A Confissão contém as crenças communs a todas as ramificações da Reforma. Encerra, outrosim, todas as doutrinas chamadas ecumenicas, isto é, as verdades expostas nos primeiros concilies ecumenicos, e incorporadas no Credo dos Apostolos e ao Credo Niceno; e accrescenta aquellas doutrinas de graça, de perdão e de luz mediante a Palavra e o Espirito que com a reviviscencia da religião adquiriram uma proeminencia especial. Esta Confissão é mais notavel pelos seus titulos suggestivos do que por qualquer peculiaridade de doutrina. A doutrina da revelação é, por exemplo, definida por si propria, independentemente da doutrina da Escriptura, mediante este titulo: «A Revelação da Promessa». A Eleição é considerada, segundo o antigo calvinismo, um meio de graça, uma evidencia do «invencivel poder» de Deus quanto á salvação. Os pontos em que a verdadeira egreja se distingue da falsa são, diz-se na dita Confissão a genuina prégação da Palavra de Deus, a adequada administração dos sacramentos, e a justiça na applicação da disciplina ecclesiastica. A auctoridade das Escripturas, affirma tambem, procede de Deus, nada tem que ver nem com homens nem com anjos; e a egreja sabe que ellas são verdadeiras, porque «a verdadeira egreja ouve e obedece sempre á voz do seu Esposo e Pastor.»

Esta Confissão foi primeiro lida toda de uma vez no parlamento, e depois tornada a ler clausula por clausula. Randolpho, o embaixador inglez, que assistiu a essa leitura, descreveu-a a Cecilio, o grande ministro de Isabel, e entre outras coisas diz-nos que, quando se leram os artigos, alguns dos barões ficaram tão commovidos que se levantaram dos seus logares, declarando que estavam promptos a derramar o seu sangue em defeza da Confissão», e que Lord Lindsay, com uma gravidade raras vezes presenciada, disse: «Tenho vivido muitos annos; sou o mais edoso de todos quantos aqui se encontram; e agora que aprouve a Deus deixar-me chegar a este dia, em que tantas pessoas, algumas d’ellas pertencentes á nobreza, sanccionaram uma obra tão digna, direi como Simeão, Nunc dimitis».

A rainha Maria e a Reforma.—A Reforma não tinha de triumphar na Escocia tão de repente e com tanta facilidade. Sir James Sandilands, encarregado de levar a Paris a Confissão de Fé, não só não conseguiu que a joven rainha a assignasse, como o informaram do desagrado com que ella soube dos acontecimentos occorridos na Escocia; e só apoz sete annos de lucta, que terminou com a deposição da soberana, é que a Confissão foi finalmente ratificada e a Egreja Reformada alcançou na Escocia um completo reconhecimento official.

Francisco II, esposo de Maria, morreu em 1561, e a joven rainha chegou á Escocia em agosto do mesmo anno. Vinha acompanhada de um numeroso e brilhante sequito, do qual tambem faziam parte tres de seus tios, membros da casa de Guise, e o filho do famoso Condestavel de Montmorency. O duque de Guise e o cardeal de Lorena acompanharam-n’a até Calais. Os reformadores escocezes conheciam bem os homens que rodeiavam a sua rainha, e que tão ostensivamente se achavam dispostos a protegel-a. Era do dominio publico que o duque de Guise estava á frente de aquelle partido que ambicionava exterminar os protestantes francezes por meio de um massacre geral. Fôra elle, segundo se presumia, o instigador do assassinio judicial de Anne de Bourg, e que havia planeada a, carnificina de Amboise. A devassidão dos Guises só era excedida pela sua deshumana crueldade. Taes eram os homens que passaram á Escocia para acompanhar e aconselhar a joven rainha.

Não é, pois, para surprehender que, ponderando estas coisas, Knox e os seus amigos reputassem a vinda da rainha uma grande calamidade, e que vissem no nevoeiro e chuva que durante dois dias caiu sobre a costa oriental da Escocia, um como que aviso do céu, uma manifesta exposição da felicidade que ella trouxera comsigo para aquelle paiz, felicidade que se poderia traduzir por estas palavras: afflicção, dôr, obscurantismo e impiedade.

