Além dos protestos do rei e do parlamento, reunidos n’este estatuto, o povo, n’uma grande occasião pelo menos, negou solemnemente a supremacia do papa, e asseverou a independencia da Egreja ingleza. A Magna Charta foi feita com o intuito de restringir o poder pontificio, assim como de reprimir o do rei; e a sua primeira clausula reivindicou a independencia da Egreja de Inglaterra—Quod ecclesia anglicana libera sit et habeat omnia jura sua integra et libertates suas illaesas.
E Egreja e o povo inglez haviam-se acostumado a protestar contra a interferencia papal, e os reformadores que tinham simplesmente em vista promover a instrucção do clero, e reprimir a auctoridade que o papa exercia na Inglaterra, podiam dizer, com exactidão historica, que não punham em pratica uma coisa nova.
As aspirações d’esses reformadores podem ser apreciadas no romance politico escripto por um dos mais intelligentes d’entre elles,—a Utopia, de Thomaz More. Para esses homens a Reforma era apenas um movimento intellectual e politico. Não era uma revivificação religiosa. Podiam sympathizar com os concilios reformistas do secolo quinze, mas entre elles e Wittenberg ou Genebra havia poucos pontos de contacto.
As primitivas relações de Henrique VIII com o pontificado. Defensor da Supremacia papal.—Estes reformadores do estudo e da camara do conselho saudaram com regozijo a subida de Henrique VIII ao throno de Inglaterra. Suppunha-se, exactamente como aconteceu com o seu contemporaneo, Francisco I de França, que o joven rei fosse um amigo da nova litteratura, e um soberano predisposto a extirpar abusos. A desillusão não se fez esperar. Logo de principio mostrou ser um dedicado defensor da supremacia papal. A sua posição era estranha, e necessita de uma explicação.
Henrique VII, o primeiro rei da casa de Tudor, havia conquistado o throno de Inglaterra no campo de Bosworth, e conservava-o mediante uma precaria subemphyteuse. Anhelava por tornar mais firme o seu poder mediante uma alliança com um paiz estrangeiro, e, passando a Europa em revista, certificou-se de que Fernando de Hespanha era quem o poderia auxiliar melhor. Effectuou, portanto, com alguma dificuldade, o casamento de seu filho mais velho, Arthur, com Catharina de Aragão, uma das filhas de Fernando. Arthur morreu passado pouco tempo; e Henrique, desejando manter a todo o transe a alliança hespanhola, tratou com todo o afan de casar Catharina com o seu segundo filho, Henrique, que foi depois Henrique VIII. O papa concedeu uma dispensa, e o casamento realisou-se. Henrique VIII teve, pois, por mulher a viuva de seu irmão.
Nunca se poude saber ao certo se Arthur e Catharina foram realmente casados. Se o casamento não passou de um contracto legal, não havia motivo para que a dispensa do papa não fosse bem acceite mesmo por aquelles que não viam com muito bons olhos a supremacia papal; se foi, porém, um casamento em toda a accepcão da palavra, ficou então demonstrado que o papa tinha auctoridade para conceder uma dispensa que ia de encontro as leis divinas de parentesco. Segundo a opinião geral, Arthur e Catharina viveram conjugalmente, de modo que Henrique casou realmente com a viuva de seu irmão, e assim a dispensa do papa só poderia ser concedida no caso de elle possuir aquelles supremos poderes que os ultramontanos lhe atribuem. A legalidade do casamento de Henrique e a legitimidade de sua filha Maria baseiava-se, portanto, na supremacia do papa. E não é para admirar que Henrique VIII, no principio do seu reinado, se conduzisse, no tocante a essa supremacia, mais em conformidade com a opinião dos ultramontanos do que com as tradições da corôa de Inglaterra. É que a validade do seu casamento, a legitimidade de seus filhos, e o direito que a estes assistia de lhe succederem no throno, dependiam, como já dissemos, da supremacia do papa.
Quando Luthero atacou o papa, Henrique tomou ostensivamente a defeza do Bispo de Roma, e rei algum, depois de João, apoiou mais em absoluto as reivindicações do papa do que elle. Os seus interesses pessoaes, assim como os interesses de sua mulher e de seus filhos, estavam dependentes d’esse seu apoio. A Inglaterra, no principio do reinado de Henrique, estava positivamente avassallada á Sé de Roma. Henrique, posto que se sentisse inclinado, pela educação recebida, a adoptar as idéas de Colet, More e Erasmo, via-se obrigado, em vista da situação particular em que se encontrava, a manter-se n’uma attitude de irreconciliavel hostilidade, e o facto de ter reprovado os actos de Luthero conquistou-lhe o titulo de Defensor da Fé.
Henrique muda de opinião.—Henrique nunca deixou de reconhecer a supremacia do papa em todos os assumptos, durante os primeiros dezoito annos do seu reinado. De um momento para o outro, porém, começou a pensar de differente modo, e podem-se apresentar bastantes razões para essa subita mudança de idéas. Parece que elle teve sempre duvidas ácerca da legitimidade do seu casamento com Catharina, e que essas duvidas se avolumaram á medida que ia perdendo a esperança de ter um filho varão que lhe succedesse, chegando a convencer-se de que esse facto representava um castigo divino por haver desposado a viuva de seu irmão. Durante todo esse tempo, comtudo, a alliança hespanhola, que fôra tratada primeiramente com Fernando, e mais tarde com o neto d’este, o imperador Carlos V, havia sido de grande utilidade para Henrique e para a Inglaterra; e essa mesma aliança é que havia, na opinião do rei, de firmar o throno de sua filha, cuja legitimidade, declarada pelo papa, encontraria no imperador um inabalavel sustentaculo.