Será adoptada a Reforma? [pag. 175].—A visita real, o Livro de Homilias e o Livro de Oração Commum, [pag. 176].—A alliança com o protestantismo continental, [pag. 178].—Os Quarenta e Dois Artigos, [pag. 178].—Os principios do puritanismo, [pag. 179].—A morte de Eduardo VI, [pag. 181].—O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria, [pag. 182].—A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra, [pag. 183].—Como Maria se firmou no throno, [pag. 183].—A alliança hespanhola, [pag. 184].—A reconciliação com Roma, [pag. 184].—Porque não foi bem succedida a reacção papal? [pag. 185].—As perseguições durante o reinado de Maria, [pag. 186].—A questão dos bens de raiz da Egreja, [pag. 186].—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, [pag. 187].—A morte de Maria, [pag. 187].

Será adoptada a Reforma?—Quando Henrique morreu, succedeu-lhe seu filho, Eduardo VI, que era então um rapazito de dez annos. Pouco antes de morrer, Henrique fez testamento, em que deixou instituido um conselho de regencia, composto de dezeseis membros da nobreza, o qual entrou logo no exercicio das suas funcções, começando a governar. O referido conselho escolheu o conde de Hertford, que fazia parte d’elle, para o logar de protector do reino, recebendo n’essa occasião, em conformidade, segundo se diz, com o que estava estabelecido no testamento, o titulo de duque de Somerset. A questão mais grave que este conselho de regencia tinha de resolver era a questão religiosa. A Inglaterra não podia continuar no estado em que se encontrava. Ou a Egreja se reformava, ou a nação tinha de renovar a sua alliança com Roma. Se se tivesse consultado a opinião publica, ver-se-hia, provavelmente, que uma grande maioria era partidaria do romanismo. Os ultimos annos do reinado de Henrique tinham sido uns annos de terror, e todas as desventuras eram attribuidas á supremacia real em materia de religião. O povo de Inglaterra, por outro lado, estava pouco ao facto das doutrinas reformadas, e a Biblia não estava vulgarisada. A Reforma não havia sido prégada na Inglaterra, como o fôra na Allemanha e na França. Não havia excitado o enthusiasmo popular.

A extincção dos conventos tinha feito com que a gente do campo desejasse voltar ao antigo systema. Os inglezes não haviam opposto obstaculo algum á extincção dos conventos e á confiscação dos bens da Egreja quando isso foi pela primeira vez decretado; mas os camponezes em breve descobriram que a unica coisa que havia resultado para elles fora uma substituição de amos com quem se davam perfeitamente por outros que custavam immenso a supportar. Os novos proprietarios vedavam os logradouros publicos, derrubavam os muros e as sebes que dividiam entre si as quintas pequenas para formarem extensas propriedades, e preferiam as pastagens ás searas de trigo, diminuindo assim o valor das terras e dando logar a uma grande falta de trabalho. A pobre gente suspirava por aquillo a que chamava os bons tempos.

A extincção dos conventos tinha, por outro lado, atirado cá para fóra com uma legião de homens que não tinham profissão alguma e incapazes de ganhar a vida, era preciso cuidar d’essa gente. O governo havia entendido que o meio menos dispendioso de arrumar os frades era collocal-os nas freguezias, na qualidade de parocos ou de coadjuctores. E assim a Egreja encheu-se de homens que trabalhavam de má vontade, e que odiavam aquella nova ordem de coisas que lhes havia transtornado a vida.

Todas estas coisas tornavam duvidoso se a Inglaterra adoptaria a Reforma ou se reconciliaria com Roma.

Por outro lado, havia homens fervorosos e cheios de resolução, que estavam promptos a dar tudo quanto possuiam, e até a propria vida, pela causa da Reforma, que elles estavam na convicção de ser a causa de Christo. No numero d’esses homens figuravam o Protector, Somerset, e outros membros do conselho da regencia, que deliberaram introduzir a Reforma na Inglaterra. A intenção de se manter a supremacia real appareceu sob a fórma de uma carta dirigida aos bispos, intimando-os a solicitar do novo soberano a renovação das suas licenças. Isto tinha sido inventado por Cromwell para que não fossem prejudicadas as regias prerogativas.

A real inspecção.—O Livro das Homilias.—O Livro de Oração Commum.—Ordenou-se uma real inspecção a todo o reino. O paiz foi dividido em seis circumscripções, e para cada uma d’ellas foi nomeado um funccionario, que deveria averiguar se os serviços ecclesiasticos estavam sendo executados segundo as leis vigentes. A jurisdicção episcopal esteve durante algum tempo suspensa, pois que os inspectores iam em nome do rei. Providenciou-se tambem para que fossem melhorados os serviços ecclesiasticos em certas localidades onde foram encontradas deficiencias. O arcebispo Cranmer, que lá no seu intimo havia sido sempre lutherano, e que animara o conselho da regencia em todos os planos d’este, compoz um Livro de Homilias, que foi entregue ao clero paroquial, com a recommendação de ser lido nas egrejas. A Paraphrase do Novo Testamento, de Erasmo, foi adaptado ao uso inglez, e deu-se ordem para que tambem fosse lida no culto publico.

Estas medidas não foram tomadas sem opposição. Gardiner, bispo de Winchester, que tinha adquirido grande influencia sobre Henrique VIII nos ultimos annos da vida d’este, e que fôra um dos auctores do Estatuto Sanguinario, estava á testa do partido reaccionario, e protestou contra todas as propostas dos visitadores.

Entretanto o parlamento reuniu-se, aboliu os Seis Artigos, declarou que os clerigos ficavam desobrigados do voto de celibato, que na Ceia do Senhor o vinho, assim como o pão, devia ser administrado aos leigos, e approvou a politica ecclesiastica do Protector Somerset.