As inspecções proseguiram. A fim de tornar o serviço nas egrejas mais simples, mais attrahente e mais uniforme, ordenou-se o uso do Livro de Oração Commum, compilado, por Cranmer, dos antigos rituaes. Foi este o Primeiro Livro de Oração Commum de Eduardo VI, e, posto que mais tarde passasse por algumas modificações e fosse um tanto augmentado, é, no seu conjuncto, o de que a Egreja de Inglaterra faz uso actualmente.
Iam apparecer em breve outros indicios de um afastamento do romanismo. As imagens e reliquias das egrejas foram destruidas. Aboliram-se os antigos dias de jejum, e o arcebispo Cranmer deu o exemplo, comendo carne, á vista de todos, na quaresma.
Tudo isto desgostou immenso uma grande parte, talvez a maioria, do povo e do clero, sem que, comtudo, resistissem abertamente. Bonner, bispo de Londres, tentou oppôr-se indirectamente á corrente, declarando que o novo Livro de Orações podia ser tomado n’um sentido romanista; mas isso apenas levou a uma mais decisiva definição dos seus termos theologicos, á remoção dos altares das egrejas e á sua substituição por mesas, e á preparação de um novo Livro de Ordem.
Dentro em pouco tempo todo o aspecto da Egreja se havia mudado, e em doutrina e culto a Egreja de Inglaterra tinha-se tornado protestante. As mudanças que se haviam feito tinham promovido um grande sentimento de desagrado para com Somerset; houve tentativas de revolta; e, posto que estas fossem suffocadas, a falta de bom exito do Protector, tanto na politica exterior como na interna, combinada com o desagrado produzido pelas suas medidas religiosas, deu origem á sua queda, sendo succedido pelo conde de Warwick.
A alliança com o protestantismo continental.—A subida de Eduardo ao throno e a politica protestante de Somerset e Warwick animaram o arcebispo Cranmer a renovar o seu antigo plano de uma alliança entre a Egreja Romana e as Egrejas protestantes do Continente. Sob o congenial patrocinio de Somerset, o plano de Cranmer parece ter incluido uma assembléa, em Inglaterra, de delegados de todas as egrejas protestantes com o fim de convocarem um concilio protestante que podesse servir de resposta ao concilio de Trento e organizar um credo protestante commum.
Isto nunca se levou a effeito; mas Cranmer conseguiu que diversos theologos estrangeiros o ajudassem a instruir o povo inglez na fé reformada. Martinho Bucer e Paulo Fagius vieram de Strasburgo para Inglaterra, e installaram-se em Cambridge, onde fizeram prelecções sobre theologia e sobre as Escripturas do Antigo Testamento. Dois distinctos italianos, Pedro Martyr de Florencia e Bernardo Ochino de Sienna, vieram leccionar para Oxford. Estes theologos estrangeiros, todos elles abalisados professores, instruiram um grande numero de rapazes nos artigos da fé reformada, e prepararam uma geração de prégadores para a futura Egreja de Inglaterra. Sustentaram tambem, segundo o uso continental, polemicas publicas sobre pontos controversos de theologia, taes como a Transubstanciação, o Celibato do Clero, o Purgatorio, etc.
Todos estes theologos eram mais calvinistas do que lutheranos, e foi mediante elles que a Egreja de Inglaterra adquiriu aquella inclinação para o modo calvinista, opposto ao lutherano, de expôr as doutrinas da fé christã que serviu de molde aos seus artigos.
Os Quarenta e Dois Artigos.—Um dos resultados d’estas discussões e disputas doutrinaes foi a publicação, em 1553, dos Quarenta e Dois Artigos, que tinham por fim exprimir em fórma confissional o credo da Egreja Reformada de Inglaterra. Foram obra de Cranmer, coadjuvado pelos bispos e por outros homens de erudição. Cranmer tinha começado a escrevel-os em 1549; e acabou-os em 1552.
A apparição d’estes Quarenta e Dois Artigos foi muito opportuna. A rivalidade dos dois partidos, o romanista e o protestante, as polemicas publicas dirigidas pelos theologos estrangeiros, e os trabalhos dos prégadores ambulantes como João Knox, haviam feito com que o povo desejasse ardentemente uma auctorizada exposição de doutrina tal como estes artigos forneciam. Definiam com grande clareza os limites das mudanças que a Egreja havia feito, quanto á sua theologia medieval.