O rei recusou sanccionar estes Artigos, e foi-se gradualmente afastando do plano de uma alliança protestante. Cromwell caiu no desagrado de seu amo em virtude da persistencia com que advogava esse plano, chegando a apresentar um projecto de casamento de Henrique com Anna de Cleves, com o fim de cimentar a alliança. Morreu no cadafalso, como havia succedido a More e a Fisher, e o rei foi-se tornando cada vez mais reaccionario.
O Estatuto Sanguinario, ou os Seis artigos.—O primeiro indicio d’esse facto foi a publicação do Livro do Rei, ou a Necessaria Doutrina e Erudição para todos os Christãos. Em 1539, Henrique resolveu voltar á politica do primeiro periodo do seu reinado, e poz-se em communicação com Carlos V. A mudança na politica exterior do rei teve repercussão nos negocios internos. Foram promulgados os Seis Artigos, «para abolir a diversidade de opiniões», e foi revogoda a permissão de ler a Biblia traduzida por Tindal.
Estes Artigos exigiam de todos os inglezes, sob pena de confiscação dos bens, e de morte, que cressem na transubstanciação, que negassem a necessidade dos leigos participarem do calix na communhão e que admittissem o celibato do clero, a obrigação dos votos de castidade e a necessidade das missas e da confissão auricular.
As doutrinas das egrejas reformadas da Allemanha e da Suissa tinham feito algum progresso na Inglaterra, não obstante as perseguições, e haviam sido abraçadas por um grande numero de pessoas durante aquelles annos de tolerancia em que Cranmer e Cromwell dirigiram a politica do rei, e esta lei dos Seis Artigos deu logar a uma grande perseguição. O povo chamava-lhe o Estatuto Sanguinario e o Chicote das Seis Cordas. Deu principio a um reinado de terror, que só terminou com a morte do rei. Felizmente para a nação, esta não se fez esperar muito.
O estado da Egreja de Inglaterra em 1547.—Henrique morreu em 1547, deixando tres filhos: Maria, filha de Catharina de Aragão, com 31 annos; Isabel, filha de Anna Boleyn, com 14; e Eduardo, filho de Jane Seymour, com 10. Maria e Isabel haviam sido declaradas illegitimas pelo parlamento. Eduardo succedeu a seu pae no throno.
Henrique deixou atraz de si um caos, para sair do qual teve a nação de sustentar uma tremenda lucta. O rei, emquanto viveu, susteve com mão ferrea os romanistas extremos e o partido protestante, e manteve até ao fim o seu ideal, que era uma egreja catholica, desligada do papa. E conseguiu-o, pondo-se no logar outr’ora occupado pelo papa. Exercia sobre a Egreja uma auctoridade muito mais absoluta do que sobre o Estado. A posição era difficil de sustentar, e foi-o muito mais para os monarcas que succederam a Henrique, pois que as idéas reformistas iam-se propagando cada vez mais. Deixou tambem sem solução muitos problemas politicos. Os cofres publicos estavam vasios. A sua politica exterior foi um subterfugio, que collocou em grandes embaraços os seus successores. A venda dos bens da Egreja produziu uma mudança, tanto social como economica, que difficultou a vida da nação.
O assumpto, porém, que exigia immediata resolução era: A Inglaterra devia abraçar a Reforma, ou voltar de novo para o romanismo? A Egreja não podia permanecer na situação em que Henrique a havia deixado.