A belleza physica, o privilegiado talento, os infortunios e o tragico fim da joven rainha teem-n’a circumdado de uma aureola romantica. E, comtudo, nem mesmo os seus admiradores teem feito inteira justiça á sua indomavel coragem e aos seus grandes dotes intellectuaes. Estava quasi só ao voltar para o seu paiz natal, e viu immediatamente que coisa alguma devia esperar da França e que necessitava de crear um partido em que podesse descançar confiadamente. Era uma rapariga de dezenove annos quando saiu de França; apezar d’isso, Knox, que teve com ella algumas entrevistas pouco depois da sua chegada, parece ter reconhecido n’ella uma mulher superior, e ter-se compenetrado de que havia motivo para receiar que uma das duas, ou a rainha ou a Reforma, tivesse de ir a terra. O combate que ella sustentou sósinha com a Reforma foi observado com anciedade por toda a Europa; e, se ella não tivesse sido educada n’uma côrte tão corrompida, e se não tivesse convergido para ella o odio que aquelles seus parentes, os Guises, haviam inspirado, podia muito bem ser que ficasse victoriosa. Poderá parecer cruel fallar d’este modo, agora que o perigo já lá vae ha seculos, mas o que é verdade é que bastantes familias pacificas e religiosas, tanto na Hollanda, como na França, como no Paiz do Rheno, e com mais razão ainda na Escocia e na Inglaterra, só respiraram á vontade quando o machado poz finalmente, em Fotheringay, termo á triste e agitada vida da rainha Maria.

A lucta começou com a sua chegada. Ella e a sua côrte foram, com todo o espavento, ouvir missa logo no primeiro domingo, posto que fosse prohibido dizer e ouvir missa, sob pena de um severo castigo. Principiou, pois, por infringir as leis do estado, d’esse mesmo estado que havia implantado a Reforma. Se quizessemos contar detalhadamente o que de ahi em deante se passou encheríamos umas poucas de paginas. Apoz sete annos de lucta, Maria foi aprisionada no castello de Lochleven, e deposta, sendo collocado no throno o seu filho, ainda na infancia, James VI, e ficando como regente do reino seu irmão James Stewart, conde de Moray. O parlamento escocez votou novamente a Confissão de Fé; o regente assignou-a em nome do soberano; e, assim ratificado, foi incluido na legislação do paiz e a religião reformada ficou sendo a reforma do christianismo legalmente reconhecida na Escocia.

O Livro de Disciplina e a primeira assembléa geral.—Pouco depois de o parlamento de 1560 ter encerrado as suas sessões, os auctores da Confissão foram encarregados de apresentar uma breve exposição do melhor systema de governo de uma egreja reformada. Surgiu então aquelle notavel documento que depois se chamou o Primeiro Livro de Disciplina, e que constituiu a primeira formula de governo ecclesiastico na Escocia. Dividia-se em sessões da egreja, synodos e assembléas geraes; e concedia o titulo de officiaes da egreja aos ministros, professores, presbyteros, diaconos, superintendentes e ledores. Os auctores do Livro de Disciplina declararam ter ido procurar directamente ás Escripturas as linhas geraes de aquelle systema de governo ecclesiastico a adoptar o qual elles aconselhavam os seus compatriotas, e havia, indubitavelmente, muita sinceridade, a par de muita exactidão, n’essa sua affirmativa. Eram, comtudo, todos elles, homens affeiçoados á Egreja de Genebra, e tinham tido relações pessoaes com os protestantes da França. A sua fórma de governo foi, evidentemente, inspirada pelas idéas de Calvino, e segue de perto as Ordenanças Ecclesiasticas da Egreja franceza. Os officios de superintendente e leitor foram addicionados aos outros tres, ou quatro, que caracterizam a fórma de governo presbyteriana. O cargo de superintendente devia a sua origem á situação incerta do paiz e á escassez de pastores protestantes. Os superintendentes tinham a seu cargo divisões territoriaes que não correspondiam exactamente ás dioceses episcopaes, e competia-lhes apresentar á Assembléa Geral relatorios annuaes do estado ecclesiastico e religioso das respectivas provincias. Os leitores deviam a sua existencia ao reduzido numero de pastores protestantes, á grande importancia que os primitivos reformadores escocezes davam a um ministerio educado, e tambem á difficuldade de obter fundos para a sustentação dos pastores de todas as paroquias. O Livro de Disciplina contém um capitulo sobre o patrimonio da egreja, que insiste na necessidade de reservar os dinheiros possuidos pela egreja para a manutenção da religião, as despezas com a educação, e os socorros dos pobres. Foi a existencia d’este capitulo que fez com que os Estados não aceitassem o livro com tanta promptidão como o fizeram com a Confissão de Fé. Os barões de diversas categorias, que tinham assento na camara, haviam-se, em muitos casos, apropriado do patrimonio da egreja em seu beneficio particular, e não queriam assignar um documento que condemnava o seu modo de proceder. O Livro de Disciplina, approvado pela Assembléa Geral, e assignado por um grande numero de nobres e burguezes, nunca recebeu a sancção official concedida á Confissão.

A Assembléa Geral da Egreja Reformada da Escocia reuniu-se pela primeira vez em 1560, e, a despeito da luta em que a egreja se achava envolvida, houve, pelo menos, uma reunião por anno, e algumas vezes mais, podendo assim a egreja organizar-se e entrar em plena actividade.