Antecipações da Reforma em Inglaterra.—Os historiadores ecclesiasticos fazem, geralmente, datar os principios da Reforma do tempo de João Wycliffe, o qual, no seculo quatorze, era, por assim dizer, a bocca da Inglaterra, revoltando-se contra a supremacia espiritual e temporal que o papa tinha no reino; mas é muito para duvidar que a sua influencia continuasse a ser exercida sobre o povo inglez até ao seculo dezeseis, e por tal fórma que a ella se devam attribuir os desejos de Reforma que enchiam os corações de muitas pessoas de bons sentimentos religiosos.
Como Francisco de Assis e outros reformadores e revivificadores da Edade Media, Wycliffe tinha abraçado apaixonadamente a idéa de que os beneficios da salvação só podem ser aproveitados por aquelles que imitam Christo, e que para imitar Jesus Christo torna-se indispensavel viver na pobreza como Elle. Declarou, portanto, guerra aberta ao bem estipendiado clero da opulenta Egreja de Inglaterra, e prégava que a Egreja, para ser realmente de Christo, devia ser, pobre. Dizia que o Estado não faria mais do que beneficiar a Egreja tirando-lhe a riqueza, pois que era esta um obstaculo a que ella se parecesse com o seu Mestre. Em conformidade com estas idéas, organisou um corpo de prégadores ambulantes, denominados prégadores pobres, os quaes, tendo, a muitos respeitos, parecenças com os evangelistas do movimento wesleyanno, andavam por toda a Inglaterra, proclamando a doutrina da humildade. Era um fervoroso admirador dos grandes juristas medievaes, taes como Guilherme de Ockham, o querido mestre de Luthero, Marsillio de Padua, e Pedro Dubois de Paris. Elles haviam proclamado, n’uma epoca muito anterior, que o Estado não era outra coisa senão o povo; e Wycliffe, seguindo-lhes o exemplo, insistia em que a Egreja não era outra coisa senão o povo. Ora isto atacava o systema da Egreja medieval, que se apoiava na noção de que a verdadeira Egreja era o clero, e de que o povo só fazia parte d’ella quando se punha em contacto com os clerigos, que eram depositarios dos sacramentos. Foi por esse motivo que elle traduziu a Biblia, que era o Livro da Egreja, e, portanto, do povo christão, e não sómente do clero. As idéas da Wycliffe foram avidamente adoptadas por uma grande parte da população ingleza, e os seus discipulos, os lollardos, constituiram, por algum tempo, uma fortissima aggremiação.
O lollardismo foi indubitavelmente uma preparação para a Reforma, e os homens biblicos, como lhes chamavam, teriam exercido uma grande influencia sobre o povo, no sentido de o predisporem para uma revivificação da religião espiritual se tivessem existido na epoca em que se operou o movimento reformador. Não se pode, porém, provar que elles communicassem com essa geração, e não ha indicio algum de que nos reinados de Henrique VII e Henrique VIII estivesse desenvolvido o gosto pela leitura da Biblia ou houvesse uma corrente de sympathia pelos prégadores pobres. O povo inglez, tomado na sua totalidade, parece não se ter inclinado para a Reforma antes do tempo de Isabel.
O estado ecclesiastico da Inglaterra no principio da Reforma.—Quando começou na Allemanha o movimento da Reforma, houve, sem duvida, muitos inglezes que se sentiram attraidos para o reformador saxonio, e que desejaram ver introduzido na Egreja um credo mais simples e mais em harmonia com a Palavra de Deus, e uma fórma de culto como a que era usada nos tempos apostolicos; mas a maioria não partilhava essas idéas. Havia, certamente, muitissimas pessoas que desejariam ver modificados os costumes dos clerigos, e especialmente o caracter moral dos frades, e que ficariam satisfeitas se as propriedades da Egreja fossem sujeitas a impostos e os grandes rendimentos dos bispados e das abbadias soffressem alguma diminuição. E eram em numero sempre crescente as que se sentiam desgostosas com a ignorancia do clero, e que, por motivos politicos ou sociaes, desejavam ver cerceada a influencia do bispo de Roma. Não lhes agradava a sua interferencia nas questões politicas, e indignava-os a saida de grossas quantias para fóra do reino.
Não é provavel que o caracter moral do clero romano fosse peior em Inglaterra do que em qualquer outro paiz, mas o que é verdade é que os padres, com a sua conducta, desacreditavam a Egreja. O clero era de uma ignorancia crassa, e havia, talvez, em Inglaterra menos conhecimento das Escripturas do que na França ou na Allemanha, pois que, desde a epoca do lollardismo, a leitura da Biblia era considerada um acto criminoso. A Biblia era um livro desconhecido para os padres, e Erasmo conta que viu, preso por uma corrente a uma coluna da cathedral de Canterbury um Evangelho de Nicodemos que era lido como fazendo parte da Escriptura canonica.
