem prestar serviços uteis á nação.

A morte de Knox.—João Knox morreu em novembro de 1572. O assassinio do seu amigo, o conde de Moray, o Bom Regente, havia-lhe feito uma grande impressão, e a noticia do massacre de S. Bartholomeu, que havia chegado recentemente á Escocia, produziu-lhe um tremendo abalo. Elle nunca havia sido um homem robusto, e durante a sua vida havia passado por muitos trabalhos, mas o seu intrepido espirito a tudo resistira. «Ignoro» diz Smeaton, «se Deus poz jámais n’um corpo debil e franzino uma alma maior e mais santa do que a d’elle». As forças começaram a faltar-lhe muito antes de adoecer gravemente, mas luctou sempre contra o seu precario estado de saude, e nunca deixou de prégar e exhortar como costumava fazer. James Melville, que teve occasião de o ver quando estudava em Santo André, apresenta-nos um retrato d’elle pouco antes da sua morte. «Via-se que andava doente. Todos os dias eu o via passar para a egreja paroquial, andando muito cautelosamente, com o pescoço resguardado por uma pelle, de bengala na mão, e acompanhado pelo seu creado, o bom Ricardo Ballanden. Era esse dito Ricardo e um outro creado que o ajudavam a subir para o pulpito, a que elle se encostava durante algum tempo; logo, porém, que entrava no sermão, enchia-se de uma actividade e de um vigor taes que esse mesmo pulpito por pouco escapava de ficar feito em cavacos.»

Morreu antes de ter effectuado por completo a sua obra, pois que a Egreja Reformada ainda tinha muitos obstaculos a vencer, e o facto de Knox não tomar parte na batalha tornava-lhe mais difficil o sair victoriosa. Elle não possuia a erudição de Calvino, nem uma disposição para se tornar popular, como Luthero, mas nenhum homem o poderia egualar em coragem. «Elle nada temia da carne, nem tão pouco a lisongeava.» E foi isso o que fez o reformador da Escocia.

Como os seus contemporaneos francezes, tinha tanto de estadista como de dirigente ecclesiastico, e emquanto viveu foi o guia do povo escocez. Os nobres de bom grado teriam intervindo no movimento, e lhe teriam dado uma feição mais em obediencia ao seu modo de pensar, mas Knox fez do pulpito a força mais poderosa da Escocia, e com as suas ousadas prégações creou uma opinião publica com que era preciso contar. Elle era, individualmente, um homem de profunda espiritualidade, e «temia a Deus, mas coisa alguma fóra d’Elle lhe mettia medo».

Os bispos tulchanos.—O poder da Egreja Reformada da Escocia foi consideravelmente fortalecido e consolidado mediante o caracter representativo dos seus conselhos, e, mais especialmente, da sua Assembléa Geral, e a liberdade com que todos os assumptos de interesse para a nação eram ahi tratados e discutidos deu á Assembléa da Egreja o caracter de um parlamento nacional onde o povo da Escocia encontrava uma defeza mais efficaz do que nos Estados do reino. Os olhos perspicazes da rainha Maria haviam discernido esta força da egreja, e ella empregou varios esforços, sempre infructiferos, para impedir a reunião da Assembléa Geral. Depois da morte do conde Moray, o Bom Regente, isto é, durante as regencias de Lennox, Mar e Morton, e durante o reinado de James, a Assembléa foi sempre mal vista por aquelles que ambicionavam um poder exclusivo. Sabia-se, porém, que era perigoso dirigir-se á Assembléa um ataque directo, e aqueles que no Estado dispunham do poder tentaram diminuir-lhe a auctoridade promovendo ecclesiasticos e elevando-os a posições que lhes permittissem tomar assento nos Estados e defender ahi as prerogativas da egreja. Depois da morte do regente Moray, a nobreza tratou constantemente de derrubar o governo episcopal, e collocar a Egreja sob o dominio dos bispos.

Uma outra, e talvez mais visivel, causa por que aquelles estavam em auctoridade antipathisavam com a simples constituição presbyteriana que o Livro de Disciplina havia preceituado á Egreja era o facto de ella dar pouca occasião a que as receitas fossem espoliadas, ao passo que a nomeação de bispos reunia uma grande proporção dos dinheiros da Egreja em meia duzia de mãos, habilitava os patronos e entrar em negocios com os ecclesiasticos que elles nomeassem para esses cargos, desviando-se assim uma grande parte dos fundos de que a Egreja ainda estava de posse para as algibeiras dos fidalgos de primeira plana.

Pouco antes da morte de Knox, a Assembléa, não sem protesto, tinha, a instancias dos Lords do Conselho, concordado em acceitar ecclesiasticos com o titulo de bispos, debaixo de certas condições, sendo as principaes as seguintes: os bispos não teriam um poder superior ao dos superintendentes, haviam de estar sujeitos á Assembléa Geral, e não seriam nomeados sem que devidamente se providenciasse quanto ao sustento do ministerio regular. Este accordo, chamado a Convenção de Leith, foi devido principalmente ás diligencias de João Erskine, o antigo amigo de Knox, um dos primitivos superintendentes, e que por mais de uma vez exerceu na Assembléa o logar de Moderador. Alguns annos de experiencia mostraram á egreja escoceza o perigo que para a sua vida livre, para a sua vida democratica, provinha das disposições desta convenção, e pouco depois da morte de Knox appareceram symptomas de um proximo conflicto.

O mais flagrante exemplo do uso que os nobres mais proeminentes faziam d’estes bispos para defraudar a Egreja occorreu em 1581, que foi quando Boyd, o arcebispo de Santo André, morreu. Assim que o edoso prelado faleceu, o duque de Lennox resolveu apoderar-se das propriedades da sé. Era impossivel pôr similhante coisa em pratica sem um legalisado artificio, e o plano escolhido foi induzir Roberto Montgomery, ministro em Stirling, a acceitar o cargo de arcebispo, tornar-se d’esse modo herdeiro dos bens da sé, e passar depois os respectivos rendimentos para as mãos de Lennox. Este caso foi, talvez, o peior d’elles todos; mas em toda a Escocia se procedeu de uma fórma analoga, nomeando-se bispos, abbades, etc., para que podessem tomar legalmente posse dos dinheiros da Egreja, e, em vez de se lhes dar a devida applicação, passal-os para os bolsos dos patronos seculares. O povo chamava a estes bispos, assim como a quaesquer outros dignitarios que se prestavam a essas burlas, tulchanos, e a primeira lucta com os bispos escocezes não foi uma contestação entre o presbyterio e o episcopado, mas entre a Egreja, que queria a todo o custo conservar o seu patrimonio, e esses tulchanos. Quando na Assembléa se tratou do caso de Montgomery, «o moderador, David Dickson, pediu licença para expôr a significação de bispos tulchanos. Tratava-se de uma palavra em uso vulgar entre os montanhezes da Escocia. Quando uma vacca não se deixa mungir, põem junto d’ella uma pelle de vitello, empalhada, e é a essa pelle que chamam tulchan. Ora para esses bispos que possuíam o titulo e o beneficio, sem desempenharem o cargo, não se encontrou denominação mais significativa do que a de bispos tulchanos.»