Carlos V, porém, estava absorvido nos seus planos de anniquilar a Reforma, e estabelecer o imperio medieval, e o papa só pensava em conquistar para si uma posição independente, em se tornar o primeiro dos principes italianos, revestido de todo o poder secular, de modo que nenhum d’elles correspondia á expectativa de Henrique. Este deixou de ter confiança na fidelidade d’elles á sua casa, quanto á sucessão do throno. Encontrava-se n’uma situação embaraçosa, e, como meio mais rapido de sair das suas difficuldades, resolveu pedir ao papa que o divorciasse de Catharina de Aragão. Cessariam d’esse modo os seus escrupulos de consciencia por haver casado com a cunhada; poderia contrair novo casamento, a alimentar a esperança de ter um filho macho, seu legitimo herdeiro. Entendeu-se, pois, com o cardeal Wolsey, seu ministro, e dirigiu ao papa um pedido de divorcio.

N’aquela ocasião, porém, o papa queria evitar qualquer desintelligencia com Carlos V, sobrinho de Catharina, e recusou dar o seu consentimento para o divorcio, sendo então que Henrique, homem muito exaltado, e a quem os obstaculos não faziam recuar, decidiu divorciar-se não obtante a recusa do papa. Todos os interesses pessoaes que até certo tempo levaram o rei a apoiar a supremacia papal se ligavam agora para que elle fizesse exactamente o contrario. Se o papa tivesse sanccionado o divorcio, não teria havido, provavelmente, ruptura com Roma, porque o rei continuaria a ter interesse em que se mantivesse a supremacia papal; as circumstancias, porém, aconselhavam-n’o a enveredar por outro caminho, e foi o que elle fez.

Thomaz Cromwell alvitrou que se consultassem as universidades da Europa sobre a legalidade do casamento de Henrique e este acceitou o alvitre com grande alvoroço. Tratou-se, por conseguinte, de pôr esta idéa em execução, entregando-se a eminentes vultos, a verdadeiras summidades, o decidirem a questão segundo as leis canonicas, tendo ao mesmo tempo na devida consideração a sensivel consciencia do rei. Apoz algum tempo, e tendo-se dispendido com isso uma fabulosa quantia, as universidades declararam, por uma muito pequena maioria, que o casamento de Henrique com Catharina não era valido, concluindo-se d’esta decisão que Henrique não tinha herdeiro algum legitimo.

Animado com este veridictum, resolveu pôr em pratica qualquer das duas coisas seguintes: alarmar o papa, obrigando-o assim o conceder o divorcio, ou repudiar a sua auctoridade suprema.

Foram muitos os motivos secundarios que contribuiram para que elle tomasse esta ultima deliberação. Henrique, que gostava de viver com muita ostentação, tinha desbaratado, havia muito, as riquezas que o pae amontoara, e era-lhe impossivel augmentar os impostos. Os cofres do Estado estavam despejados, e para os encher bastaria o espolio dos conventos e mosteiros. Isto constituiu uma das razões, mas havia uma outra que appellava mais fortemente para a sua vaidade.

Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles.—As tres grandes potencias europêas no tempo da Reforma eram Hespanha, França e Inglaterra, e não podia deixar de haver rivalidade entre os respectivos monarcas. O rei de Hespanha, que era o mais poderoso dos tres, era tambem imperador da Allemanha, e todo o seu empenho consistia em restabelecer no imperio o esplendor que este tivera na Edade Media. Segundo as antigas noções medievaes, não havia mais do que uma christandade, o imperador era supremo e soberano, e todos os outros reis estavam sob a sua dependencia. Se Carlos fosse bem succedido nos seus esforços, Francisco e Henrique passavam a occupar uma posição inferior á que tinham, e, portanto, convinha-lhes trabalhar para que o plano de restauração não vingasse. Uma christandade medieval implicava uma egreja indivisa, centralizada no papa, o bispo de Roma. A politica dos reis da França e de Inglaterra insistia em obstar a essa centralização ecclesiastica, e fazer com que as egrejas das suas respectivas nações se tornassem o mais independentes de Roma que fosse possivel.

Francisco havia conseguido isso quanto á França, e de um modo que contribuiu bastante para que o seu prestigio augmentasse, e o seu poder se consolidasse dentro do proprio reino. O papa, mediante a Concordata de 1516, havia, sob a condição de que os annates seriam pagos com regularidade, e de que lhe seriam feitas certas e determinadas concessões, investido praticamente o rei de França na chefatura da egreja franceza, dando-lhe liberdade para prover como entendesse os differentes cargos ecclesiasticos.

Henrique, rival de Francisco, era tambem seu imitador, e havia de lhe ser difficil deixar de ter inveja das regalias que o papa lhe tinha concedido. O que Francisco recebeu pela Concordata de 1516, deu o parlamento inglez a Henrique quando o proclamou chefe supremo, sobre a terra, da egreja de Inglaterra. De modo que em França a supremacia do rei sobre a egreja fez com que fossem toleradas as reivindicações papaes, ao passo que em Inglaterra promoveu a revolta contra Roma. A França, liberta do dominio papal por livre vontade do proprio papa, podia ficar por ahi, mantendo, a todos os outros respeitos, as velhas tradições da egreja. A Inglaterra, que alcançara a sua independencia contra a vontade do papa, e por meio de um acto de rebellião contra a sua auctoridade, tinha de ir mais longe; para conservar a posição que tomara era-lhe necessario afastar-se cada vez mais de Roma.

Sucedeu, assim, que a Reforma em Inglaterra foi o avanço quasi involuntario de uma nação revoltada contra Roma, pois que a sua resistencia á curia romana foi, em primeiro logar, o meio de que um imperioso monarca se serviu para conseguir o seu engrandecimento pessoal, e, em segundo logar, o meio de que um povo se serviu para conseguir a sua independencia. A França, a despeito dos huguenotes, conservou-se catholica romana; a Inglaterra, a despeito de Henrique VIII, tornou-se uma nação protestante.

A submissão do clero.—Henrique depressa se certificou de que não era possivel constranger o papa, mediante o medo, a conceder-lhes o divorcio, mas resolveu obrigar o clero inglez a conformar-se pelo medo com as suas deliberações. O cardeal Wolsey foi nomeado nuncio do papa em Inglaterra, e todos os bispos e mais clerigos o reconheceram como tal. Ora em 1531 o rei acusou-o abruptamente de haver transgredido a lei do Proemunire pelo facto de acceitar aquelle cargo e cumprir, ainda que só apparentemente, os deveres que lhe eram inherentes, e accusou egualmente todos os clerigos de Inglaterra de serem cumplices d’esse crime pelo facto de o aceitarem na qualidade de embaixador do papa. Declarou, outrosim, que tanto Wolsey como todos os clerigos da egreja ingleza haviam incorrido, em virtude d’esse delicto, na perda de todos os bens ecclesiasticos de que estavam de posse. O clero ficou seriamente alarmado, e, para evitar uma catastrophe maior, sujeitou-se a pagar uma multa de 118:000 libras e a assignar, ainda que de má vontade, uma declaração de que o rei era «o unico protector, o unico senhor supremo, e, até onde é permittido pela lei de Christo, o supremo cabeça da egreja e do clero». A ambiguidade que se nota n’este reconhecimento foi intencional. Era um subterfugio para as consciencias fracas, mas o rei ficou satisfeito com a phrase, certo como estava de que poderia obrigar o clero a proceder segundo a interpretação que elle proprio lhe dava.