O alto clero pouco tinha que fazer na Egreja, e occupava-se em dirigir os negocios do Estado, ou em presidir ás audiencias nos tribunaes de justiça. O arcebispo de Canterbury era Lord Chanceller, o bispo de Winchester director geral da Thesouraria, o bispo de Durham secretario de Estado, e o bispo de Londres guarda-mór dos arquivos. Os bispos de Bath, Hereford, Llandaff e Worcester nem sequer residiam no reino.
Dadas estas circunstancias, não é para estranhar que aquelles que amavam sinceramente a instrucção se sentissem indignados perante a ignorancia do clero, e procurassem abrir os olhos, não só a estes como ao povo em geral; e que os patriotas inglezes, lembrando-se das antigas tradições de um paiz que durante seculos havia mantido uma attitude altiva e reservada para com as pretensões da Curia Romana, tivessem immensa vontade de annular o poder do papa em Inglaterra. Como que exteriorisando o desejo preponderante, surgiu um grupo de mancebos instruidos, capitaneados por Colet, deão de S. Paulo, e Thomaz More, cujo intuito era purificar a Egreja, o povo e o clero, e incitar a Egreja nacional de Inglaterra a resistir ás usurpações do bispo de Roma.
As relações de Inglaterra com o pontificado.—Os bispos de Roma, na Edade Media, reivindicavam a supremacia, tanto espiritual como temporal, e o povo inglez havia resistido, por mais de uma vez, ás suas reivindicações. Os papas, desde o tempo de Innocencio III, sustentavam que todos os reis e principes eram seus vassallos, tanto pelo que dizia respeito ás coisas sagradas como aos negocios civis. Este direito havia sido imposto no reinado de João, que pagara tributo a Roma em reconhecimento da supremacia papal. Quando, porém, foi exigido esse tributo aos sucessores de João, elles, indignados, recusaram pagal-o. E a Inglaterra, sem deixar de pertencer á Egreja Catholica medieval, havia repudiado o direito do papa a intervir nas questões nacionaes. Rei algum inglez, excepto João, se considerou vassallo do papa. Não era uma coisa nova em Inglaterra, o não reconhecer a supremacia do papa nos negocios temporaes.
Os papas tinham, desde o principio da Edade Media, exigido que os reputassem arbitros supremos em todos os negocios espirituaes, e, por consequencia, a Egreja ingleza devia estar sujeita ao seu dominio absoluto. Estas reivindicações apresentavam-se, na pratica, debaixo das seguintes fórmas: Os papas queriam que lhes fosse reconhecida a decisão final em todas as nomeações ecclesiasticas; isto é, nenhum bispo, ou abbade, ou outro qualquer dignitario da Egreja podia ser collocado n’este ou n’aquelle posto sem a approvação do papa em ultima instancia, e esta sua supremacia queriam que lhes fosse reconhecida de uma fórma prática mediante o pagamento do primeiro anno do estipendio que correspondia a cada oficio ecclesiastico. Queriam ter a decisão final em todas as questões que se levantassem no seio da Egreja ingleza. E isto significava, praticamente, que todos os clerigos, bispos, abbades, simples padres e frades só podiam ser julgados pelos tribunaes ecclesiasticos, e que o accusador ou o defensor tinha sempre o direito de appellar dos tribunaes inglezes para o tribunal pontificio. Reivindicavam tambem que as leis canonicas, isto é, as leis da Egreja promulgadas pelos concilios e pelos papas, fossem reconhecidas em Inglaterra e tivessem a mesma força que as leis ordinarias.
A supremacia espiritual do papa tinha sido repetidas vezes repellida pelo povo inglez. Os reis de Inglaterra tinham declarado e tornado a declarar que em caso algum se poderia appellar dos tribunaes inglezes para a Curia Romana. Estas declarações tinham tomado a fórma de decretos, e no reinado de Ricardo II ficaram englobadas no famoso codigo de Proemunire. Segundo este codigo, ou estatuto, como lhe chamavam, qualquer appellação para um tribunal de justiça estrangeiro, romano ou de outra qualquer nacionalidade, era um crime a que correspondia um castigo severo. Sustentava, de uma maneira peremptoria, que o rei era o arbitro supremo em todas as questões civis ou ecclesiasticas, e tornava punivel qualquer appellação de sentenças proferidas nos tribunaes civis para juizos ecclesiasticos, quer da Inglaterra quer da Italia.